A Companhia de Tecidos Santanense é uma tecelagem localizada em Itaúna, Minas Gerais. Fundada no final do século XIX por Manoel José de Souza Moreira, a Santanense se consolidou como uma das maiores indústrias do estado. Sua importância para a economia itaunense impulsionou a emancipação de Sant'Ana do São João Acima (de onde deriva seu nome) e a criação do bairro de Santanense, nomeado após a fábrica. Em seu auge, possuía filiais espalhadas por todo o estado de Minas Gerais. Porém, nos últimos anos, a empresa vem enfrentando graves problemas financeiros, e, desde 2004, é de propriedade do grupo Coteminas. Apesar disso, em 2025, o grupo Ematex arrendou a marca para uso próprio.

História miniaturadaimagem|260x260px|Visão dos fundos da fábrica.

Século XIX Após a Abolição e o fim da Monarquia, o Brasil passou por uma grande crise financeira, o Encilhamento. Nesse contexto, a economia brasileira esfriou, e, consequentemente, a atividade têxtil, tradição do estado de Minas Gerais também, com empresas, como a Cedro e Cachoeira, baixando suas produções. Foi nesse vácuo que, mesmo com a crise, a Companhia de Tecidos Santanense foi fundada, em 1891.

A princípio, o negócio era quase familiar: o presidente e fundador da firma foi Manoel José de Souza Moreira; Manoel Gonçalves e Augusto Gonçalves, filhos de Manoel José, foram tesoureiro e secretário, respectivamente. Ainda, Antônio de Matos, genro de Manoel José e cunhado dos outros dois, era o gerente.

A assembleia de constituição da companhia deu-se em 23 de outubro daquele ano. Na reunião entre os acionistas, 2140 ações foram divididas. Manoel José adquiriu 600, Manoel Gonçalves 400, Antônio de Matos, 150, por exemplo. Um total de 30 acionistas participaram da assembleia, que representou um capital de 428 contos de réis para o estabelecimento da companhia.

Com o dinheiro disponível, três anos foram gastos para que a empresa saísse do papel. As construções só começaram em fevereiro de 1892. O maquinário foi comprado em Manchester e a turbina e o descaroçador vieram de Nova Iorque. Os produtos, depois de chegarem ao Brasil de navio, foram transportados interior adentro pela força de tropas e carros de bois. Além disso, o próprio Encilhamento fez com que a inflação aumentasse, encarecendo e atrasando as compras. O local escolhido para a construção da Santanense foi a fazenda de Manuel Cançado, sogro de Manoel José, conhecida como Fazenda da Cachoeira. O terreno, vendido por três contos de réis, ficava à margem do ribeirão dos Capotos, cuja água movia a fábrica, e do rio São João. Assim, a Companhia de Tecidos Santanense foi oficialmente inaugurada em 7 de setembro de 1895.

O terreno ocupado pela fábrica era de 73 metros de comprimento por 25 de largura. O prédio, todo feito de tijolos, tinha telhado serrilhado, para melhor iluminar o galpão. No centro dele, ficava a turbina, a qual era movimentada por duas correias de cem metros de comprimento ligadas à roda d'água do Capotos. Nesse primeiro momento, 32 teares funcionavam simultaneamente. Já no ano de 1896, a tecelagem apresentou lucro de 44 contos com 40 teares em operação, os quais produziram pouco mais de trezentos mil metros de tecido algodoado.

Século XX O historiador Miguel Augusto Gonçalves de Souza divide a história da Santanense no século XX em três "períodos administrativos":

Era Manoel José de Souza Moreira e Doutor Augusto Gonçalves, até 23 de março de 1901. Era José Gonçalves de Souza, de 23 de março de 1904 até 26 de março de 1990. Era Adelmo Pércope Gonçalves, a partir de 27 de abril de 1990.

