As campanhas romanas na Germânia (12 a.C. – 16 d.C.) foram uma série de conflitos entre as tribos germânicas e o Império Romano. As tensões entre as tribos germânicas e os romanos começaram logo em 17/16 a.C. com o episódio da Clades Lolliana, no qual a 5.ª Legião, comandada por Marco Lólio, foi derrotada pelas tribos dos Sicambros, Usípetes e Têncteros. O imperador romano Augusto respondeu desenvolvendo rapidamente a infraestrutura militar por toda a Gália. O seu general, Nero Cláudio Druso, começou a construir fortes ao longo do Reno em 13 a.C. e lançou uma campanha de retaliação através do Reno em 12 a.C.
Druso liderou mais três campanhas contra as tribos germânicas nos anos de 11 a 9 a.C. Pela campanha de 10 a.C., foi celebrado como o romano que viajou mais para leste no norte da Europa. Os generais que se lhe seguiram continuaram a atacar do outro lado do Reno até ao ano 16 d.C., com destaque para Públio Quintílio Varo em 9 d.C. Durante a viagem de regresso da sua campanha, o exército de Varo foi emboscado e quase destruído por uma força germânica liderada por Armínio na Batalha da Floresta de Teutoburgo; Armínio era o líder dos Queruscos, já tinha lutado no exército romano e era considerado por Roma como um aliado. A expansão romana para a Germânia Magna parou em consequência disso, e todas as campanhas imediatamente a seguir foram em retaliação à Clades Variana ("Desastre de Varo"), o nome usado pelos historiadores romanos para descrever a Batalha da Floresta de Teutoburgo, e para provar que o poderio militar romano ainda conseguia subjugar as terras germânicas. O último general a liderar as forças romanas na região durante este período foi Germânico, filho adotivo do imperador Tibério, que em 16 d.C. lançou a última grande expedição militar romana à Germânia.
Antecedentes Em 27 a.C., Augusto tornou-se princeps e enviou Agripa para reprimir as revoltas na Gália. Durante os levantamentos gauleses, eram contrabandeadas armas para a Gália através do Reno, a partir da Germânia, para abastecer a insurreição. Nessa altura, a presença militar de Roma na Renânia era pequena e as suas únicas operações militares ali eram expedições punitivas contra incursões. Considerava-se mais importante proteger a Gália e erradicar quaisquer sinais de resistência ali.
Após a pacificação da Gália, foram feitas melhorias nas infraestruturas, incluindo as realizadas na rede de estradas romanas em 20 a.C. por Agripa. Roma aumentou a sua presença militar ao longo do Reno e vários fortes foram aí construídos entre 19 e 17 a.C. Augusto pensava que a prosperidade futura do Império dependia da expansão das suas fronteiras, e a Germânia tinha-se tornado o próximo alvo da expansão imperial.
Depois de capturarem e executarem soldados romanos a leste do Reno em 17/16 a.C., as tribos dos Sicambros, Usípetes e Têncteros cruzaram o rio e atacaram uma unidade de cavalaria romana. Inesperadamente, depararam-se com a 5.ª Legião sob o comando de Marco Lólio, a quem derrotaram e de quem capturaram a águia. Esta derrota convenceu Augusto a reorganizar e melhorar a presença militar na Gália a fim de preparar a região para campanhas através do Reno. Um ataque logo de seguida por Lólio e Augusto fez com que os invasores recuassem para a Germânia e pedissem a paz a Roma.
De 16 a 13 a.C., Augusto esteve ativo na Gália. Em preparação para as campanhas vindouras, Augusto estabeleceu uma casa da moeda em Lugduno (Lyon), na Gália, para ter um meio de cunhar dinheiro a fim de pagar aos soldados, organizou um censo para cobrar impostos à Gália e coordenou o estabelecimento de bases militares na margem oeste do Reno.
Campanhas antes da Clades Variana Campanhas de Druso
thumb|Campanhas de Druso na Germânia
Nero Cláudio Druso, um general experiente e enteado de Augusto, foi nomeado governador da Gália em 13 a.C. O ano seguinte assistiu a uma revolta na Gália — uma resposta ao censo romano e à política de tributação implementada por Augusto. Durante a maior parte do ano seguinte, efetuou reconhecimentos e lidou com o abastecimento e as comunicações. Também mandou construir vários fortes ao longo do Reno, incluindo em Argentorato (Estrasburgo, França), Mogoncíaco (Mainz, Alemanha) e Castra Vetera (Xanten, Alemanha).
