Laetentur Caeli: Bulla Unionis GraecorumAparece também como Laetentur Coeli, Laetantur Caeli, Lætentur Cæli, Lætentur Cœli, ou Lætantur Cæli, e também é chamada de Ato de União ou "Decreto de União". (em português: Alegrem-se os céus: Bula de União com os Gregos) foi uma bula papal publicada em 6 de julho de 1439 pelo Papa Eugênio IV no Concílio de Florença. Reuniu oficialmente a Igreja Católica com a Igreja Ortodoxa, acabando temporariamente com o Cisma do Oriente; entretanto, foi repudiado pela maior parte dos bispos orientais pouco tempo depois.Davies, Norman. Europe: A History. p.446-448. Oxford: Oxford University Press 1996. O incipit da bula (e também o título) foi retirado do Salmo 95:11 na Vulgata (Salmo 96 nas versões bíblicas modernas).

Antecedentes políticos esquerda|miniaturadaimagem|Medalha do Imperador João VIII Paleólogo durante sua visita a Florença, de Pisanello (1438). A inscrição diz, em grego: "João, o Paleólogo, basileu e autocrator dos romanos". miniaturadaimagem|Retrato do Papa Eugênio IV, por Jean Fouquet. Em 1439, o Império Bizantino estava a beira do colapso, dominando apenas Constantinopla e alguns territórios próximos, enquanto o Império Otomano avançava pela Europa.Lyttle, Charles H. "Odd Moments and Papal Bulls" in The Christian Register, Vol. 91. p. 854. 5 September 1912. Durante o reinado de João V Paleólogo no século XIV, o imperador bizantino fez diversos apelos ao Ocidente em troca de uma união entre as Igrejas Católica e Ortodoxa; o papado ignorou esses apelos,MANGO, Cyril: The Oxford History of Byzantium. 1 ed. Nova Iorque: Oxford UP, 2002. assim como Luís I da Hungria.Küküllei János: Lajos király krónikája, Névtelen szerző: Geszta Lajos királyról; Osisris Kiadó, Budapeste, 2000. (Millenniumi Magyar Történelem) Em 1369, depois da queda de Adrianópolis para os otomanos, João V emitiu novamente um pedido por ajuda, convertendo-se publicamente ao catolicismo. O pedido não foi atendido, e João V foi obrigado a se tornar vassalo do sultão otomano Murade I. Um breve alívio do controle otomano aconteceu mais tarde, quando Tamerlão pressionou os otomanos no leste; entretanto, em 1420, João VIII Paleólogo novamente precisou pedir ajuda para o Ocidente. Ele fez o mesmo apelo que seu predecessor, viajando com uma delegação para o Concílio de Florença para se reconciliar com a Igreja Ocidental. Ele consultou o filósofo neoplatônico Gemisto Pletão, que o advertiu que as delegações católicas e Ortodoxas deveriam ter poder de voto igual no Concílio; entretanto, o imperador estava muito mais pressionado a concordar com a união do que o papa. Para ajudar a Igreja Ortodoxa Russa a de unir com a Igreja Ocidental, João VIII nomeou Isidoro de Kiev como Metropolita de Kiev em 1436 contra a vontade de Basílio II de Moscou.

Antecedentes teológicos A Igreja Católica e a Igreja Ortodoxa desenvolveram diversas diferenças teológicas durante o Cisma de 1054 e nós séculos seguintes. A principal diferença era a inserção da palavra Filioque (em português: e do Filho) na versão latina do Credo Niceno, que os bispos ortodoxos recusaram-se a aceitar.HAMERMAN, Nora. The Council of Florence: The Religious Event that Shaped the Era of Discovery em Fidelio, Volume 1, Number 2, Spring 1992 pp. 23-36. Além disso, o dogma ortodoxo processava que o Espírito Santo procedia do Pai, enquanto o dogma católico processava que procedia do Pai e do Filho. Os bispos orientais no Concílio de Florença negaram veementemente que qualquer concílio ecumênico tivesse poder de adicionar alguma coisa ao credo. Um segundo problema central era a Supremacia Papal, que os bispos ortodoxos também negavam.Lyttle, Charles H. "Odd Moments and Papal Bulls" in The Christian Register, Vol. 91. p. 854. 5 September 1912. Outros pontos importantes eram a doutrina do Purgatório, que os bispos orientais rejeitavam, e o uso de pão fermentado, onde as igrejas ortodoxas usavam pão fermentado na Eucaristia, enquanto os católicos romanos usavam pão sem fermento.

