Camelobaetidius spinosus, popularmente conhecida como efemérida ou siriruia, é uma espécie de efemeróptero da família dos betídeos (Baetidae). Foi descrita em 2012 a partir de ninfas coletadas em Minas Gerais. Conhecida apenas pelo estágio ninfal, distingue-se de suas congêneres por uma combinação de caracteres morfológicos, incluindo espinhos pontiagudos na margem posterior dos tergitos abdominais. Estudos taxonômicos indicam que a espécie é proximamente relacionada a C. cayumba, compartilhando com ela diversas características diagnósticas. O epíteto específico spinosus deriva do latim e faz referência aos espinhos presentes no abdome das ninfas.
A espécie é endêmica do Brasil e restrita à bacia do rio Doce, sendo conhecida apenas dos municípios de Bom Jesus do Galho e Pingo-d'Água, em Minas Gerais. Sua extensão de ocorrência foi estimada em cerca de quilômetros quadrados, não havendo registros confirmados em unidades de conservação. As ninfas habitam riachos de correnteza moderada a forte, onde vivem sobre rochas e troncos submersos geralmente livres de sedimentos. Possuem garras tarsais espatuladas, interpretadas como adaptações à fixação em substratos expostos à correnteza. Evidências indiretas sugerem que se alimentem principalmente de perifíton aderido às superfícies submersas.
Camelobaetidius spinosus é considerada uma espécie vulnerável à degradação de ambientes aquáticos. Sua distribuição restrita, o reduzido número de localidades conhecidas, a provável baixa capacidade de dispersão e a severa fragmentação populacional motivaram sua classificação como Vulnerável (VU) pelo critério B1ab(iii). Entre as principais ameaças identificadas estão a remoção da vegetação ripária, as atividades agropecuárias, o uso de agrotóxicos, a silvicultura e o assoreamento dos cursos d'água, fatores que comprometem a qualidade do habitat. A espécie integra a Lista Nacional Oficial de Espécies da Fauna Ameaçadas de Extinção e figura entre os táxons prioritários para monitoramento no âmbito das iniciativas de conservação da bacia do rio Doce.
Etimologia
O nome popular efemérida foi construído com base no nome do gênero Ephemera + o sufixo -ída. Seu primeiro registro remonta o . Siriruia, ou suas formas alternativas sililuia e sirirujá, aparentemente derivavam de aleluia (do latim alleluĭa ou halleluiah) por cruzamento com siriri. O epíteto específico spinosus deriva do termo latino spinosus, que significa "espinhoso", em referência aos espinhos pontiagudos presentes na margem posterior dos tergitos abdominais das ninfas.
Taxonomia
Camelobaetidius spinosus é uma espécie de efemeróptero da família dos betídeos, pertencente ao gênero Camelobaetidius. Foi descrita em 2012 por Rafael Boldrini e Frederico Falcão Salles com base em ninfas coletadas no estado de Minas Gerais. Os autores observaram que a espécie parece estar mais proximamente relacionada a C. cayumba, compartilhando com ela a combinação de filamento terminal tão longo quanto os cercos, projeção distomedial triangular e pontiaguda no segundo segmento do palpo labial e ausência de brânquia torácica na base da coxa anterior. Estudos filogenéticos posteriores corroboraram essa proximidade entre as duas espécies. Apesar das semelhanças, C. spinosus distingue-se prontamente de C. cayumba pela presença de espinhos triangulares bem desenvolvidos na margem posterior dos tergitos abdominais. Até o momento, a espécie permanece conhecida exclusivamente a partir do estágio ninfal, não havendo descrição formal dos adultos.
