Gilberto Francisco Macave (Maputo, 1985), conhecido artisticamente como Muzilene, é um artista plástico, designer gráfico, ilustrador e autor de banda desenhada moçambicano. A sua produção artística caracteriza-se pela utilização de técnicas mistas, incluindo acrílico sobre tela, aguarela e batique, abordando temas relacionados com o quotidiano moçambicano, a identidade cultural, a figura humana, a sustentabilidade e as relações sociais. É considerado um dos representantes da nova geração de artistas plásticos de Moçambique.

Biografia

Gilberto Francisco Macave nasceu em 1985, no bairro da Polana Caniço, na cidade de Maputo. Desde criança manifestou interesse pelo desenho e pela pintura, iniciando a sua aprendizagem artística de forma autodidata antes de integrar ateliês de artistas consagrados da capital moçambicana.

Durante a adolescência frequentou os ateliês dos artistas plásticos moçambicanos Djive, Ídasse e Victor Sousa, experiência que contribuiu para o desenvolvimento da sua linguagem artística e para o domínio de diferentes técnicas de pintura.

Posteriormente frequentou o curso de Artes Gráficas na Escola Nacional de Artes Visuais, em Maputo. Paralelamente à pintura desenvolveu atividade profissional como designer gráfico, ilustrador editorial e autor de histórias em banda desenhada destinadas ao público infantil.

Desde o início da sua carreira, Muzilene tem conciliado a criação artística com atividades de promoção cultural e educação artística, defendendo a necessidade de uma maior valorização das artes visuais em Moçambique e de um maior contacto entre os artistas e a sociedade.

Carreira

Muzilene iniciou a sua carreira artística participando em exposições coletivas organizadas por galerias e instituições culturais de Maputo. Em 2000, passou a dedicar-se à sua arte com maior profissionalismo, pois o desenho e a pintura já ocupavam um lugar central na sua vida. A sua primeira obra retrata memórias marcadas por lembranças repletas de cor e significado. Muzilene guarda com especial apreço esse trabalho, que lhe confirmou estar a seguir a direção certa no seu percurso artístico. A partir da década de 2010 consolidou-se como um dos artistas emergentes da arte contemporânea moçambicana, desenvolvendo uma produção centrada na representação do quotidiano, da identidade cultural e da condição humana.

A sua obra caracteriza-se pela utilização de diferentes suportes e técnicas, nomeadamente acrílico, aguarela, desenho e batique sobre tela, combinando elementos figurativos com simbolismo e referências ao contexto social moçambicano.

Exposições e carreira artística

Ao longo da sua carreira, Muzilene participou em diversas exposições individuais e coletivas em Moçambique, sobretudo na cidade de Maputo, apresentando trabalhos desenvolvidos em técnicas como batique sobre tela, acrílico, aguarela e técnica mista. As suas exposições têm explorado temas ligados à experiência humana, às relações sociais, à sustentabilidade e às vivências dos espaços urbanos e rurais moçambicanos.

Exposições individuais

Lhavutelo (Revelação)

Em 2015, apresentou a exposição individual Lhavutelo (Revelação), realizada na Mediateca do Banco Comercial e de Investimento (BCI), em Maputo. A mostra reuniu 32 obras nas quais o artista retratou dificuldades, inquietações e desafios da vida quotidiana, utilizando predominantemente a técnica de batique sobre tela e uma linguagem inspirada nas realidades sociais moçambicanas.

A exposição foi descrita como uma reflexão artística sobre as dificuldades enfrentadas por homens e mulheres no quotidiano, abordando temas como sobrevivência, pobreza, desigualdade e relações humanas. Na mesma ocasião, foi referido que Muzilene já participava em exposições coletivas e workshops antes da realização desta mostra individual.

Nós e um Futuro Sustentável

Em 2017, apresentou a exposição Nós e um Futuro Sustentável, na Galeria da Escola Portuguesa de Moçambique. A mostra abordou questões relacionadas com sustentabilidade e a relação entre o ser humano e o ambiente através das artes visuais.