Concílio de Florença e Laetentur Caeli

Os 700 legados ortodoxos no Concílio de Florença tiveram seus gastos cobertos pelo papa.BROWN, Patricia Fortini: Laetentur Caeli: The Council of Florence and the Astronomical Fresco in the Old Sacristry. 2009. Inicialmente, o patriarca ortodoxo José II de Constantinopla estava presente, mas quando ele morreu antes do fim do Concílio, o Imperador João VIII assumiu os assuntos eclesiásticos.Погодин, Амвросий. Святой Марк Эфесский и Флорентийская уния. Jordanville: Mosteiro da Santíssima Trindade, 1963.

Para isso, ele nomeou o uniata Metrófanes II de Constantinopla como sucessor de José II. No verão de 1439, o Concílio mudou-se de Ferrara para Florença por causa da proposta de Cosme de Médici de pagar os gastos dos delegados gregos.

Como o Ocidente católico tinha todo o poder de barganha, dada a situação de João VIII, a união das igrejas foi uma questão simples para o imperador. Ele ordenou que os representantes orientais aceitassem as doutrinas do Filioque, supremacia papal e do Purgatório, conforme Eugênio IV pedira. Em troca, Eugênio comprometeu-se a fornecer ajuda militar para a defesa de Constantinopla e a incentivar o rei da Germânia, Alberto II, a declarar guerra contra os otomanos.STIEBER, Joachim W: Pope Eugenius IV, the Council of Basel and the Secular and Ecclesiastical Authorities in the Empire: The Conflict Over Supreme Authority and Power in the Church. 1978. Em 6 de julho de 1439, o imperador e todos os bispos presentes, exceto um, deram seu assentimento, assinando seus nomes nos Artigos da União de Eugênio. O dia foi proclamado feriado público em Florença, o Dia da União, e realizaram-se cerimônias triunfais. Eugênio IV então proclamou oficialmente a união por meio da bula Laetentur Coeli. A bula foi lida do púlpito da Catedral de Florença por um grego, Basílio Bessarion, e um latino, Guiliano Cesarini.

Laetentur Coeli contém a primeira declaração conciliar formal de primazia papal. Acredita-se que Eugênio IV tenha insistido nisso porque sua primazia estava sendo ameaçada pelo Antipapa Félix V, e pelo Movimento Conciliar no Concílio de Basileia. A bula não mencionou as diferenças de interpretação entre o Oriente e o Ocidente sobre o papado, afirmando, apenas, a posição ocidental. Sobre o Filioque, o mesmo aconteceu, enfatizando os pontos em comum entre as visões oriental e ocidental, mas enfatizando a visão católica sem nem mencionar as objeções orientais.Brigham, Erin. Sustaining the Hope for Unity: Ecumenical Dialogue in a Postmodern World. 2012. Sobre o uso de fermento na Eucaristia, a bula determinou que o pão deveria ser usado de acordo com o costume local. A doutrina do Purgatório e a eficácia das orações por aqueles que estão no Purgatório foram reafirmadas, novamente reafirmando a doutrina ocidental. Por fim, a bula definiu a ordem de primazia entre os patriarcas da pentarquia: Roma, Constantinopla, Alexandria, Antioquia e Jerusalém.

A única voz dissidente contra a bula foi Marcos de Éfeso, delegado do patriarca de Alexandria, que se recusou a concordar com as doutrinas do Filioque e do Purgatório, e sustentou que Roma continuava em heresia e cisma. Ao ver que a assinatura de Marcos estava faltando, Eugênio IV declarou: "E assim não conseguimos nada.” Apesar disso, a união prosseguiu, e representantes do Vaticano seriam enviados a Constantinopla para ver como a união estava sendo implementada.