Primeiro Período Administrativo Para Souza, esse "período administrativo" começa na fundação da empresa, em 1891, e termina com a saída de Augusto Gonçalves de Souza do quadro de dirigentes da companhia, em 1901. A saída de Augusto se deu, principalmente, por motivos políticos. Na assembleia de 1899, João de Cerqueira Lima já havia se desligado da empresa por ser impedido de concorrer à eleição para tesoureiro da firma, mesmo já assumindo o papel interinamente. Dois anos depois, quando veio a ser a eleição para presidente, Augusto anunciou sua saída em solidariedade à João, mesmo com a vontade dos outros acionistas de que Augusto continuasse no cargo. Essa dissidência acabaria levando à criação da Companhia Industrial Itaunense.

Segundo dados da época, em 1901 a Santanense produziu 585.315 metros de "tecidos crus, lisos e trançados em sua maior parte [e] riscados xadrezes, lisos e trançados".

Segundo Período Administrativo Com essa ruptura, criou-se uma rixa na cidade de Itaúna entre a Santanense e a Itaunense. Um dos primeiros confrontos foi, ainda antes de José Gonçalves de Souza assumir definitivamente, em 1904, a respeito da construção de uma usina hidrelétrica para mover as máquinas. Acontece que, nesse período, a Santanense ainda operava usando uma arcaica roda d'água movida à gravidade pelas águas do ribeirão dos Capotos. Então, surgiu a ideia da construção da usina em um terreno adjacente à empresa, na cachoeira do Caixão. Porém, o dono desse terreno era o João de Cerqueira Lima, o mesmo que havia saído de forma litigiosa da Santanense, e que, agora, desejava construir a usina, mas para benefício da Itaunense, o que acabou sendo concretizado.

José Gonçalves de Souza ocupou a presidência até sua renúncia, por motivos de saúde, em 25 de março de 1936, permanecendo como presidente honorário até 6 de junho de 1937, data de seu falecimento. Após José, assumiu Alcides Gonçalves de Souza, neto de Manoel José de Souza Moreira, fundador da Santanense e primo de José. Alcides ocupou o cargo até seu falecimento, em 13 de março de 1957. Nessa data, César Gonçalves de Souza, filho de Alcides, assumiu a presidência, por onde ficou até 15 de dezembro de 1977. A partir desse dia, e até 26 de março de 1990, o presidente da Santanense foi Clóvis Gonçalves de Souza, também filho de Alcides.Durante essa "era", a Companhia de Tecidos Pitanguiense, da cidade onde José Gonçalves de Souza fora radicado, foi incorporada o espólio da Santanense e subsidiárias foram abertas, marcando o período de maior crescimento da companhia.

Produção Industrial no período Em 1906, a "Santannense" já possuía um capital de 665 contos de réis, 66 teares em operação por 98 funcionários, produzindo 800.000 metros de tecido e consumindo 90 toneladas de algodão. Em 1912, mais de 1200 quilômetros de tecido foram produzidos pela Santanense. Nesse ano, 215 operários eram empregados e 150 teares eram utilizados na linha de produção.

O balanço comercial de 1949 apontou 732 funcionários empregados, 256 teares e um capital de pouco menos de 45 milhões de cruzeiros. Durante os anos 1950, a Santanense passou a integrar consórcios de distribuição, como a União Carioca de Tecidos e a participar de feiras nacionais de tecelagem. Também nessa década, mais especificamente em 1954, foi inaugurada a Barragem do Benfica, fruto de uma parceria entre a Santanense e a Itaunense, posteriormente também a própria Prefeitura de Itaúna, para sanar os probelmas tanto de eletricidade da cidade quanto de água. No ano de 1957, a empresa enfrentou uma grande greve de funcionários.

