ligação=https://en.wikipedia.org/wiki/File:Grande_Paix_de_Montr%C3%A9al_07_LES_HURONS-WYANDOT-Marque-du-Rat.svg|miniaturadaimagem|Assinatura de Kondiaronk no tratado de Grande Paz de Montreal. Kondiaronk (1649-1701) foi um intelectual indígena do povo wendat. Conhecido também por outros pseudônimos como Adario, Gaspar Soiaga, Souoias, Sastaretsi, Tsonontatheronon e O Rato. Teve um papel fundamental na diplomacia entre as sociedades indígenas do atual Canadá e as forças coloniais francesas a partir da segunda metade do século XVII.

A confederação wendat era uma coalizão de quatro povos de língua iroquesa na América do Norte que visava frear o avanço dos colonizadores. A nação tinha uma organização politica baseada no debate racional e em consensos, eles eram treinados em conselhos para deliberar e tomar decisões politicas. Por esses motivos, foram considerados ótimos oradores pelos jesuítas.

Kondiaronk foi reconhecido por suas habilidades de oratória pelos missionários e jesuítas, o padre Pierre de Charlevoix comentou que: "Era igualmente brilhante nas conversas em privado, e [conselheiros e negociadores] muitas vezes tinham prazer em provocá-lo para ouvir as suas réplicas, sempre vívidas, muito espirituosas e geralmente irretorquíveis. Era o único homem no Canadá páreo para o [governador] conde de Frontenac, que muitas vezes o convidava à sua mesa para dar esse prazer a seus funcionários."

Esse esforço diplomático culminou na Grande Paz de Montreal, em 1701 , entre a França, os iroqueses e as demais tribos indígenas da região dos Grandes Lagos. Isso pôs fim às Guerras dos Castores e ajudou a abrir o interior da América do Norte para uma exploração e um comércio mais aprofundados por parte dos franceses.

Ao contrair febre, durante as negociações da Grande Paz em Montreal, Kondiaronk morreu em 2 de agosto de 1701. Em 2001, ele foi declarado Pessoa de Significado Histórico Nacional pelo governo canadense e homenageado com o Belvedere Kondiaronk, no Parque Mount Royal de Montreal. miniaturadaimagem|Placa existente na Praça da Grande Paz de Montreal em homenagem a Kondiaronk, o grande chefe dos wedant.

Kondiaronk através de Lahotan   O barão de Lahontan, militar francês, durante suas expedições pelas Américas se tornou fluente nas línguas algonquina e wendat, a partir de seus encontros com representantes políticos indígenas. Segundo seus relatos, construiu relações que depois se tornaram referências para o tema de seu livro Suplément aux voyages du Baron de Lahontan. Où l’on trouve des dialogues curieux entre l’auteur et un sauvage de bon sens qui a voyagé (1703).

As conversas que teriam dado origem ao livro ocorreram em Michilimackinac, no estreito entre os lagos Huron e Michigan. Na obra ele descreve quatro diálogos que teria tido com um sábio wendat de nome Adario, pseudônimo de Kondiaronk, que lança um olhar extremamente crítico sobre os costumes e as ideias europeias referentes à religião, à política, à saúde e à vida sexual.  Entre as críticas feitas por Kondiaronk acerca dos costumes europeus, destacam-se:

Religião e Razão Lahontan descreve a opinião de Kondiaronk a respeito da religião dos Franceses:

“De minha parte, sempre sustentei que, se fosse possível que Deus tivesse rebaixado seus critérios o suficiente para vir à terra, teria vindo à vista de todos, descendo em triunfo, com pompa e majestade, e muito publicamente [...]. Teria ido de nação em nação realizando grandes milagres, conferindo assim a todos as mesmas leis. Então todos nós teríamos a mesma religião (...) Em vez disso, existem quinhentas ou seiscentas religiões, cada uma diferente da outra, entre as quais, segundo vocês, somente a religião dos franceses é boa, sagrada ou verdadeira.”

