Abu Darre Alguifari, nascido Jundabe ibne Junada ibne Sufiane Alguifari (; m. ), foi um dos primeiros convertidos ao Islã e um dos companheiros de Maomé. Membro da tribo dos , teria sido o quarto ou quinto indivíduo a aceitar o islamismo e é considerado o primeiro beduíno muçulmano. Após viver próximo de Maomé em Medina e participar das primeiras conquistas islâmicas, tornou-se conhecido por sua religiosidade, ascetismo, franqueza e oposição à acumulação de riquezas. Durante o califado de Otomão , Abu Darre criticou algumas despesas do governador da Síria, , e defendeu que os bens excedentes às necessidades de seus proprietários fossem empregados no caminho de Deus. Suas pregações atraíram sobretudo os pobres e os opositores do governo, dando origem a um conflito político que resultou em sua transferência para Rebeze, onde passou os últimos anos de vida. Embora autores modernos tenham procurado apresentá-lo como precursor do socialismo islâmico, suas concepções estavam fundamentadas na piedade, no ascetismo e na noção islâmica de justiça social.

Vida

Origem e conversão

Abu Darre tornou-se tão conhecido por sua cúnia que seu nome pessoal foi praticamente esquecido. Além de Jundabe, algumas tradições afirmam que se chamava Barir, Burair, Iázide ou Iurair, enquanto seu pai, geralmente chamado Junada, também teria recebido os nomes Sacane ou Abedalá. Pertencia aos , tribo cujos integrantes eram conhecidos por realizarem ataques, pilhagens e assaltos a viajantes mesmo durante os meses sagrados. Segundo alguns relatos, antes de sua conversão Abu Darre também praticava o roubo de caravanas e figurava entre os saqueadores mais ousados de sua tribo. Apesar disso, não adorava ídolos como os demais guifaritas e afirmava odiá-los. De acordo com seu próprio testemunho, começou a adorar a Deus dois ou três anos antes de aceitar o Islã, o que indica que pode ter mantido vínculos com os hanifes, monoteístas árabes anteriores ao islamismo. Ao saber que Maomé pregava em Meca a crença em um Deus único, Abu Darre dirigiu-se à cidade e, depois de enfrentar várias dificuldades, conseguiu encontrar o profeta e converteu-se.

Segundo uma tradição atribuída ao próprio Abu Darre, Maomé teria se surpreendido com a conversão de um integrante dos guifaritas e declarado que Deus conduz à orientação quem deseja. Considerado o primeiro beduíno muçulmano, teria sido a quarta ou quinta pessoa a aceitar a nova religião, provavelmente durante os primeiros anos da missão profética. Em seguida, dirigiu-se à Caaba e proclamou publicamente sua fé, sendo violentamente espancado pelos politeístas. Escapou da morte graças à intervenção de Alabás ibne Abede Almotalibe. No dia seguinte, voltou ao mesmo local, declarou-se novamente muçulmano e sofreu novo espancamento. Maomé então lhe ordenou que regressasse à sua tribo, convidasse seus membros ao Islã e não retornasse a Meca antes de ser chamado. Abu Darre cumpriu a determinação, e seus esforços teriam levado metade dos guifaritas a se converter. Há relatos de que, nesse período, atacava caravanas dos coraixitas, mas devolvia os bens àqueles que pronunciassem a profissão de fé islâmica e distribuía os despojos obtidos apenas entre os integrantes muçulmanos de sua tribo.

Permanência em Medina

Abu Darre realizou a Hégira para Medina após a Batalha de Uude, em 625, ou depois da Batalha da Trincheira, em 627. Passou a viver na Mesquita do Profeta junto dos , grupo formado principalmente por muçulmanos pobres que não possuíam residência própria. Dessa forma, permaneceu constantemente próximo de Maomé e a seu serviço. Quando os integrantes do grupo eram distribuídos entre as casas dos companheiros mais abastados para as refeições noturnas, Abu Darre costumava ser recebido na própria casa do profeta. Enquanto pastoreava as camelas leiteiras de Maomé em Algaba, nas proximidades de Medina, sofreu um ataque comandado por Uiaina ibne Hisne e perdeu um filho no confronto, em junho de 627. São consideradas pouco confiáveis as tradições segundo as quais teria permanecido em Medina como representante de Maomé durante a Expedição de Date Arricá, em junho de 626, e a campanha contra os mustaliquitas, no ano seguinte. Em fevereiro de 628, integrou um grupo de vinte homens enviado para capturar membros da tribo de Ureina que haviam assassinado os pastores do profeta. Em certa ocasião, Abu Darre solicitou a Maomé que lhe concedesse um cargo de comando, mas o profeta recusou o pedido e afirmou que ele não possuía as qualidades necessárias para o exercício da autoridade. A partir de então, Abu Darre não procurou nenhum posto governamental e recusou as funções que lhe foram oferecidas. Durante a Conquista de Meca e a Batalha de Hunaine, carregou o estandarte de sua tribo. Maomé apreciava sua companhia, consultava-o sobre determinados assuntos e, durante sua última enfermidade, mandou chamá-lo e o abraçou.

Primeiros califados e conquistas

Após a morte de Maomé, Abu Darre considerava que Ali era mais digno de ocupar o califado. Contudo, ao verificar que os muçulmanos haviam prestado juramento de fidelidade a Abu Becre , também o reconheceu como califa. Quando Omar assumiu o governo, sua opinião sobre o direito de Ali ao califado não havia mudado, mas ainda assim prestou fidelidade ao novo governante. Ao estabelecer estipêndios para os companheiros, Omar incluiu Abu Darre entre os participantes da Batalha de Badre, embora ele não tivesse combatido no confronto, e concedeu-lhe uma pensão equivalente à dos veteranos da batalha. Durante o califado de Omar, Abu Darre provavelmente se dirigiu à Síria para participar das conquistas. Empregava o estipêndio que recebia na compra e manutenção de cavalos destinados à jiade, compartilhando-os alternadamente com outros combatentes. Também se afirma que alguns de seus cavalos permaneceram em Hómece. Acompanhou Omar na tomada de Jerusalém, em 639, e depois participou, sob o comando de Anre ibne Alas, da conquista muçulmana do Egito, em 641. Após a conquista, permaneceu algum tempo no país, embora se saiba que estava novamente em Medina nos últimos anos do califado de Omar.

