A Teoria da Agência dos Objetos foi fortemente influenciada pelo antropólogo britânico da arte Alfred Gell (12 de junho de 1945 - 28 de janeiro de 1997), que estudou as comunidades da Oceania (em especial as da Polinésia e Melanésia, no Nordeste da Austrália), suas produções culturais e as interações sociais que surgiram a partir delas. Influenciado pela antropologia cognitivista e em um contexto em que os debates sobre a agência estavam em alta, desenvolveu sua obra Arte e agência, publicada pela primeira vez em 1998, onde ele reformulou a teoria da arte tradicional, incorporando o conceito de agência.

Contexto histórico A questão da agência foi introduzida pela primeira vez em 1948, no campo da Filosofia, por Maurice Merleau-Ponty, que considerava os objetos essenciais para provocar determinados sentimentos e ações. Na década de 1970 e 1980, o tema também emergiu nas abordagens da Arqueologia Processual, a qual buscava entender as dinâmicas de transformação das culturas ao longo do tempo. Contudo, foi na década de 1990 que a questão ganhou força e passou a ser discutida nas Ciências Sociais, quando as "teorias da coerção" (as quais pregavam que o comportamento do homem era moldado pelos atributos sociais e culturais externos, pela chamada "estrutura") estavam sendo questionadas pelos autores das abordagens voltadas para a prática, como Pierre Bourdieu e Marshall Sahlins.

Diferente da perspectiva tradicional, essas novas abordagens sustentavam que a reprodução e a transformação da cultura ocorrem a partir da ação humana, atribuindo maior agência ao homem. Além disso, diferente do pensamento tradicional, em que a agência é vista como uma característica exclusivamente humana, passaram a atribuir uma forma de agência aos objetos. Isso porque eles influenciam os comportamentos e as emoções das pessoas, participando das práticas sociais, e não atuam apenas como ferramentas ou suportes da ação humana.

Principais ideias Para Alfred Gell, as produções artísticas funcionam como índices (no sentido de indicarem algo ou alguma coisa), pois refletem a mentalidade e as intenções daqueles que as produzem. Sendo assim, ele amplia a questão da agência (do "fazer algo acontecer"), antes restrita às pessoas, para suas próprias produções (obras/objetos), porque acreditava que estas provocavam ações, pensamentos e sentimentos (reações) em quem as consome.

O antropólogo rompe com a ideia de que as obras de arte e seus espectadores são passivos. Porque ser agente é exercer uma ação, seja criando algo (artista), seja tendo uma reação (espectador), ou até mesmo provocando uma reação, mesmo que não por vontade própria (obra/objeto). Isso é o que Gell chama de "cadeia de agência", e nessa cadeia, a obra de arte é o intermediário que move as ações dos homens e suas reflexões, dando nexo à arte.

Entretanto, os objetos não são agentes autossuficientes, eles adquirem essa agência a partir do que Gell chamou de "abdução de agência". Ao produzir um objeto/uma obra de arte, o homem (agente ativo) atribui intencionalidade, significação ou simbologia ao objeto, e ao fazer isso, também atribui uma função social, emocional e/ou simbólica a ele, a qual deve ser captada por quem a consome. Por exemplo, uma pessoa (agente ativo) confecciona um colar e atribui a função de um amuleto, conferindo-lhe características que remetem a tal; o espectador (receptor) capta a função do objeto através de seus atributos e percebe a intencionalidade de seu produtor. É isso que Gell chama de "abdução de agência": a consciência de que houve uma intencionalidade de quem produziu o objeto.

A partir desse exemplo, é possível observar que os objetos são origem e destino de agência social: origem porque são fabricados a partir de ações humanas, e destino porque provocam ações/sentimentos (agência) em outras pessoas. Portanto, o homem confere uma "carga de agência" ao objeto, fazendo com que ele funcione como um agente-passivo que transmite algo, desempenhando uma ação não por vontade própria, mas de quem o produziu.

Em síntese, Gell busca romper com a ideia de passividade dos objetos/produções artísticas, atribuindo-lhes uma agência passiva, que mais do que codificar o mundo, modifica-o através de suas mensagens. No mais, busca demonstrar como as produções artísticas se relacionam com a sociedade e a cultura que as produzem.

Categoria:Antropologia cultural