Almargem é uma aldeia situada na freguesia de Calde, no concelho de Viseu, região Centro de Portugal. Localiza-se na margem direita do Rio Vouga, nas encostas da Serra Arada, integrando o conjunto de povoações que compõem a freguesia de Calde (juntamente com Cabrum, Paraduça, Póvoa de Calde, Várzea de Calde, Vilar do Monte e o lugar de Vila Pereira).
É uma pequena localidade rural com cerca de 210 habitantes, segundo registos recentes. A denominação "Almargem" tem origem árabe - derivada do termo al-marj, que significa "prado" ou "pastagem" - refletindo a influência linguística muçulmana na toponímia local.
História A ocupação humana da região de Almargem e Calde remonta possivelmente à época romana ou pré-romana. Vestígios arqueológicos como trechos de estradas antigas, indicam a presença de vias romanas atravessando a a freguesia. Após a queda do Império Romano e durante as invasões, a área terá sofrido influência dos povos germânicos (Suevos e Visigodos) e, posteriormente, da ocupação muçulmana. O topónimo Almargem – com o prefixo “Al-” de origem árabe – é citado como o exemplo mais evidente da presença cultural árabe na região, embora sem prova de um povoamento permanente árabe na aldeia. A tradição local sugere que a invasão muçulmana provocou uma estagnação demográfica na antiga “villa” de Calde, travando temporariamente o seu crescimento populacional.
Durante a Reconquista cristã e a reorganização feudal, Calde (da qual Almargem faz parte) tornou-se uma “honra” de fidalgos medievais, isto é, um território sob jurisdição de famílias nobres no período medieval. Não há registos precisos sobre a fundação eclesiástica inicial da paróquia local (Santa Maria de Calde), mas historiadores sugerem que possa ter origens no processo de cristianização da região durante a época suevo-visigótica. Até ao século XVI, Calde dependia da paróquia de São Pedro de Lordosa, passando depois a constituir freguesia autónoma.
Um marco importante na história administrativa ocorreu em 24 de julho de 1515, quando o rei D. Manuel I concedeu foral à terra então designada por “Caldas do Couto de Lafões”. Este nome temporário (Caldas) deveu-se provavelmente à presença de águas termais na zona (a palavra caldas refere-se a termas ou nascentes de água quente). Contudo, a designação regressou posteriormente a “Calde”, nome pelo qual a freguesia já era conhecida desde pelo menos o século XIII (surgindo como Caldi ou Caldy nas Inquirições medievais).https://viseunovo.pt/storage/documentos/aru-de-povoa-de-calde/memoria-descritiva-povoa-de-calde.pdf#:~:text=A%20povoa%C3%A7%C3%A3o%20de%20Calde%20aparece,Almargem%E2%80%9D
Ao longo dos séculos seguintes, Almargem manteve-se como uma pequena comunidade agrícola inserida na freguesia de Calde, participando da sua história comum. A existência de um trecho de estrada romana nos arredores da aldeia é testemunho da continuidade de ocupação e da importância viária antiga: um troço pavimentado com cerca de 600 metros de extensão, classificado como Imóvel de Interesse Público, atravessa colinas próximas de Almargem e terminava num ponto cortado pela atual EN 2. Essa via antiga ligava a região ao centro urbano de Viseu e incluía, outrora, a travessia do rio Vouga através de uma ponte ou poldras (passagem em pedras) hoje desaparecida. Além disso, a freguesia abriga outros vestígios históricos, como sepulturas escavadas na rocha e lagares rudimentares (chamados “lagaretas árabes”), indicando hábitos funerários e agroindustriais de épocas remotas.