Conflito com Moáuia e Otomão

Abu Darre esteve entre os primeiros a prestar fidelidade a Otomão, mas temia que a idade avançada e o temperamento brando do califa prejudicassem sua capacidade de governar. Continuou participando das campanhas militares e, sob o comando de Moáuia, integrou o exército que avançou pela Anatólia até Amório, em 643 ou 644. Durante o governo de Moáuia na Síria, também participou da conquista muçulmana de Chipre. Enquanto vivia na Síria, criticou severamente determinadas despesas de Moáuia e o hábito de muçulmanos abastados de acumular bens excedentes, em vez de empregá-los no caminho de Deus. Suas ideias despertaram particular interesse entre os pobres e os opositores do governo, provocando um movimento contrário à administração e aos ricos. O relacionamento entre Abu Darre e Moáuia deteriorou-se, e o governador chegou a proibir a população de conversar com ele e a denunciá-lo a alguns companheiros de grande prestígio. Como essas medidas não produziram o efeito desejado, Moáuia comunicou a situação a Otomão. Em 650 ou 651, Otomão chamou Abu Darre de volta a Medina. Como ele continuou expondo publicamente suas opiniões, decidiu-se que deveria residir em Rebeze, local situado junto a uma fonte de água na estrada para Meca, a cerca de três milhas de Medina. Alguns integrantes dos guifaritas armavam ocasionalmente suas tendas nessa região, onde Abu Darre já havia pastoreado camelos destinados à arrecadação do zacate durante a vida de Maomé. Otomão teria escolhido o lugar por ser isolado e por haver ali conhecidos de Abu Darre.

As fontes divergem sobre as circunstâncias de sua transferência. Ibne Sade afirma que Abu Darre foi voluntariamente para Rebeze. Em contrapartida, Iacubi e Almaçudi sustentam que ele desejava estabelecer-se em Meca, Baçorá, Cufa ou Damasco, mas Otomão recusou essas alternativas. Embora seja certo que a mudança ocorreu em consequência do desacordo entre Abu Darre e o califa, não é possível determinar qual deles escolheu Rebeze. Segundo outra tradição, Otomão lhe forneceu alguns camelos e dois servidores, além de estabelecer uma pensão diária para seu sustento. Quando Abu Darre deixou Medina com a família, Ali, seus filhos Haçane e Huceine, Amar ibne Iacir e Aquil ibne Abi Talibe caminharam com ele durante algum tempo para se despedir. Abu Darre viveu cerca de dois anos em relativo isolamento em Rebeze, embora retornasse ocasionalmente a Medina a pedido de Otomão. Alguns adversários do governo, alegando que pretendiam rebelar-se contra o califa, ofereceram-lhe a liderança do movimento. Abu Darre recusou a proposta e aconselhou-os a permanecer obedientes a Otomão e a evitar atos que pudessem humilhá-lo.

Morte

Abu Darre morreu em Rebeze no mês de dulrija de 32 A.H., correspondente a julho de 653. Segundo uma tradição, sua oração fúnebre foi conduzida por Abedalá ibne Maçude, que passava pelo local com uma caravana. Outro relato afirma que não havia em sua casa tecido suficiente para envolvê-lo numa mortalha e que um jovem integrante da caravana cedeu seus próprios tecidos e dirigiu a oração. Uma versão diferente atribui a cerimônia a . Assim como ocorreu com outros companheiros de Maomé, estabeleceu-se em Istambul, no bairro de , um cenotáfio atribuído a Abu Darre. Sua família, composta pela esposa, uma filha e um servidor, teria herdado apenas três jumentos, algumas cabras e poucos outros animais. Otomão levou seus familiares para Medina e os acolheu entre os membros de sua própria casa.

Aparência e caráter

Abu Darre era descrito como um homem de pele morena, grande compleição, elevada estatura e cabelos abundantes. Segundo os relatos tradicionais, o indivíduo de temperamento severo que antes do Islã assaltava viajantes e tirava vidas teria sido completamente transformado pela disciplina religiosa, tornando-se defensor dos pobres e necessitados. Era apresentado como tão humilde que, após ofender um homem negro, teria colocado o rosto sob o pé dele e lhe pedido que o perdoasse. Vestia roupas semelhantes às de seu servidor e compartilhava com ele a mesma comida. Também era considerado corajoso, sincero e franco. Uma tradição atribui a Maomé a afirmação de que não existia, sob o céu nem sobre a terra, pessoa mais verdadeira que Abu Darre. Cumpria os mandamentos divinos sem recorrer a interpretações destinadas a atenuá-los, não se afastava das campanhas militares e desprezava os prazeres mundanos. Acreditava que o ser humano deveria viver para obter sustento lícito e alcançar a vida futura, considerando prejudicial qualquer terceiro objetivo. Da mesma maneira, defendia que o dinheiro deveria ser adquirido somente para prover alimento lícito à família e ser empregado no caminho da vida futura. Outra tradição afirma que Maomé o comparou a Jesus, declarando que Abu Darre caminhava sobre a terra com o ascetismo de Jesus, filho de Maria.

Obra

Atividade religiosa e intelectual