miniatura|upright=0.8|Julius Wagner-Jauregg, o médico austríaco que propôs o protocolo terapêutico da malarioterapia e que recebeu o Prêmio Nobel de Fisiologia ou Medicina em 1927.
A malarioterapia é um procedimento médico arcaico de tratamento de doenças através da injeção artificial de parasitas da malária. É um tipo de piroterapia (febre artificial) através da qual se induz febre alta para interromper ou eliminar os sintomas de certas doenças. Na malarioterapia, os parasitas da malária (Plasmodium) são especificamente utilizados para causar febre, e uma temperatura corporal elevada reduz os sintomas ou cura a doença. Após o tratamento da doença primária, a malária é então curada com medicamentos antimaláricos, sendo a quinina historicamente utilizada. O método foi desenvolvido pelo médico austríaco Julius Wagner-Jauregg em 1917 para o tratamento da neurossífilis, pelo qual recebeu o Prêmio Nobel de Fisiologia ou Medicina em 1927. No entanto, a prática entrou em desuso na década de 1940 após a descoberta das propriedades antibióticas da penicilina e seu uso contra doenças infecciosas de natureza bacteriana.
Antecedentes
Os efeitos benéficos das infecções em problemas mentais eram conhecidos no mundo antigo. Hipócrates, no século IV a.C., registrou que infecções bacterianas como disenteria e hidropisia reduziam os sintomas da loucura; e que a malária (febre de quartã) podia interromper convulsões epilépticas. Galeno, no século II d.C., descreveu um caso de doença mental que terminou após uma infecção por malária. Existem registros médicos do século XIX que indicam que a insanidade cessava temporária ou permanentemente quando os indivíduos tinham infecções graves.
O psiquiatra russo foi o primeiro a usar infecções experimentalmente para o tratamento da psicose. Em 1876, ele induziu febre em indivíduos psicóticos usando malária, tifo e febre recorrente. Ele afirmou ter curado 50% de todos os que tratou. No entanto, seu trabalho não foi amplamente conhecido, pois sua publicação em 1877 foi em um pequeno jornal em Odessa, Ucrânia, e escrita em russo. Ele também preferiu não divulgar suas descobertas. Ele entendia que era um experimento perigoso e potencialmente controverso. Foi, no entanto, relatado por J. Motschukoffsky em um jornal médico alemão, Centralblatt für die Medicinischen Wissenschaften, mas a causa subjacente de como a malária curava a psicose não foi compreendida, e o experimento de Rosenblum permaneceu desconhecido por várias décadas. Rosenblum nunca repetiu o estudo nem tentou desenvolver métodos específicos para o tratamento médico. A importância do estudo só foi percebida em 1938, quando o médico austríaco Julius Wagner-Jauregg discutiu a pesquisa no Congresso Neurológico Internacional em Londres.
Em 1943, Samuel J. Zakon, da Faculdade de Medicina da Universidade do Noroeste em Chicago, Estados Unidos, adquiriu o artigo original de Rosenblum e publicou uma tradução para o inglês com comentários no Journal of the American Medical Association. O comentário concluiu:
Rosenblium [grafia alternativa] foi certamente o primeiro a apreciar o efeito curativo da própria febre nas psicoses. Ele compreendeu e relatou o valor da malária e da febre tifoide no tratamento de doenças mentais. Foi o primeiro a inocular pacientes psicóticos com uma doença febril. Rosenblium, embora praticamente esquecido por mais de meio século, deve ser reconhecido como o verdadeiro pioneiro neste campo.
Redescoberta e aplicação clínica
Embora a prioridade do uso da malarioterapia em distúrbios cerebrais seja geralmente atribuída a Rosenblum, o crédito pelo desenvolvimento da malarioterapia como prática médica padrão e pela explicação do princípio científico subjacente é do médico austríaco Julius Wagner-Jauregg. Wagner-Jauregg, trabalhando na Primeira Clínica Psiquiátrica do Asilo da Baixa Áustria, investigou casos de distúrbios cerebrais desde 1883, publicando seu primeiro artigo sobre psicose em 1887 intitulado "Über die Einwirkung fieberhafter Erkrankungen auf Psychosen" ("O efeito das doenças febris sobre as psicoses"). Ele logo percebeu que um tipo grave de psicose estava relacionado à neurossífilis, uma infecção do sistema nervoso central pela sífilis (causada por uma bactéria identificada em 1905 como Spirochaeta pallida, posteriormente renomeada Treponema pallidum). A sífilis era na época uma doença mortal caracterizada por delírios, paralisia e demência; e conhecida como "A Grande Varíola" e a "doença do século". A neurossífilis era prevalente na Europa durante o século XIX, levando a um aumento da população de asilos durante esse período.