Diagnóstico
A ninfa de Camelobaetidius spinosus distingue-se das demais espécies do gênero pela combinação dos seguintes caracteres: projeção distomedial do segundo segmento do palpo labial triangular e com ápice agudo; ausência de brânquia torácica na base da coxa anterior; garras tarsais com 20–24 dentículos; margem posterior dos tergitos abdominais provida de espinhos pontiagudos; paraprocto com seis espinhos pontiagudos; e filamento terminal tão longo quanto os cercos. A espécie pode ser facilmente diferenciada de C. cayumba, sua congênere mais semelhante, pela presença de espinhos agudos na margem posterior dos tergitos abdominais.
Morfologia
A descrição da espécie baseia-se exclusivamente na fase ninfal. As ninfas medem entre 3,4 e 4,0 milímetros de comprimento corporal. As antenas possuem entre 1,6 e 1,7 milímetro de comprimento, enquanto os cercos e o filamento terminal alcançam cerca de 2,2 milímetros. A coloração geral é castanho-clara. A cabeça apresenta coloração castanho-clara uniforme, com antenas também castanho-claras e escapo e pedicelo subcilíndricos. O lábio superior é mais largo que longo, com margem anterior estreitamente arredondada e base mais larga que o ápice. As mandíbulas possuem prostecas robustas e denticuladas. A hipofaringe apresenta língua aproximadamente do mesmo comprimento que a superlíngua, ambas providas de cerdas finas. A maxila possui quatro dentículos na galea-lacínia, enquanto o segundo segmento do palpo labial apresenta projeção triangular terminada em ápice pontiagudo, uma das características diagnósticas da espécie. O tórax é castanho-claro, com metanoto mais escuro. As tecas alares posteriores estão presentes. As pernas são castanho-claras, com o ápice dos fêmures castanho-escuro. Os fêmures anteriores são relativamente estreitos, cerca de 3,6 vezes mais longos que largos, e apresentam aproximadamente 65 cerdas espiniformes ao longo da margem dorsal. As garras tarsais possuem entre 20 e 24 dentículos. O abdome é castanho-claro. Os tergitos apresentam superfície enrugada no segmento IV e margem posterior armada com espinhos pontiagudos. As brânquias são ovais, de coloração castanho-clara, com traqueias pigmentadas e bem desenvolvidas. O paraprocto apresenta seis espinhos próximos à margem interna. Os cercos são castanho-claros, enquanto o filamento terminal é esbranquiçado, apresentando uma faixa castanha nos três quartos distais.
Distribuição e habitat
A espécie é endêmica do Brasil e conhecida apenas do estado de Minas Gerais. Os exemplares-tipo foram coletados no município de Bom Jesus do Galho, enquanto material adicional foi obtido no rio Sacramento, no município de Pingo-d'Água. Todos os registros conhecidos provêm da bacia do rio Doce, da qual a espécie também é endêmica. A região onde a espécie ocorre foi considerada relativamente bem amostrada para efemerópteros, não havendo registros adicionais conhecidos além dessas localidades. Sua extensão de ocorrência (EOO) foi estimada em aproximadamente quilômetros quadrados, valor calculado a partir das microbacias hidrográficas onde a espécie foi registrada e de áreas adjacentes consideradas potencialmente adequadas para sua ocorrência. C. spinosus está associada ao bioma Mata Atlântica, ocorrendo em ambientes de mata ciliar ao longo de cursos d'água da sub-bacia do Doce. Até o momento, não existem registros confirmados da espécie em unidades de conservação.
