A cobra-cega-do-campo (nome científico: Trilepida jani) é uma espécie de serpente da família dos leptotiflopídeos (Leptotyphlopidae), endêmica do estado de Minas Gerais, no Brasil. Descrita em 2012, foi inicialmente atribuída ao gênero Tricheilostoma, posteriormente sinonimizado com Trilepida. A espécie integra um grupo de serpentes de pequeno porte conhecidas como cobras-cegas, caracterizadas pelo hábito subterrâneo, olhos reduzidos e corpo cilíndrico adaptado à escavação. Distingue-se de outras espécies congêneres por uma combinação particular de caracteres cranianos, escamais e cromáticos, incluindo focinho truncado, duas supralabiais separadas pela escama ocular e padrão de coloração formado por fileiras dorsais castanhas contrastando com a região ventral mais clara. Estudos morfológicos e osteológicos posteriores corroboraram sua posição sistemática dentro de Trilepida.

A espécie ocorre na Serra do Espinhaço e no Quadrilátero Ferrífero, estando associada principalmente a campos rupestres e outros ambientes montanos de transição entre o Cerrado e a Mata Atlântica. Seus registros distribuem-se por diversas serras e unidades de conservação de Minas Gerais, incluindo a região da Serra do Cipó, o Parque Nacional da Serra do Gandarela e o Parque das Mangabeiras. Habita solos adequados à escavação, onde constrói galerias subterrâneas e permanece a maior parte do tempo abaixo da superfície. Embora predominantemente fossorial, pode emergir durante períodos chuvosos e ocasionalmente forragear sobre o solo.

Pouco se conhece sobre sua biologia populacional, mas observações de campo indicam hábitos discretos e um repertório defensivo relativamente elaborado para uma cobra-cega, incluindo descarga cloacal, golpes com a espinha terminal da cauda e um raro comportamento de formação de nós corporais. Apesar da distribuição relativamente restrita, a espécie é considerada de menor preocupação (LC), pois grande parte de sua área de ocorrência permanece coberta por vegetação nativa e inclui diversas áreas protegidas. Atualmente não são conhecidas ameaças específicas capazes de provocar declínios populacionais significativos, embora a expansão urbana, a mineração e outras alterações ambientais representem potenciais fatores de pressão sobre os habitats montanos onde a espécie ocorre.

Taxonomia e sistemática

A cobra-cega-do-campo foi descrita em 2012 por Roberta Richard Pinto e Ronaldo Fernandes, originalmente sob a combinação Tricheilostoma jani, a partir de exemplares provenientes da Serra do Espinhaço, em Minas Gerais. A descrição ocorreu no contexto de uma revisão taxonômica de leptotiflopídeos neotropicais, motivada pela brevidade das descrições históricas e pela necessidade de reavaliar caracteres morfológicos pouco explorados no grupo. O estudo também discutiu o estado taxonômico de Rena dimidiata, então transferida para Tricheilostoma, e reconheceu que populações anteriormente atribuídas a essa espécie na Serra do Espinhaço representavam uma linhagem distinta, descrita como T. jani. Antes de sua descrição formal, exemplares da espécie haviam sido identificados na literatura como Leptotyphlops dimidiatus (atualmente Trilepida dimidiata), especialmente em levantamentos realizados no Quadrilátero Ferrífero.

O holótipo é um macho adulto, registrado sob o número MNRJ 4263 (Museu Nacional), coletado por Geraldo Kisteumacher em 1985 no Parque das Mangabeiras, no município de Belo Horizonte, em Minas Gerais, a cerca de mil metros de altitude. O espécime apresenta 187 milímetros de comprimento rostro-cloacal. A série-tipo compreende 21 parátipos provenientes de diferentes localidades da Serra do Espinhaço em Minas Gerais, incluindo registros em Belo Horizonte, Caeté, Santana do Riacho e no Parque Nacional da Serra do Cipó. O epíteto específico jani homenageia Giorgio Jan, naturalista e curador do Museu Cívico de História Natural de Milão, que contribuiu para o conhecimento das serpentes cegas e propôs o nome Tricheilostoma como subgênero de Stenostoma.

Em revisões taxonômicas posteriores dos leptotiflopídeos, Tricheilostoma foi considerado sinônimo de Trilepida, passando a espécie a ser denominada Trilepida jani. O nome genérico Trilepida deriva dos termos gregos treis (, "três") e lepís (, "escama"), em referência à presença de três escamas supralabiais, característica que distingue as espécies do gênero de outras cobras-cegas. Registros adicionais obtidos posteriormente ampliaram o conhecimento sobre sua distribuição na Serra do Espinhaço e no Quadrilátero Ferrífero, mas mantiveram o reconhecimento da espécie como um táxon distinto e endêmico do leste do Brasil. Estudos osteológicos comparativos baseados em tomografia computadorizada de alta resolução demonstraram que T. jani compartilha os principais caracteres cranianos diagnósticos do gênero Trilepida, fornecendo suporte anatômico adicional para seu posicionamento sistemático dentro desse grupo de leptotiflopídeos sul-americanos.

Diagnóstico

A cobra-cega-do-campo distingue-se de outras espécies neotropicais de leptotiflopídeos por uma combinação de caracteres morfológicos. Possui focinho truncado em vistas dorsal e ventral e arredondado em vista lateral, escama supraocular presente, ocular subhexagonal com margem anterior ligeiramente arredondada ao nível do olho e margem superior reta, rostral triangular em vista dorsal, geralmente sem alcançar a margem anterior das oculares, frontal de tamanho semelhante ao da supraocular e das demais escamas cefálicas médio-dorsais, temporal distinta ou indistinta, duas supralabiais separadas pela ocular, quatro infralabiais, corpo relativamente delgado, caudais fusionadas, dez escamas ao redor da região mediana da cauda e coloração formada por sete fileiras dorsais uniformemente castanho-claras contrastando com sete fileiras ventrais despigmentadas ou creme.