População e Demografia A aldeia de Almargem caracteriza-se por uma população reduzida e envelhecida, refletindo as tendências demográficas das zonas rurais do interior. Estima-se que atualmente residam em Almargem cerca de 200 a 210 habitantes, número aproximado que faz da localidade uma das menores da freguesia. Historicamente, o conjunto da freguesia de Calde atingiu o pico populacional em meados do século XX – o censo de 1960 registou 2.639 habitantes na freguesia.https://www.ine.pt/ngt_server/attachfileu.jsp?look_parentBoui=72846784&att_display=n&att_download=y A partir de então, verificou-se um acentuado êxodo rural e declínio demográfico: muitas famílias emigraram para centros urbanos ou para o estrangeiro em busca de melhores oportunidades, resultando numa contínua perda populacional nas décadas seguintes. No censo de 2011, a freguesia contava 1.469 residentes, número que desceu para 1.271 habitantes em 2021 – uma diminuição de mais de 50% em relação aos valores de 1960. Este decréscimo demográfico afetou igualmente Almargem, traduzindo-se numa comunidade cada vez mais envelhecida (em 2021, cerca de 42% dos habitantes da freguesia tinham 65 ou mais anos, proporção semelhante ou superior na aldeia). A densidade populacional baixa e o abandono de habitações são traços visíveis da desertificação rural. Em contrapartida, verifica-se ocasionalmente o regresso de alguns descendentes ou a chegada de novos moradores atraídos pela tranquilidade local, embora insuficientes para inverter a tendência de despovoamento.
Património Cultural e Arquitetónico miniaturadaimagem|298x298px|A Capela do Almargem, registo analógico, 2024 Apesar da sua dimensão modesta, Almargem possui elementos de interesse histórico e arquitetónico. O principal edifício religioso da aldeia é a Capela de Nossa Senhora ao Pé da Cruz, erguida no século XVIII.https://purl.sgmf.gov.pt/153136/1/153136_item1/index.html A capela atual data de 1787, conforme inscrição e registos históricos. Trata-se de um pequeno templo de arquitetura simples, destacando-se no seu interior a imagem da santa padroeira, Nossa Senhora ao Pé da Cruz. No ano de 1987, a comunidade celebrou com júbilo o bicentenário da bênção da capela, organizando festividades alusivas aos 200 anos desse marco. Este templo substituiu ou reformou edificações religiosas anteriores e é até hoje centro da vida espiritual local.
Além da capela, destaca-se no património de Almargem o já referido troço de estrada romana, classificado como monumento de interesse público (Decreto nº 129/77, DI de 29/09/1977). Este caminho antigo, construído em lajes de pedra, conserva-se ao longo de aproximadamente 600 metros nos arredores da aldeia. A via integra o itinerário romano que ligava Viseu a outras povoações e servia de travessia do vale do Vouga. Embora a ponte romana que outrora cruzava o rio já não exista (foi submersa ou destruída com o tempo), permanecem nas proximidades poldras (pedras de passagem) sobre o leito do rio, evidenciando o trajeto originalhttps://viseunovo.pt/storage/documentos/aru-de-povoa-de-calde/memoria-descritiva-povoa-de-calde.pdf#:~:text=deixassem%20um%20donativo%20sempre%20que,diversas%20poldras%20que%20o%20atravessam Este segmento viário é visitável a partir do lugar das Alminhas, próximo de Almargem, até à margem do Vouga, sendo um testemunho valioso da engenharia romana local.
No restante património construído de Almargem incluem-se diversas casas rurais tradicionais em granito, algumas com características de arquitetura vernacular beirã (paredes espessas de pedra, balcões em madeira, eira e espigueiro nos quintais). Embora a aldeia não possua grandes solares ou casas senhoriais de relevo histórico conhecido, a própria malha urbana – com o seu cruzeiro simples em granito e fontanários antigos – reflete a identidade cultural local. Na envolvente de Almargem encontram-se ainda elementos etnográficos como azenhas (moinhos de água) nos cursos de água e alminhas (pequenos oratórios de estrada), típicos da religiosidade popular, que complementam o património cultural da aldeia.