Ecologia
O estágio adulto permanece desconhecido, sendo a espécie conhecida apenas por ninfas. As informações sobre ciclo de vida e reprodução ainda não foram descritas na literatura científica. As ninfas de Camelobaetidius spinosus, assim como as de outras espécies do gênero, ocorrem sobre rochas e troncos submersos geralmente livres de sedimentos, em trechos de correnteza moderada a forte. A espécie está associada a ambientes lóticos bem preservados, sendo potencialmente sensível ao aumento da carga de sedimentos e a outras alterações na qualidade da água. As ninfas apresentam garras tarsais modificadas, de formato espatulado e com dentículos dispostos transversalmente em relação à perna, característica incomum entre os efemerópteros. Essa morfologia é interpretada como uma adaptação ao hábito de fixação sobre substratos expostos à correnteza e às condições de águas rápidas características de seu micro-habitat. Em razão dessa especialização ecológica, acredita-se que as espécies do gênero dependam de ambientes aquáticos relativamente pouco alterados. Evidências indiretas sugerem que as ninfas sejam raspadoras, alimentando-se principalmente de perifíton aderido aos substratos que habitam. Essa hipótese é sustentada pelo desgaste frequente observado nos incisivos mandibulares de representantes do gênero, indicando o consumo de material incrustado sobre rochas e outros substratos submersos. Como outros representantes da ordem dos efemerópteros, a espécie integra um grupo amplamente utilizado como indicador biológico da integridade de ecossistemas aquáticos.
Conservação
Não existiam avaliações específicas de conservação para a espécie quando de sua descrição original. Por ser conhecida apenas de poucas localidades no leste de Minas Gerais e exclusivamente a partir da fase ninfal, seu tamanho populacional, distribuição completa e tendências populacionais permaneciam desconhecidos. Posteriormente, Camelobaetidius spinosus foi avaliada como vulnerável (VU) pelo critério B1ab(iii), categoria validada em 2019 no processo nacional de avaliação do risco de extinção conduzido pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e publicada em 2023. A espécie também foi classificada como vulnerável para a bacia do rio Doce no Livro Vermelho da Biota Aquática do Rio Doce Ameaçada de Extinção Pós-Rompimento da Barragem de Fundão. Sua inclusão nessa categoria baseia-se na distribuição restrita, no reduzido número de registros conhecidos, na severa fragmentação populacional e no declínio contínuo da qualidade do hábitat. A espécie é endêmica da bacia do rio Doce e conhecida apenas dos municípios de Bom Jesus do Galho e Pingo-d'Água, em Minas Gerais. Sua extensão de ocorrência (EOO) foi estimada em aproximadamente quilômetros quadrados. Considerando sua provável baixa capacidade de dispersão, a elevada especificidade a micro-hábitats e a intensa transformação da paisagem em sua área de ocorrência, suspeita-se que mais de 50% da população esteja isolada em fragmentos de hábitat, caracterizando um cenário de severa fragmentação. A tendência populacional permanece desconhecida.
A espécie integra a Lista Nacional Oficial de Espécies da Fauna Ameaçadas de Extinção (Portaria n.º 444) de 2014, bem como sua atualização (Portaria MMA nº 148) de 2022, na categoria vulnerável (VU). Sob a mesma categoria, consta no Livro Vermelho da Fauna Brasileira Ameaçada de Extinção, organizado pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), onde foi avaliada como vulnerável (VU) pelo critério B1ab(iii). As principais ameaças identificadas incluem a remoção da vegetação ripária, as atividades agropecuárias, a silvicultura, o uso de herbicidas e pesticidas e o consequente assoreamento dos cursos d'água. Esses impactos provocam aumento da quantidade de partículas em suspensão na água, afetando diretamente a alimentação das ninfas e suas superfícies de trocas gasosas, além de favorecerem a deposição de sedimentos no leito dos rios, reduzindo a heterogeneidade dos micro-hábitats disponíveis. Também contribuem para a diminuição do aporte de matéria orgânica de origem alóctone, o aumento da incidência solar e a elevação da temperatura da água, fatores que resultam em declínio continuado da qualidade ambiental e intensificam os processos de fragmentação populacional. Em uma das localidades conhecidas, situada no entorno do Parque Estadual do Rio Doce, os cursos d'água encontram-se particularmente sujeitos aos impactos decorrentes da atividade agrícola. Embora a espécie não tenha sido diretamente afetada pelo rompimento da barragem de Fundão, os rejeitos lançados na bacia do rio Doce podem contribuir para a redução da conectividade entre populações e intensificar processos de fragmentação dos habitats aquáticos.