Morfologia

A cobra-cega-do-campo é uma serpente de pequeno porte, de corpo subcilíndrico, delgado e fossorial, com cabeça ligeiramente alargada em relação ao pescoço e corpo levemente afilado em direção à cauda. O holótipo, um macho adulto, apresenta 187 milímetros de comprimento rostro-cloacal e 19 milímetros de comprimento caudal. A cabeça mede 6,2 milímetros de comprimento e 3,6 milímetros de largura. O focinho é truncado em vistas dorsal e ventral e arredondado em vista lateral. A rostral é reta em vistas frontal e ventral, com ápice dorsal triangular, alcançando a linha transversal imaginária entre as margens anteriores das escamas oculares. A nasal é completamente dividida por uma sutura oblíqua que atravessa a narina, a qual é aproximadamente elíptica e posicionada na região mediana da sutura nasal. A supraocular está presente, é mais longa que larga e tem comprimento semelhante ao da frontal. A ocular é aumentada, subhexagonal, mais alta que longa, com margem superior reta e margem anterior ligeiramente arredondada ao nível do olho. O olho é distinto e situado na porção central da área superior expandida da ocular, acima do nível da narina. As escamas cefálicas médio-dorsais, incluindo frontal, pós-frontal, interparietal e interoccipital, são subiguais em tamanho, pentagonais e fracamente imbricadas.

A borda do lábio superior é formada pela rostral, infranasal, supralabial anterior, ocular e supralabial posterior. A espécie possui duas supralabiais, completamente separadas pela ocular, em arranjo 1+1. A primeira supralabial é quase duas vezes mais alta que longa e ultrapassa inferiormente os níveis da narina e do olho, sendo mais alta que a segunda supralabial; a segunda é mais alta que longa, cruza os níveis da narina e do olho e mantém amplo contato posterior com a temporal. A temporal pode ser distinta ou indistinta em relação às escamas dorsais das fileiras laterais. A sínfise mandibular é trapezoidal, cerca de duas vezes mais larga que longa, e há quatro infralabiais. As duas primeiras infralabiais são subiguais e aproximadamente duas vezes mais longas que largas; a terceira é mais larga que as duas primeiras; e a quarta é distintamente mais longa que as demais, quase duas vezes mais longa que larga. No holótipo, há 191 escamas médio-dorsais, 169 médio-ventrais, 14 fileiras de escamas ao redor do meio do corpo, reduzidas a dez fileiras na região mediana da cauda, 20 subcaudais, caudais fusionadas e escudo cloacal triangular, quase duas vezes mais largo que longo. A espinha terminal é grande, cônica e mais longa que larga. As escamas dorsais são homogêneas, ciclóides, lisas, fracamente imbricadas e mais largas que longas. Garras femorais são externamente visíveis em ambos os lados.

A variação conhecida da espécie indica 176–206 escamas médio-dorsais nas fêmeas e 180–203 nos machos; 160–188 escamas médio-ventrais nas fêmeas e 161–180 nos machos; e 14–18 subcaudais nas fêmeas e 15–20 nos machos. O comprimento total varia de 93 a 262 milímetros nas fêmeas e de 92 a 225 milímetros nos machos. As fêmeas apresentam número significativamente maior de escamas médio-dorsais e médio-ventrais, enquanto os machos possuem maior número de subcaudais, maior diâmetro relativo da cauda e cauda proporcionalmente mais longa em relação ao corpo. A espécie apresenta normalmente duas supralabiais, separadas pela escama ocular, mas exemplares com três supralabiais em um ou ambos os lados da cabeça já foram registrados, representando uma variação intraespecífica que pode ocasionar confusões taxonômicas com espécies congêneres. A coloração, tanto em exemplares preservados quanto em vida, é formada por sete fileiras dorsais uniformemente castanho-claras ou marrons e sete fileiras ventrais creme ou castanho-claras, geralmente com pigmentação no centro das escamas ventrais e bordas claras. As margens inferiores das escamas que formam a borda do lábio superior são creme, a escama cloacal segue o padrão ventral e a espinha terminal acompanha a coloração geral do corpo. Em vida, os indivíduos podem apresentar coloração dorsal marrom-avermelhada, marrom-escura ou marrom-enegrecida. O hemipênis é simples, em forma de trombeta, estreito na base e robusto no ápice, com corpo ornamentado por pregas; o sulco espermático é único, entra pela superfície basal do órgão e segue em direção ao ápice, que é ligeiramente côncavo e recoberto por pequenas papilas.

Distribuição e habitat

A cobra-cega-do-campo é endêmica do Brasil e ocorre na região da Serra do Espinhaço e do Quadrilátero Ferrífero, em Minas Gerais. A espécie está associada a áreas de transição entre os domínios da Mata Atlântica e do Cerrado, bem como a formações típicas de campos rupestres, sendo conhecida principalmente em ambientes montanos situados entre aproximadamente 600 e metros de altitude. Sua distribuição está associada às sub-bacias dos rios Doce, Jequitinhonha e Alto São Francisco. Registros obtidos no Quadrilátero Ferrífero indicam que a espécie ocorre predominantemente em ambientes campestres, incluindo campos rupestres quartzíticos e ferruginosos, campos limpos e campos sujos, mas também pode utilizar florestas estacionais semideciduais e áreas de transição entre formações florestais e campestres.