Tradições e festas locais miniaturadaimagem|Uma imagem da padroeira do Almargem, tirada durante as celebrações de 2024 miniaturadaimagem|A "Romaria de Maio" que se realiza no primeiro fim de semana do mês de Maio, todos os anos A vida comunitária de Almargem é marcada por tradições religiosas e festivas que têm perdurado ao longo dos anos. A principal festa anual da aldeia é a Romaria de Maio, em honra de Nossa Senhora ao Pé da Cruz, padroeira local. Esta festividade ocorre no primeiro domingo a seguir ao dia 3 de maio. Nessa ocasião, realiza-se uma missa solene na capela, seguida de procissão pelas ruas enfeitadas com flores. É também tradição a reunião dos habitantes e visitantes num arraial popular, com música, petiscos regionais e momentos de convívio. Por ser uma romaria antiga, é conhecida na região como a “Festa de Nossa Senhora do Almargem” ou simplesmente “Romaria de Maio”, assinalando a devoção mariana e a chegada da primavera.
Outra tradição singular de Almargem é a celebração do Cepo de São Plácido, associada ao padroeiro alternativo da aldeia. Todos os anos, na noite de 4 de outubro, os moradores acendem um grande cepo (tronco de madeira) numa fogueira comunitária, em homenagem a São Plácido. Esta celebração, de caráter ancestral, tem elementos semelhantes aos madeiros outonais de outras localidades: o acender do cepo simboliza proteção e bênção para a comunidade. Segundo a memória oral recolhida por investigadores locais, após a queima do tronco, as brasas remanescentes são aproveitadas para momentos de confraternização – tradicionalmente, os presentes reúnem-se em torno do fogo para aquecer, contar histórias e partilhar alimentos preparados nas brasas. O Cepo de São Plácido, dedicado ao “padroeiro local” de Almargem, é um ritual que mistura fé e convívio: inicialmente ligado às comemorações do santo (São Plácido é celebrado liturgicamente a 5 de outubro), tornou-se sobretudo uma festividade comunitária, preservada pelas gerações atuais.
Além destas datas, Almargem participa nas tradições comuns da região de Viseu, como o Magusto de São Martinho (em novembro, com castanhas assadas e vinho novo) e as celebrações pascais. Nas festas pascais, é costume receber a visita pascal (Compasso) na aldeia, quando a cruz paroquial percorre as casas para a bênção, reunindo as famílias. Costumes como os cantos de janeiras no Ano Novo ou os tapetes florais no Corpo de Deus também ocorrem esporadicamente, muitas vezes em conjunto com as aldeias vizinhas da freguesia. A nível folclórico, embora Almargem não possua um rancho folclórico próprio, integra o património imaterial de Calde valorizado pelo Grupo Etnográfico de Cantares do Linho da Várzea de Calde, que por vezes inclui modas e danças conhecidas pelos habitantes de Almargem. A gastronomia local típica – onde se destacam pratos como o cabrito assado, a chanfana, os enchidos caseiros e o pão de centeio – está presente em eventos comunitários, sendo parte integrante das festividades e romarias da aldeia.
Economia e atividades perdominantes Tradicionalmente, a economia de Almargem sempre esteve ligada à agricultura de subsistência e à pecuária. Os campos em redor da aldeia serviam (e em parte ainda servem) para o cultivo de milho, batata, centeio e feijão, assim como pastagem para gado bovino e caprino. Cada família possuía pequenas parcelas agrícolas (campos de almargem, ou seja, prados de pasto) e algumas cabeças de gado, produzindo também vinho para consumo próprio (a região de Viseu está no Dão, embora Calde seja de altitude mais elevada, fora das principais zonas vinhateiras). A apicultura (produção de mel) era outra atividade complementar tradicional na freguesia, graças à flora local, e ainda hoje alguns habitantes mantêm colmeias, perpetuando técnicas ancestrais. Durante grande parte do século XX, a aldeia viveu num sistema agrícola familiar, com trocas de serviços comunitários (entreajuda nas colheitas, desfolhadas do milho, etc.) e feiras próximas onde eram vendidos produtos excedentes.