Jarir ibne Atia (; Iamama, c. — Iamama, c. ) foi um poeta árabe do omíada, considerado, ao lado de Alfarasdaque e Alactal, um dos três maiores representantes da poesia árabe do e do início do VIII. Membro do ramo culaibita dos tamimitas, destacou-se sobretudo pela poesia satírica, pelas elegias e pelos panegíricos dedicados aos califas omíadas, tornando-se célebre pelas naqāʾiḍ, prolongadas disputas poéticas travadas com Alfarasdaque e, em menor escala, com Alactal.
Criado entre beduínos em condições modestas, iniciou a carreira literária ainda jovem e conquistou projeção ao fixar-se em Baçorá, onde obteve o patrocínio de Alhajaje ibne Iúçufe e, posteriormente, da corte de Abedal Maleque ibne Maruane. Durante décadas figurou entre os principais poetas do califado omíada, compondo panegíricos para diversos soberanos da dinastia e consolidando sua reputação como um dos mais habilidosos satiristas da literatura árabe clássica.
Sua poesia caracteriza-se pela linguagem clara, pela fluência do estilo e pelo acentuado lirismo, distinguindo-se especialmente nos gêneros do , do gazal, da elegia e da sátira. Profundamente influenciado pelo Alcorão e pelos valores do islão, Jarir é tradicionalmente apresentado como um dos principais poetas islâmicos do período omíada. Seu divã, além do valor literário, constitui importante fonte para o conhecimento da história política, social e cultural de sua época.
Vida
Jarir nasceu por volta de 650, na região de Iamama, no Négede, sendo tradicionalmente apontada como sua localidade natal. Segundo a tradição, sua mãe escolheu o nome "Jarir" ("corda"), após sonhar durante a gravidez com uma corda estendida diante dela. Pertencia ao ramo culaibita dos tamimitas, razão pela qual também era conhecido pelos gentílicos Atamimi e Aliarbui. Ao contrário de seu futuro rival Alfarasdaque, nasceu em uma família pobre e passou a infância e a juventude entre os beduínos, trabalhando como pastor. Apesar das dificuldades materiais, sempre exaltou sua linhagem em seus poemas. Durante as frequentes viagens a Baçorá, onde parte de sua tribo havia se estabelecido, aproximou-se de Alfarasdaque, também tamimita, cuja fama e prosperidade obtidas por meio da poesia despertaram sua admiração. A rivalidade entre ambos teve origem em antigas disputas entre suas famílias. Inicialmente manifestou-se na forma de respostas poéticas a sátiras dirigidas por outros autores, mas evoluiu quando Jarir passou a atacar diretamente Alfarasdaque em versos. A partir de então iniciou-se uma disputa literária que se prolongaria por cerca de quarenta anos e se converteria no mais célebre ciclo de naqāʾiḍ da literatura árabe. Ao longo desse período, diversos poetas tomaram partido de um ou de outro contendente, embora apenas Alactal tenha sido considerado rival à altura de Jarir e Alfarasdaque.
Durante a guerra entre os Omíadas e Abedalá ibne Azobair, Jarir apoiou este último, tornando-se alvo de ataques recíprocos por parte de poetas ligados ao partido adversário. Percebendo, porém, que dificilmente alcançaria projeção permanecendo entre os beduínos, estabeleceu-se definitivamente em Baçorá, então um dos principais centros políticos, intelectuais e literários do califado. Por intermédio de Alhajaje ibne Iúçufe, conquistou o favor do califa Abedal Maleque ibne Maruane, para quem compôs numerosos panegíricos, além de celebrar as campanhas militares conduzidas pelos omíadas. Também escreveu poemas em honra dos califas , Solimão ibne Abedal Maleque, e Hixame ibne Abedal Maleque, bem como do piedoso , cuja estima conseguiu conquistar. Embora fosse sobretudo conhecido pelos panegíricos e pelas sátiras, Jarir também compôs elegias para diversos patronos e contemporâneos, incluindo o próprio Alfarasdaque, cuja morte lamentou em versos considerados entre os mais sinceros de sua produção. Segundo as fontes, faleceu em 732, em Iamama, quarenta dias, oitenta dias ou cerca de seis meses após a morte do antigo rival, sendo sua sepultura situada na própria região onde nasceu.
