A Expiação é uma comédia em quatro atos de José de Alencar, escrita em 1868 e publicada no ano seguinte, como continuação direta de As Asas de um Anjo de 1858, retomando a personagem de Carolina uma década depois dos eventos daquela peça.JORNAL DO COMMERCIO. Anúncio: As Azas de um Anjo / A Expiação. Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 31 jul. 1869. Anúncio comercial e de espetáculo.
A peça nasce diretamente da polêmica em torno da censura sofrida por As Asas de um Anjo em 1858: no prefácio daquela comédia, Alencar já explicava que seu propósito havia sido "esboçar a vida da Madalena moderna, a Madalena do ouro, filha da sociedade atual", uma mulher vítima da cobiça material, mas capaz de redenção. Dez anos depois, insatisfeito com a incompreensão que a peça original havia recebido, o autor voltaria ao mesmo argumento e à mesma personagem em A Expiação, numa tentativa de desenvolver de forma mais completa as ideias que já defendera.SOARES, Ana Carolina Eiras Coelho. Entre Anjos e Demônios Surgem as Mulheres de Alencar. Revista Mosaico — Revista de História, Goiânia, v. 3, n. 1, p. 61-66, 2010. DOI: 10.18224/mos.v3i1.1829. Disponível em: https://seer.pucgoias.edu.br/index.php/mosaico/article/view/1829. Acesso em: 25 jul. 2026.
Fontes secundárias modernas costumam afirmar que a peça nunca chegou a ser encenada, apoiando-se num comentário de um crítico contemporâneo de Alencar que dizia conhecer apenas a existência do manuscrito, "na pasta, sempre cheia, do autor".[S.a.]. O Teatro de José de Alencar. [S.l.]: Wikisource, [18--]. Disponível em: https://pt.wikisource.org/wiki/O_Teatro_de_Jos%C3%A9_de_Alencar. Acesso em: 25 jul. 2026. Um anúncio publicado no Jornal do Commercio em 31 de julho de 1869, contudo, indica que tanto A Expiação quanto As Asas de um Anjo "estão em representação no theatro Phenix Dramatica" naquela data.
Enredo A ação retoma Carolina alguns anos depois de seu casamento com o primo Luís, ocorrido ao final de As Asas de um Anjo. O casal tem agora uma filha, Lina, de dezesseis anos, que desconhece o passado da mãe. Embora reintegrada à vida familiar e social, Carolina permanece atormentada por um sentimento de culpa: confessa ao amigo Meneses, durante um baile na casa do rico Fernando, que sente não ter sofrido o suficiente pela reprovação social merecida por seus erros passados, e que aceita as dificuldades da vida como penas de sua "longa expiação".
Já na casa de Luís, revela-se a principal fonte de angústia de Carolina: o temor de que alguma revelação cruel sobre seu passado possa chegar aos ouvidos de Lina e perturbar a inocência da filha, sobretudo à medida que Luís estreita relações de negócios com Fernando, o anfitrião do baile de antes. Carolina relata suportar essas provações com resignação, encontrando nelas um sinal de estar "mais remida da culpa". Após, num jardim na casa de Fernando, retoma-se o desfecho do conflito social e familiar em torno da ameaça de exposição do passado de Carolina.
Personagens Carolina: protagonista, agora casada com Luís Luís: marido de Carolina Lina: filha de Carolina e Luís, 16 anos Fernando: anfitrião do baile, relacionado aos negócios de Luís Meneses: amigo de Carolina, confidente Vieira: convidado do baile Pinheiro: convidado do baile Sofia: amiga de Lina
Análise A peça é reconhecida pela crítica posterior como parte de um projeto obsessivo de Alencar em torno do tema da "prostituta regenerada" ou da "mulher decaída", que perpassa toda sua produção entre o final da década de 1850 e o final da década de 1860.
Um artigo de Ana Carolina Eiras Coelho Soares argumenta que a censura sofrida por As Asas de um Anjo em 1858 foi sentida por Alencar de forma particularmente intensa, e que essa experiência o levaria a retomar o mesmo tema em pelo menos duas obras posteriores: o romance Lucíola (1862) e, já mais tardiamente, A Expiação (1868), que é descrita como "literalmente uma continuação" da peça anterior, uma tentativa do autor de desenvolver de modo mais completo os argumentos que já havia defendido, sem o sucesso de público de outras adaptações do mesmo assunto. Segundo essa leitura, a escolha de retomar o tema justamente em 1868 (ano em que Alencar assumia o cargo de Ministro da Justiça do Império) revela a persistência de uma obsessão pessoal do autor com a repercussão daquela censura, mais de dez anos depois do episódio original.
Do ponto de vista dramatúrgico, a peça é tradicionalmente classificada, ao lado de As Asas de um Anjo, entre as "comédias crispadas" do teatro de Alencar, em contraste com as "comédias amenas" como O Demônio Familiar e Verso e Reverso.MARTINS, Eduardo Vieira. Dez estudos (e uma pequena bibliografia) para conhecer José de Alencar. São Paulo: FFLCH-USP, [20--]. Disponível em: https://fflch.usp.br/sites/fflch.usp.br/files/2017-11/Jose%CC%81%20de%20Alencar.pdf. Acesso em: 25 jul. 2026.
Categoria:Obras de José de Alencar Categoria:Peças de teatro do Brasil Categoria:Peças de teatro de 1869