Ao apontar a presunção dos jesuítas de serem os que deteriam a religião verdadeira, Kondiaronk argumenta não haver lógica em um ser onisciente e onipotente e passar por um sofrimento terrível para salvar somente alguns da condenação.

Lei e Punição Sobre as Leis punitivas, Kondiaronk argumenta que, da mesma maneira que a condenação eterna religiosa, elas são consequências da estrutura organizacional da sociedade, que incentiva o egoísmo: "Que tipo de ser humano, que espécie de criatura devem ser os europeus, para precisar ser forçados a fazer o bem e só se abstêm do mal por medo do castigo?”

Kondiaronk acreditava não existir maneira de os europeus não agirem de forma inumana, pois o que consideram maior beneficio na sociedade, o dinheiro e a propriedade, por si só já incentivava as pessoas a se comportarem mal.

Crítica ao Dinheiro e a Propriedade Kondiaronk sustentava que qualquer busca de satisfação material tem por consequência a desigualdade social. “O dinheiro é o pai da luxúria, da lascívia, das intrigas, das trapaças, das mentiras, da traição, da insinceridade e, geralmente, dos piores males de todo o mundo.” Para ele o dinheiro é incompatível com a razão visto que a busca pelo luto anulava a sabedoria.

Apesar do sucesso da obra na França, muitos leitores consideraram os diálogos fictícios, por não acreditarem que um indígena fosse capaz de participar de discussões dessa natureza. Ainda que os relatos de Lahontan não possam ser verificados com precisão, sobretudo pela ausência de meios de registro na época, a recusa em reconhecer Kondiaronk como um pensador legítimo revela o preconceito presente na sociedade europeia do período. Eles, para justificar a existencia de Kondiaronk no texto, concluiram que foi um recurso estilistico utilizado por Lahontan.

Hoje existem fontes e evidências que comprovam a existência do sábio wendat. O relato do padre jesuíta Pierre de Charlevoix e os registros nos Arquivos Canadenses, que indicam que a Confederação Wendat enviou um embaixador à França, em 1691, para uma audiência com o rei Luís XIV, são alguns dos exemplos.

Contribuições para o Iluminismo Traduzido para diversos idiomas, o relato de Lahontan acerca das críticas feitas por Kondiaronk sobre a natureza da liberdade, da igualdade ou até mesmo da racionalidade e das religiões passou a integrar diversos debates intelectuais durante os séculos XVII e XVIII, influenciando discussões que posteriormente seriam centrais para o Iluminismo.

Um exemplo disso é a primeira edição da Encyclopédie, marco do Iluminismo, organizada por Jean d’Alembert e Denis Diderot em 1722, em que os argumentos de Kondiaronk foram considerados “tão bons que seria impossível terem sido expressos pela boca de alguém que, no fundo, é um selvagem”.

Kondiaronk, nesse contexto, era o porta-voz do conselho da Confederação Wendat e era considerado "(...) uma espécie de Sócrates ameríndio ou Davi Kopenawa dos séculos XVII e XVIII, que seduziu a intelectualidade ocidental, como Leibniz, Rousseau, Voltaire e Diderot, à medida que sua filosofia e suas críticas à Europa e à religião cristã se espalhavam por essa sociedade."

Voltaire, como outros filósofos iluministas, teve contato com esse material, que apresentava uma visão alternativa de sociedade, baseada em liberdade, igualdade e consenso. Voltaire teria se inspirado diretamente na figura de Kondiaronk para criar o protagonista de sua obra O Ingênuo, personagem que é descrito como meio wendat e meio francês. Através deste personagem, Voltaire utilizou a perspectiva externa e o ceticismo racional indígena para satirizar as instituições e vaidades da sociedade francesa.

A noção de que sociedades poderiam existir sem hierarquia rígida ou coerção estatal foi um choque para intelectuais europeus, abrindo espaço para novas concepções de direitos naturais e democracia. Sendo assim, os ideais de liberdade e igualdade, centrais na Revolução Francesa e no Iluminismo, não teriam nascido apenas de tradições europeias, mas foram moldados pelo diálogo com pensadores indígenas como Kondiaronk.

Referências

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