Obra
A produção de Jarir preserva de forma notável a tradição poética beduína no período omíada, ao mesmo tempo que revela a influência da cultura islâmica sobre a poesia árabe. Grande parte de seus poemas adota a estrutura convencional da cássida, iniciando-se com um de caráter amoroso, seguido de passagens satíricas ou encomiásticas. Além das cássidas, cultivou elegias, poesia sapiencial, epigramas e gazais, gênero em que produziu algumas de suas composições mais conhecidas. Sua poesia combina lirismo, clareza de linguagem e musicalidade, características que favoreceram sua ampla difusão e facilitaram sua memorização. A sátira ocupa posição central em sua obra e lhe proporcionou grande notoriedade. Diferentemente de Alfarasdaque, que frequentemente exaltava a própria linhagem para diminuir os adversários, Jarir concentrava seus ataques nos defeitos reais ou atribuídos de seus oponentes, recorrendo à ironia, ao sarcasmo e, quando necessário, à invenção de acusações para ridicularizá-los. Sua rivalidade com Alfarasdaque deu origem ao mais célebre ciclo de naqāʾiḍ da literatura árabe, reunindo poemas de resposta compostos na mesma métrica e rima do adversário. Também travou disputas semelhantes com Alactal, embora em menor escala.
Em contraste com a violência de suas sátiras, seus gazais e elegias distinguem-se pela delicadeza e pela sinceridade dos sentimentos. A Cássida da Nune (Qaṣīdat al-Nūniyya), dedicada à esposa Hálida, é tradicionalmente considerada seu poema amoroso mais comovente, enquanto a elegia composta por ocasião da morte dela figura entre as mais expressivas da poesia árabe do período. Seus panegíricos, dirigidos principalmente aos califas omíadas e aos seus governadores, caracterizam-se pela sobriedade e pela ausência de exageros considerados incompatíveis com os princípios do islão, refletindo a profunda influência que o Alcorão exerceu sobre sua formação literária. O Divã de Jarir constitui também importante documento histórico para o estudo do início do califado omíada. Além de registrar as disputas entre tribos árabes, seus poemas mencionam personagens de destaque, campanhas militares, conflitos políticos, práticas sociais e aspectos morais da época. Embora predominantemente ancorada na tradição árabe, sua obra preserva ainda referências ocasionais à língua e à cultura persas. O Divã recebeu diversas edições modernas, entre elas as preparadas por Muḥammad ʿAbd al-Munʿim al-Shawāribī, Muḥammad al-Ṣāwī, Karam al-Bustānī e Nuʿmān M. Amīn Ṭāhā. As Naqāʾiḍ compostas com Alfarasdaque e Alactal também foram publicadas separadamente em edições críticas, destacando-se as organizadas por Anthony Ashley Bevan e Antūn Ṣāliḥānī al-Yasūʿī.
Legado
Jarir é tradicionalmente considerado um dos três maiores poetas do período omíada, ao lado de Alfarasdaque e Alactal, formando o mais célebre trio da poesia árabe dos séculos VII e VIII. A crítica clássica atribui a cada um deles uma especialidade distinta: Jarir sobressaiu na sátira e na elegia, Alfarasdaque destacou-se sobretudo pela poesia de exaltação tribal e pelo gazal, enquanto Alactal foi especialmente admirado pelas elegias e pelas descrições do vinho. Outra distinção frequentemente estabelecida entre Jarir e Alfarasdaque diz respeito ao método empregado na sátira: enquanto este costumava engrandecer a si próprio e depreciar os adversários, Jarir concentrava seus ataques na enumeração dos defeitos do rival, chegando, segundo a tradição literária, a inventar ou atribuir faltas quando não encontrava motivos suficientes para censurá-lo. A tradição crítica também ressalta a profundidade de sua formação cultural e religiosa. Nascido e criado já durante o período islâmico, Jarir é apresentado como um dos principais poetas islâmicos da literatura árabe clássica, tendo absorvido forte influência do Alcorão e empregado sua poesia para exaltar valores compatíveis com o islão. Além disso, era reputado pelos eruditos como o mais conhecedor da ciência das genealogias entre os três grandes poetas omíadas, qualidade que contribuía para a eficácia de suas sátiras tribais. Almaarri comparou Alactal a Anabiga Adubiani, Alfarasdaque a Zuair ibne Abi Sulma e Jarir a Alaxa, estabelecendo um paralelo entre os principais representantes da poesia omíada e alguns dos mais célebres poetas da era pré-islâmica. Além de seu valor literário, o Divã de Jarir é considerado uma fonte de grande importância para o estudo da história do califado omíada. Seus poemas registram conflitos tribais, campanhas militares, acontecimentos políticos, personagens de destaque e diversos aspectos da vida social e moral da época, constituindo um testemunho histórico de primeira ordem sobre o . A preservação de sua obra em numerosas edições modernas, bem como das coletâneas de naqāʾiḍ compostas com Alfarasdaque e Alactal, contribuiu para consolidar sua posição como um dos autores mais estudados e influentes da poesia árabe clássica.
Bibliografia
Categoria:Tamimitas Categoria:Árabes do século VII Categoria:Árabes do século VIII Categoria:Poetas do Califado Omíada