Texto em português miniaturadaimagem|Imagem do texto original. Concílio de Florença (XVII Concílio Ecumênico), Sessão 6 — 6 de julho de 1439

[Definição do santo sínodo ecumênico de Florença, presidido pelo Papa Eugênio IV]

Eugênio bispo, servo dos servos de Deus, para a perpétua memória. Em tudo o que se segue, de acordo com nosso querido filho João Paleólogo, ilustre imperador dos romanos, com os representantes dos nossos veneráveis irmãos, os patriarcas e os outros representantes da Igreja oriental

Alegrem-se os céus e exulte a terra. Porque a muralha que dividia o ocidente e a Igreja oriental foi derrubada, e a paz e a harmonia retornaram, por meio daquela pedra angular, Cristo, que fez das duas uma, uniu ambos os lados com um poderosíssimo laço de amor e paz, unindo perpetuamente e mantendo o laço da unidade numa aliança eterna; depois de uma longa névoa de tristeza e a escuridão da discórdia prolongada, a luz serena, desejada por todos, raiou.

Que a Mãe Igreja alegre-se igualmente. Pois agora ela contempla seus filhos, que antes estavam desunidos, agora unidos e em paz, e aquela que que antes chorava amargamente por sua separação, dê agora graças a Deus Todo-poderoso com inefável alegria, por vê-los em tão admirável concórdia. Exultem todos os fiéis em todo o orbe, e todos os que se chamam pelo nome de cristãos alegrem-se com a mãe Igreja católica. Eis que os Padres o Oriente e do Ocidente, após um longo período de dissensão e discórdia, expondo-se aos perigos do mar e da terra e superando todos os trabalhos, reuniram-se em alegria e prestreza neste sagrado Concílio Ecumênico, com o desejo de restaurar a sacratíssima união e o antigo amor. E não foram frustrados em sua intenção. Pois, após longa e trabalhosa busca, finalmente, pela clemência do Espírito Santo, alcançaram aquela união tão desejada e santíssima. Quem, então, poderia dar graças dignas pelos benefícios do Deus Todo-poderoso? Quem não se maravilharia das riquezas de tão divina misericórdia? Que coração, ainda que de ferro, não se enterneceria com tamanha grandeza de piedade celeste?

Com efeito, estas são obras divinas, não inveções da fragilidade humana; e, por isso, devem ser acolhidas com extrema veneração e acompanhada de louvores divinos. A ti, louvor; a ti, glória; a ti, ação de graças, ó Cristo, fonte de misericórdias, que concedeste tanto bem à tua esposa, a Igreja católica, e que em nossa geração manifestaste os milagres da tua piedade, para que todos anunciem as tuas maravilhas. De fato, Deus nos concedeu um grande e divino dom; e vimos com os olhos o que muitos antes de nós, embora muito desejassem, não puderam contemplar

De fato, os latinos e os gregos reunidos neste sacrossanto sínodo ecumênico empregaram grande zelo mútuo para que, entre outros assuntos, também o artigo sobre a divina processão do Espírito Santo fosse examinado com a máxima diligência e constante investigação. E, tendo sido apresentados testemunhos das Sagradas Escrituras e numerosas autoridades dos santos doutores orientais e ocidentais — alguns afirmando que o Espírito Santo procede do Pai e do Filho, outros dizendo que procede do Pai por meio do Filho, todos, porém, expressando a mesma compreensão sob palavras diferentes —, os gregos declararam que, ao dizerem que o Espírito Santo procede do Pai, não o fazem com a intenção de excluir o Filho; mas, como lhes parecia que os latinos afirmavam que o Espírito Santo procedia do Pai e do Filho, como de dois princípios e duas espirações, por isso se abstiveram de dizer que o Espírito Santo procede do Pai e do Filho. Por sua parte, os latinos afirmaram que, ao dizerem que o Espírito Santo procede do Pai e do Filho, não têm a intenção de excluir o Pai como fonte e princípio de toda a divindade, tanto do Filho quanto do Espírito Santo; nem de afirmar que o fato de o Espírito Santo proceder do Filho não tenha o próprio Filho recebido do Pai; nem tampouco pretendem indicar dois princípios ou duas espirações, mas querem afirmar que há um só princípio e uma única espiração do Espírito Santo, conforme sempre professaram. E, como de tudo isso, se deduz um único e mesmo sentido de verdade, finalmente, com o mesmo sentido e a mesma intenção, concordaram e consentiram unanimemente na união santa e amável a Deus, que se segue por escrito