Druso entrou em ação pela primeira vez após uma incursão dos sicambros e dos usípetes na Gália, que ele repeliu antes de lançar um ataque de retaliação através do Reno. Isto marcou o início de 28 anos de campanhas de Roma além do baixo Reno.
Druso atravessou o Reno com o seu exército e invadiu as terras dos usípetes. Em seguida, marchou para norte contra os sicambros e pilhou as suas terras. Descendo o Reno e desembarcando no que é hoje a Holanda, conquistou os Frísios, que a partir de então serviram no seu exército como aliados. De seguida, atacou os Caucos, que viviam no noroeste da Alemanha, na atual Baixa Saxónia. Por volta do inverno, atravessou novamente o Reno e regressou a Roma.
Na primavera seguinte, Druso iniciou a sua segunda campanha através do Reno. Primeiro subjugou os usípetes e depois marchou para o leste, até ao rio Visurgis (rio Weser). Em seguida, atravessou o território dos queruscos, que se estendia desde o rio Ems até ao Elba, e avançou até ao Weser, a leste. Esta foi a região mais a leste do norte da Europa até onde um general romano alguma vez tinha viajado, um feito que lhe valeu grande renome. Entre a escassez de mantimentos e a aproximação do inverno, decidiu marchar de volta para território amigo. Na viagem de regresso, as legiões de Druso foram quase destruídas em Arbalo por guerreiros queruscos que aproveitaram o terreno para as fustigar.
Foi nomeado cônsul para o ano seguinte e foi votado o fecho das portas do Templo de Jano, um sinal de que o império estava em paz. No entanto, a paz não durou, pois na primavera de 10 a.C., ele fez uma nova campanha através do Reno e passou a maior parte do ano a atacar os Catões. Na sua terceira campanha, conquistou os catões e outras tribos germânicas, e depois regressou a Roma, como tinha feito anteriormente no final da época de campanha.
Em 9 a.C., iniciou a sua quarta campanha, desta vez como cônsul. Apesar de maus presságios, Druso voltou a atacar os catões e avançou até ao território dos Suevos, nas palavras de Dião Cássio, "conquistando com dificuldade o território percorrido e derrotando as forças que o atacaram apenas após um considerável derramamento de sangue."Dião Cássio, História Romana 55, 1 Posteriormente, atacou mais uma vez os queruscos, perseguiu-os na sua retirada ao longo do rio Weser, e avançou até ao Elba, "pilhando tudo no seu caminho", segundo Dião Cássio. Ovídio afirma que Druso estendeu o domínio de Roma a novas terras que só recentemente tinham sido descobertas. No regresso ao Reno, Druso caiu do cavalo e ficou gravemente ferido. A sua lesão infetou seriamente e, após trinta dias, Druso morreu da doença, muito provavelmente gangrena.
Quando Augusto soube que Druso estava doente, enviou Tibério para ir ter com ele rapidamente. Ovídio afirma que Tibério estava na cidade de Pavia na altura, e quando soube do estado do seu irmão, cavalgou para estar ao lado do irmão moribundo. Chegou a tempo, mas não demorou muito até que Druso desse o seu último suspiro.
Campanhas de Tibério, Enobarbo e Vinício 250px|thumb|Invasões de Tibério e Lúcio Domício Enobarbo c. 3 a.C. – 6 d.C. Após a morte de Druso, Tibério recebeu o comando das forças do Reno e travou duas campanhas na Germânia ao longo dos anos 8 e 7 a.C. Ele marchou com o seu exército entre o Reno e o Elba, e encontrou pouca resistência, exceto por parte dos sicambros. Tibério esteve perto de exterminar os sicambros e mandou transportar os sobreviventes para o lado romano do Reno, onde podiam ser vigiados mais de perto. Veleio Patérculo retrata a Germânia como essencialmente conquistada, e Cassiodoro, escrevendo no século VI d.C., afirma que todos os germânicos que viviam entre o Elba e o Reno se tinham submetido ao poder romano. Contudo, a situação militar na Germânia era muito diferente do que sugeria a propaganda imperial.