Massungulo II

Em agosto de 2018, realizou a exposição individual Massungulo II, no Auditório do Edifício-Sede do Banco Comercial e de Investimento (BCI), em Maputo. A exposição reuniu 35 obras, predominando técnicas como pintura em técnica mista, acrílico sobre tela e aguarela.

Segundo o BCI, a exposição integrou a programação cultural da instituição dedicada à valorização dos artistas moçambicanos, apresentando uma fase de evolução artística de Muzilene enquanto autor multifacetado.

Da Alma à Tela: os Caminhos que Pintam a Nossa Essência

Em 2026, apresentou a exposição individual Da Alma à Tela: os Caminhos que Pintam a Nossa Essência, na Galeria do Hotel Cardoso, em Maputo.

A mostra reuniu obras executadas principalmente em acrílico sobre tela, centradas na figura humana, com destaque para representações da mulher moçambicana e diferentes dimensões emocionais da experiência humana.

Exposições coletivas

Entre as exposições coletivas em que participou encontram-se:

Despertando Olhares (2013), apresentada no BCI, em parceria com o artista plástico João Timane; Um Brinde à Amizade, integrada na Semana das Artes Maputo (2018); Sustentabilidade (2022), exposição organizada pela Escola Portuguesa de Moçambique – Centro de Ensino e Língua Portuguesa (EPM-CELP), com participação de vários artistas moçambicanos, onde foram apresentadas obras produzidas a partir de materiais reciclados e abordagens ligadas à consciência ambiental.

Coleções e presença artística

Algumas obras de Muzilene integram coleções privadas dentro e fora de Moçambique. O artista foi igualmente incluído em iniciativas de divulgação da arte contemporânea africana, incluindo o catálogo internacional Imago Mundi – Mozambique Catalogue.

A sua participação em exposições institucionais e projetos culturais contribuiu para a divulgação da sua obra junto de diferentes públicos, incluindo espaços culturais, galerias e instituições privadas.

Projetos ligados à sustentabilidade

A sustentabilidade tornou-se um dos temas presentes no percurso artístico de Muzilene.

Em 2025, venceu a primeira edição do concurso **Encontro Bienal de Arte Sustentável (EBAS) – Maputo**, uma iniciativa dedicada à valorização de obras produzidas a partir de materiais recicláveis e à sensibilização ambiental através da arte. Os artistas Chaleque e António Mucavele conquistaram o segundo e terceiro lugares, respetivamente.

A distinção reforçou a ligação da sua produção artística com temas ambientais e sociais, colocando a sua obra no contexto da chamada arte sustentável em Moçambique.

Estilo artístico

A produção artística de Muzilene caracteriza-se pela experimentação de diferentes técnicas, com destaque para o batique sobre tela, técnica que desenvolveu a partir da sua formação em artes têxteis e que posteriormente adaptou ao campo da pintura. O artista utiliza igualmente técnica mista, acrílico sobre tela e aguarela, procurando criar uma linguagem visual própria.

Segundo o próprio artista, a sua inspiração surge da observação do movimento das pessoas, dos animais, das aves e dos elementos presentes na natureza. A sua obra procura representar experiências humanas, emoções e aspetos do quotidiano, combinando elementos figurativos com interpretações simbólicas.

A temática das suas obras inclui frequentemente questões sociais, identidade cultural, pobreza, sobrevivência, relações humanas e sustentabilidade. Na exposição Lhavutelo (Revelação), por exemplo, Muzilene abordou dificuldades e inquietações do quotidiano humano através de uma linguagem associada às vivências suburbanas moçambicanas.

O artista também tem desenvolvido trabalhos relacionados com a reutilização de materiais e a consciência ambiental, integrando a arte sustentável no seu percurso criativo.

Receção crítica

A obra de Muzilene tem sido objeto de análise por críticos e órgãos de comunicação social moçambicanos.

Em 2026, a exposição Da Alma à Tela: os Caminhos que Pintam a Nossa Essência foi analisada pelo escritor e crítico de arte Bathist DMC, no artigo Caminhos de Muzilene – Os prós e contras, publicado no Diário de uma Qawwi.

