A judia Raquel, publicada originalmente com a grafia A judia Rachel e com a indicação Scenas orientaes acima do título, é um romance de costumes de Francisca Senhorinha da Motta Diniz e A. A. Diniz. A primeira edição foi publicada no Rio de Janeiro, em 1886, por José Assis Climaco dos Reis.

Dividida em duas partes, a narrativa acompanha Raquel, uma jovem judia sequestrada da família, vendida como escrava e posteriormente conduzida ao harém do sultão Murah. Após uma série de conflitos e perseguições, ela foge com a ajuda do cavaleiro cristão Roberto du Pensier, conhecido como Príncipe Negro. Em 2020, o Senado Federal publicou, sob coordenação da Biblioteca do Senado Federal, uma edição com atualização ortográfica e notas explicativas, correspondente ao volume 5 da Coleção Escritoras do Brasil.

Publicação e autoria

A folha de rosto da edição de 1886 apresenta o título A judia Rachel: romance original de costumes, precedido pela expressão Scenas orientaes. A autoria é atribuída a “D. Francisca Senhorinha da Motta Diniz e sua filha A. A. Diniz”. O volume foi impresso no Rio de Janeiro, possui 254 páginas e mede 16 centímetros.

A obra é apontada como o único livro de ficção publicado por Francisca Senhorinha da Motta Diniz.

A identificação da coautora indicada pelas iniciais “A. A.” não é consensual. A edição de 2020 informa que diferentes estudos atribuíram a coautoria a Albertina Diniz, filha de Francisca Senhorinha falecida em 1880. A mesma edição registra, contudo, que uma notícia publicada pelo jornal Mercantil em 1887 atribuiu a obra a outra filha da escritora, Amélia Diniz. Como a edição original não desenvolve as iniciais, o crédito bibliográfico permanece registrado como A. A. Diniz.

Enredo

Raquel é retirada da casa dos pais e conduzida por um grupo que a mantém em cativeiro. No Cairo, é comprada por Crenvosk, empresário de uma companhia de dança, que passa a tratá-la como filha. Durante uma apresentação no palácio, a jovem desperta o interesse do sultão Murah e é escolhida para integrar seu harém.

No palácio, Raquel enfrenta as intrigas de outras integrantes do harém e a hostilidade do emir Aziz-hein. Acusada injustamente e ameaçada de morte, consegue enviar um pedido de auxílio a Roberto du Pensier, o Príncipe Negro, cavaleiro pertencente ao exército cristão. Ele organiza sua fuga do acampamento turco e a leva para o campo cristão.

Raquel converte-se ao cristianismo e casa-se com Roberto. A segunda parte acompanha novos conflitos, a separação de integrantes da família e o destino de Judite, filha do casal. A narrativa termina com o reencontro dos personagens e a reunião familiar.

Estrutura, estilo e temas

O romance é constituído por um prólogo e duas partes. A primeira contém dezesseis capítulos e a segunda, doze. A narrativa combina aventuras, deslocamentos geográficos, perseguições, separações familiares, revelações de identidade e reencontros.

Anna Faedrich caracteriza a obra como uma narrativa de aventuras com procedimentos associados ao folhetim. O narrador em terceira pessoa intervém repetidamente no relato, dirige-se ao leitor e comenta o desenvolvimento das ações. Embora apresentada como romance de costumes, a história não se concentra nos costumes brasileiros, pois é ambientada em um Oriente medieval imaginado, sobretudo em Constantinopla.

Em dissertação dedicada ao romance, Antônia Rosa de Almeida analisa as sucessivas condições de cativeiro vividas pela protagonista — como escravizada, integrante de uma companhia de dança e prisioneira de um harém — em relação à representação da subordinação feminina. A pesquisadora relaciona essas situações às discussões oitocentistas sobre a posição social da mulher e a igualdade entre os sexos.

A apresentação da edição de 2020 também observa que o romance contrapõe o aprisionamento das mulheres no harém a uma representação idealizada do universo cristão. Essa oposição participa diretamente do enredo, que culmina na conversão religiosa de Raquel e em seu casamento com o Príncipe Negro.

Estudos posteriores

Em 2007, Antônia Rosa de Almeida defendeu na Universidade Vale do Rio Verde a dissertação A representação da mulher em A Judia Rachel: um romance do século XIX, dedicada ao exame da protagonista e das personagens femininas da obra.

O romance também integrou o conjunto de fontes analisadas por Fernanda Alina de Almeida Andrade em estudos sobre a atuação jornalística e literária de Francisca Senhorinha da Motta Diniz e suas propostas relacionadas à educação e à emancipação das mulheres.

Edição da Coleção Escritoras do Brasil

A edição de 2020 foi publicada pelo Senado Federal como o quinto volume da Coleção Escritoras do Brasil. A publicação contém apresentação de Anna Faedrich e notas explicativas de Maria Helena de Almeida Freitas, Mariana Sanmartin de Mello e Mônica Almeida Rizzo Soares.

A revisão e a atualização ortográfica ficaram a cargo da Secretaria de Editoração e Publicações do Senado Federal.

Categoria:Livros de 1886 Categoria:Livros do Brasil em domínio público