Lúcio Domício Enobarbo foi nomeado comandante na Germânia por Augusto no ano 6 a.C. e, três anos depois, em 3 a.C., chegou e atravessou o Elba com o seu exército. Sob o seu comando, foram construídas calçadas ao longo dos pântanos nalgum lugar da região entre o Ems e o Reno, designadas pontes longi. No ano seguinte, deflagraram os conflitos entre Roma e os queruscos. Embora a elite de uma fação procurasse estreitar os laços com os líderes romanos, os queruscos como um todo continuariam a resistir durante os vinte anos seguintes. Embora Enobarbo tivesse marchado até ao Elba e dirigido a construção de infraestruturas na região a leste do Reno, não se saiu bem face aos grupos de guerreiros queruscos, com os quais tentou lidar da mesma forma que Tibério lidara com os sicambros. Augusto chamou Enobarbo a Roma em 2 a.C. e substituiu-o por um comandante militar mais experiente, Marco Vinício.
Entre os anos 2 a.C. e 4 d.C., Vinício comandou as 5 legiões estacionadas na Germânia. Por volta da altura da sua nomeação, muitas das tribos germânicas ergueram-se no que o historiador Veleio Patérculo designa como a "vasta guerra". No entanto, não existe qualquer relato sobre esta guerra. Vinício deve ter tido um bom desempenho, pois foi-lhe atribuída a ornamenta triumphalia aquando do seu regresso a Roma.Veleio Patérculo, Compêndio da História Romana 2, 104
Mais uma vez, em 4 d.C., Augusto enviou Tibério para a fronteira do Reno na qualidade de comandante na Germânia. Ele fez campanha no norte da Alemanha durante os dois anos seguintes. Durante o primeiro ano, conquistou os Cananefates, os Catuários, os Brúcteros, e subjugou os queruscos. Pouco depois, declarou os queruscos "amigos do povo romano." Em 5 d.C., fez campanha contra os Caucos e, em seguida, coordenou um ataque ao coração da Germânia, tanto por terra como por via fluvial. A frota e as legiões romanas encontraram-se no Elba e, no final do verão, Tibério partiu do rio para marchar de volta para oeste sem estacionar forças de ocupação nesta posição oriental. Isto serviu de demonstração para as suas tropas, para Roma e para os povos germânicos de que o seu exército podia movimentar-se quase sem oposição pela Germânia, mas, tal como Druso, ele nada fez para manter os territórios. As forças de Tibério foram atacadas por tropas germânicas no caminho para oeste, de volta ao Reno, mas conseguiram defender-se com sucesso.
left|thumb|A Drususstein (Pedra de Druso), em Mainz, foi erguida no ano 9 a.C. como parte de um monumento funerário a Druso, o Velho. A elite da tribo dos queruscos tornou-se especialmente amiga de Roma após as campanhas de Tibério no ano 5 d.C.. Nos anos anteriores, uma luta pelo poder tinha resultado na aliança de uma das partes com Roma. Nesta tribo existia uma linhagem governante que desempenhou um papel crítico na criação desta amizade entre os queruscos e Roma. Pertencente a este clã de elite estava o jovem Armínio, que tinha cerca de vinte e dois anos na altura. A sua filiação neste clã granjeava-lhe o favor especial de Roma. Tibério deu apoio a este clã dominante para obter o controlo dos queruscos e concedeu à tribo um estatuto livre entre os povos germânicos. Para vigiar os queruscos, Tibério mandou construir uma base de inverno nas margens do Lippe.
A opinião romana era a de que, por volta de 6 d.C., as tribos germânicas tinham sido amplamente pacificadas, se não mesmo conquistadas. Apenas restavam os Marcomanos, sob o comando do rei Marobóduo, por subjugar. Roma planeou um enorme ataque em pinça contra eles, envolvendo 12 legiões da Germânia, da Ilíria e da Récia, mas quando chegou a notícia de uma revolta no Ilírico, o ataque foi cancelado e a paz foi concluída com Marobóduo, reconhecendo-o como rei.Veleio Patérculo, Compêndio da História Romana 2, 109, 5; Dião Cássio, História Romana 55, 28, 6–7