A Noite de São João é um texto teatral de José de Alencar que existe em duas versões distintas: uma primeira, de 1857, publicada como "ópera cômica em um ato"; e uma segunda, de 1860, revista e ampliada para dois atos, que se tornaria a primeira ópera brasileira com libreto em língua portuguesa e temática nacional, ao ser musicada pelo compositor paulista Elias Álvares Lobo.BRESCIA, Rosana Marreco Orsini. Uma ópera brasileira: "A Noite de São João" de Elias Álvares Lobo. Revista de Música Vocal Erudita Brasileira, Belo Horizonte, [s.d.]. Disponível em: https://periodicos.ufmg.br/index.php/rmveb/article/view/48536. Acesso em: 25 jul. 2026.
Enredo A ação se passa numa noite de festejos de São João. Inês e Carlos, primos, nutrem um amor mútuo e secreto, mas o pai de Inês, um tabelião, planeja enviá-la a um convento. Desolado com a perspectiva de perdê-la, Carlos decide alistar-se como soldado, disposto a morrer a serviço da pátria. Em meio à festa, surge Joana, uma velha cigana pobre; Inês a acolhe e, em troca, a cigana lhe ensina uma simpatia de amor: à meia-noite, a moça deveria ir sozinha ao jardim e, ajoelhada, colher um raminho de alecrim para plantá-lo ao relento, na esperança de que o feitiço mudasse o destino dos dois enamorados. A trama conta ainda com um frade e um coro de convidados para a festa junina, elementos que emolduram o enredo sentimental dos dois primos.GRAVAÇÃO DA ÓPERA A NOITE DE SÃO JOÃO. ENG Estúdio, [s.d.]. Disponível em: https://engestudio.com.br/opera-a-noite-de-sao-joao/. Acesso em: 25 jul. 2026.
Personagens Inês: jovem apaixonada por Carlos. Carlos: primo e amado de Inês. Joana: velha cigana. O pai de Inês, um tabelião. Um frade. Coro de convidados da festa de São João.
Versões A primeira versão foi escrita e publicada em 1857, mesmo ano de estreia de Verso e Reverso e O Demônio Familiar, sob o título Noite de S. João: Opera Cômica em um Acto, pela Empreza Nacional do Diário, no Rio de Janeiro. Não há registro seguro de que essa versão original tenha sido efetivamente levada à cena como espetáculo musicado naquele momento; o próprio Alencar a descreveu como "uma pequena oferenda no templo das artes", texto que se somava à sua produção teatral daquele ano intensamente prolífico.ORQUESTRA SINFÔNICA DO CONSERVATÓRIO DE TATUÍ, CORO MADRIGALE E SOLISTAS ENCENAM A NOITE DE SÃO JOÃO, A PRIMEIRA ÓPERA NACIONAL, EM APRESENTAÇÃO NO CENTRAL. Pró-Reitoria de Cultura, UFJF, 28 jul. 2023. Disponível em: https://www2.ufjf.br/procult/2023/07/28/orquestra-sinfonica-do-conservatorio-de-tatui-coro-madrigale-e-solistas-encenam-a-noite-de-sao-joao-a-primeira-opera-nacional-em-apresentacao-no-central/. Acesso em: 25 jul. 2026.
A segunda versão, intitulada A Noite de S. João: Comédia Lírica em 2 Atos, foi encomendada pela direção do Ginásio Dramático como um libreto ampliado e tecnicamente revisado. A edição de 1857 havia sido duramente criticada pelo jornalista Paula Brito, no jornal A Marmota, por seus erros gramaticais, e coube ao próprio Paula Brito, tipógrafo e editor, preparar a nova edição.ALENCAR, José de; LOBO, Elias Álvares. A Noite de S. João: Comedia Lyrica em 2 Actos. Rio de Janeiro: Typographia de F. de Paula Brito, 1860. Disponível em: https://www2.senado.leg.br/bdsf/item/id/242826. Acesso em: 25 jul. 2026. Musicada por Elias Álvares Lobo, essa versão estreou em 14 de dezembro de 1860, no Imperial Teatro São Pedro de Alcântara, no Rio de Janeiro, sob regência do então jovem maestro Carlos Gomes e com a presença do imperador Dom Pedro II na plateia. A montagem foi produzida pela recém-criada Imperial Academia de Música e Ópera Nacional, iniciativa voltada a estimular a criação de um repertório operístico brasileiro cantado em português. Alencar, contudo, não esteve presente à estreia: candidato a Deputado Geral por sua província natal, encontrava-se então nas cercanias de Fortaleza em campanha eleitoral, e os aplausos da noite recaíram quase inteiramente sobre o compositor e o regente.
Análise Um estudo de Rosana Marreco Orsin Brescia situa a obra como o marco fundador de um repertório operístico nacional, cantado em português e sobre temática brasileira, em contraste com a tradição anterior de óperas em italiano encenadas no país desde o século XVIII. Segundo essa análise, a criação da Imperial Academia de Música e Ópera Nacional, sob patrocínio do imperador, buscava justamente romper com essa dependência do repertório estrangeiro, e A Noite de São João foi a primeira realização concreta desse projeto.
Contudo, há um apagamento histórico da contribuição de Alencar à obra: a recepção da estreia de 1860 recaiu quase inteiramente sobre a música de Elias Álvares Lobo e a regência do jovem Carlos Gomes, então em início de carreira. A ausência física do escritor na noite da estreia, então às voltas com sua campanha eleitoral no Ceará, também contribuiu para que a peça fosse lembrada, na posteridade, muito mais como um marco da música brasileira do que como parte do conjunto teatral de Alencar.
A partitura original da ópera se perdeu quase por completo, restando apenas uma redução para canto e piano. A orquestração integral só foi reconstituída no século XXI, a partir de pesquisa sobre o estilo do compositor e de suas referências em Rossini, Bellini e Donizetti, permitindo a reestreia da obra, já no formato orquestral, em dezembro de 2022, mais de 160 anos após sua criação.
Referências
Categoria:Obras de José de Alencar