Wagner-Jauregg concluiu que a febre poderia curar a psicose após revisar seus próprios experimentos e relatos históricos com base em três fenômenos: (a) o aparecimento da febre coincidia com o desaparecimento dos sintomas psicóticos nos registros médicos; (b) suas descobertas indicavam que a febre era a única causa possível para a cura da psicose; e (c) embora nem todos os indivíduos psicóticos fossem curados, o número de curas aumentava sempre que a malária se disseminava. Ele formulou três postulados:
O agente terapêutico, isto é, a doença febril, embora cure o transtorno mental, ainda pode provocar doença em indivíduos saudáveis. A doença febril fortalece (ou torna mais saudáveis) os indivíduos com transtornos mentais. A elevação da temperatura corporal causada pela doença febril é fundamental para a supressão dos sintomas psicóticos.
Os tratamentos de Wagner-Jauregg eram formas de piretroterapia, ou seja, protocolos terapêuticos para várias doenças baseados na inoculação de substâncias ou métodos eletrofísicos que provocam febre. Ele iniciou seus estudos sobre terapia da febre em 1887, infectando pacientes psicóticos com erisipela, porém com resultados malsucedidos. Posteriormente, ele tentou usar tuberculina no tratamento da paralisia progressiva secundária à sífilis, então chamada de "paralisia geral", obtendo em muitos casos remissão dos sintomas e prolongamento da vida dos pacientes.
Sua primeira tentativa de curar a doença inoculando sangue infectado com Plasmodium vivax data de 1917. Seis dos nove pacientes tratados apresentaram sinais de remissão, e em três deles a remissão foi duradoura. No ano seguinte, uma tentativa usando Plasmodium falciparum teve resultados desastrosos: três dos quatro pacientes tratados com o método morreram em poucas semanas, apesar de todas as tentativas terapêuticas. A lógica por trás da terapia febril, baseada na indução de febre para fins curativos, era que o agente causador da sífilis, Treponema pallidum, perde sua patogenicidade quando exposto a altas temperaturas por um período suficientemente longo.
Em hospitais psiquiátricos, observou-se que pacientes com malária ficavam mais calmos e lúcidos após um episódio febril, e um grande número de pacientes foi submetido a essa terapia. O paciente era infectado por meio da picada de um mosquito ou pela inoculação com sangue contaminado com malária e submetido a um ciclo de pelo menos oito a dez episódios febris com temperatura corporal acima de 39°C, seguido da administração de quinina para o tratamento da malária. As primeiras aplicações extensivas desse protocolo terapêutico, também em associação com o neosalvarsan, mostraram resultados importantes, com altas porcentagens de remissão completa, em comparação com a baixa taxa de mortalidade atribuível à terapia antimalárica, levando à crença de que esse tratamento trazia benefícios reais. Entretanto, os estudos clínicos da época não foram conduzidos de forma ideal, não sendo controlados nem randomizados e carecendo de uma definição unívoca de remissão e melhoria das capacidades cognitivas. Não obstante, a confiança no funcionamento deste tipo de terapia levou à sua utilização também no tratamento da esquizofrenia, oligofrenia, psicose pós-encefalítica e epiléptica e mania aguda, porém sem os resultados considerados extraordinários encontrados com a neurossífilis.
Os efeitos colaterais, então considerados raros e presentes principalmente em pacientes gravemente enfermos, incluíam ruptura esplênica, danos no fígado e icterícia, vômitos incontroláveis, dor de cabeça, alucinações e delírio.
A malarioterapia tem agora apenas um significado histórico, pois caiu em desuso após a descoberta da penicilina e seu uso no tratamento da sífilis. Quanto ao tratamento de transtornos psiquiátricos, a malarioterapia foi substituída por novos procedimentos baseados em choque, incluindo aquele baseado na administração de insulina (o chamado choque insulínico) e a terapia eletroconvulsiva. No entanto, outras formas de piretroterapia permaneceram utilizadas em várias doenças, mas esses tratamentos também estão agora em desuso.
Outras aplicações hipotéticas
A malarioterapia foi proposta na década de 1990 por Henry Heimlich, entre outros, inventor da manobra que leva seu nome, como um possível tratamento para a infecção pelo HIV e para a doença de Lyme. Em particular, alguns pesquisadores acreditam que, na AIDS, o aumento da produção de citocinas pode induzir uma modificação dos subgrupos de linfócitos T, de modo a ser possível tratar pacientes com concentrações de CD4 entre 200 e 500 por μL. Esse tipo de tratamento gerou preocupações naqueles anos por parte dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos, após casos de infecção voluntária com Plasmodium vivax obtido ilegalmente, devido aos riscos tanto para os indivíduos infectados quanto para a comunidade.
Bibliografia
Ligações externas
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