Em 1970, o BNDE mediou uma negociação em que o grupo inglês Rotchschild aplicou um montante de 32 milhões e 700 mil libras esterlinas na empresa na forma de maquinário e equipamentos têxteis. Três anos mais tarde, a companhia recebeu autorização do então presidente Médici para explorar a energia hidrelétrica gerada pela Usina dos Britos, numa barragem do Rio São João entre Itaúna e Igaratinga. O contrato valeria até 2003. Ainda em 1973, uma mudança radical na estrutura da Santanense ocorreu: a mudança da sede para Belo Horizonte. Após a compra da Companhia de Tecidos Pitanguiense, de Pitangui e da Fiação Dom Bosco, em São João del-Rey, a empresa decidiu mover os escritórios para a capital estadual como forma de tentar mudar a visão de empresa familiar que a Santanense ainda possuía. miniaturadaimagem|Logomarca usada em anúncio nos anos 1980. Sete anos depois, em 1980, nova compra, dessa vez da Companhia Industrial Paraense, de Pará de Minas, por ₢$304 milhões. Em entrevista para o Jornal do Brasil, Clóvis Gonçalves detalhou que o objetivo da empresa para esse ano era faturar 2 bilhões de cruzeiros, manter os 2500 empregos gerados e exportar para Polônia, Bolívia e Paraguai. No entanto, a produção destinada ao mercado internacional não ultrapassaria 10% do total. Em 1981, a expectativa era de faturar 5 bilhões, sendo 1 bilhão só de lucro. O lucro de caiu para 894 milhões em 1982 e baixou para 593 milhões em 1983. Mas, em 1984, o lucro aumentou - e muito: 9,7 bilhões de cruzeiros, devido ao crescimento da procura interna e do corte de gastos. Já em 1987, o lucro da Santanense foi de 405 milhões de cruzados, mesmo com a hiperinflação em alta, e, em 1989, foi de 90 milhões de cruzados novos.

No começo de 1990, a Santanense pôs em prática um plano para comemoração do aniversário de 100 anos: a inauguração do prédio da sede da empresa em 1991. Nesse ano, a Santanense produzia 86 milhões de metros de tecido e, com um faturamento de 126 milhões de dólares, era a décima quarta maior indústria do país. Porém, com a turbulência causada pelo Plano Collor, a construção (com custo previsto de cinco milhões de dólares) teve de ser interrompida e atrasou por mais de um ano.

Terceiro Período Administrativo Em 27 de abril de 1990, Adelmo Pércope Gonçalves foi eleito presidente da Santanense. Sua presidência foi conturbada, já que se iniciou justo do ápice da hiperinflação e na abertura comercial para produtos importados, o que prejudicou os negócios da Santanense. A fim de não deixar a empresa no vermelho, subsidiárias não lucrativas desapareceram e fábricas fecharam. No entanto, o maquinário das unidades que permaneceram, como Itaúna, Montes Claros e Pará de Minas, foi modernizado. Em 1992, a Santanense fechou o ano com prejuízo de 92 milhões de cruzeiros reais, mas, em 1993, voltou a lucrar, atingindo 793 milhões líquidos. Segundo dados, a Santanense virou o milênio com um patrimônio de quase 81 milhões de reais e um faturamento de quase 133 milhões de reais.

Além disso, em maio de 1997, a Santanense inaugurou a Estação de Tratamento de Esgoto própria, evitando despejar 220 mil litros de água contaminada por hora no leito do rio São João.

Século XXI Em 28 de julho de 2004, a Companhia de Tecidos Santanense passou para o controle da Coteminas. No momento dessa aquisição, a Coteminas passou a consumir mais de um quinto de todo o algodão brasileiro. No entanto, com o passar dos anos, principalmente após a Pandemia, uma crise financeira tomou conta da Coteminas, e, consequentemente, da Santanense. Mesmo com uma parceria firmada com a Shein, em 2023, a situação da Coteminas não melhorou, e, no ano seguinte, o pedido de recuperação judicial foi protocolado. O processo só foi autorizado dois anos depois, com dívidas de quase dois bilhões de reais a serem negociadas.

Em meio a essa situação, na Santanense predomina a incerteza. Como a Codeminas controla a Santanense sem a incorporar totalmente, as direções de ambas as empresas são separadas, mas as finanças de uma comprometem a outra. Em 2018, a Coteminas teria pegado deliberadamente dinheiro no caixa da Santanense para pagar dívidas. Em meio a essa indecisão, a produção na fábrica de Santanense é intermitente e os salários e benefícios atrasam com frequência. Em maio de 2026, o registro de empresa aberta da Santanense foi suspenso e corre o risco de ser cancelado em meio à alienação do patrimônio da companhia como forma de abater dívidas da Coteminas. Além disso, a marca "Santanense" está sobre controle do grupo Ematex, o qual a utiliza para a sua linha de tecidos para trabalho pesado.

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