Na análise, o crítico destacou a evolução da linguagem artística do pintor, observando a relação entre a figura humana, a emoção e a construção simbólica presente nas obras. A crítica abordou igualmente aspetos positivos e limitações da exposição, apresentando uma avaliação global do percurso artístico do autor.

Colaboração com o Baía Mall

Durante a pandemia de COVID-19, Muzilene iniciou uma colaboração artística com o Baía Mall, em Maputo, onde passou a desenvolver atividades de pintura ao vivo, exposições e interação direta com o público.

Segundo uma entrevista publicada pelo jornal Dossiers & Factos em 2022, o artista apresentou uma proposta ao Baía Mall num período de dificuldades para o setor cultural, tendo encontrado naquele espaço uma oportunidade para continuar a desenvolver a sua atividade artística.

A parceria incluiu sessões de pintura ao vivo e iniciativas destinadas a aproximar as artes plásticas do público. Entre essas atividades encontra-se a criação da obra Baía Mall Halloween, realizada ao vivo durante uma programação cultural do centro comercial.

Num vídeo institucional divulgado pelo Baía Mall, Muzilene é apresentado como artista plástico residente naquele espaço há cerca de três anos, destacando a relação entre o centro comercial e a promoção das artes visuais em Moçambique.

Prémios e distinções

Ao longo da sua carreira, Muzilene recebeu diversos prémios e reconhecimentos.

Em 2012 venceu o primeiro e o segundo prémios atribuídos pelo Fundo Nacional de Energia (FUNAE), num concurso de artes visuais. Recebeu igualmente uma Menção Honrosa no Festival Showesia no mesmo ano.

Em 2017 recebeu o primeiro prémio do Núcleo de Arte, na exposição intitulada Com Mar no Horizonte, segundo entrevista concedida ao jornal Dossiers & Factos.

Em 2025 venceu a primeira edição do concurso **Encontro Bienal de Arte Sustentável (EBAS) – Maputo**, uma iniciativa dedicada à promoção da arte sustentável e à sensibilização ambiental através da transformação de materiais recicláveis em obras artísticas.

A distinção do EBAS destacou a capacidade do artista em associar criação artística, inovação e preocupações ambientais, num concurso que recebeu obras provenientes de diferentes regiões de Moçambique.

Outras atividades

Além da pintura, Muzilene desenvolve trabalhos nas áreas do design gráfico, ilustração e produção de banda desenhada infantil. A sua formação em Artes Gráficas permitiu-lhe atuar profissionalmente em diferentes áreas das artes visuais.

O artista tem também promovido iniciativas de educação artística, defendendo a utilização das artes como instrumento de transformação social. Entre os seus projetos encontra-se a realização de workshops destinados a estudantes e jovens, com o objetivo de aproximar novas gerações das artes visuais.

Muzilene é igualmente membro do Núcleo de Arte, uma das mais antigas instituições de promoção das artes plásticas em Moçambique.

Ver também

Arte contemporânea africana Arte de Moçambique Pintura de Moçambique

Referências

Bibliografia

Banco Comercial e de Investimento (BCI). Auditório do BCI acolhe Massungulo II. Maputo: BCI. Disponível em: https://www.bci.co.mz/auditorio-do-bci-acolhe-massungulo-ii/ Jornal Domingo. Lhavutelo em exibição no BCI. Maputo, 25 de julho de 2015. Disponível em: https://jornaldomingo.co.mz/artes-letras/lhavutelo-em-exibicao-no-bci/ Dossiers & Factos. "Falta educação artística para as pessoas entenderem a arte": entrevista com Gilberto Muzilene. Maputo, 2022. Diário de uma Qawwi. Bathist DMC. Caminhos de Muzilene – Os prós e contras. 30 de maio de 2026. Africa Press Mozambique. Gilberto Muzilene wins Sustainable Art Award. Imago Mundi. Mozambique Catalogue.