O Que é o Casamento? é uma comédia em quatro atos de José de Alencar, escrita em 1861 e encenada pela primeira vez em 10 de outubro de 1862, no Ateneu Dramático de São Januário, no Rio de Janeiro. É a penúltima peça teatral do autor, anterior apenas a A Expiação.FERNANDES, Luciana de Santana. Doutrinação e moralidade nos teatros de Anchieta e de Alencar: a questão do casamento. 2010. 88 f. Dissertação (Mestrado em Letras) — Universidade Federal da Paraíba, João Pessoa, 2010. Disponível em: https://repositorio.ufpb.br/jspui/bitstream/tede/6303/1/arquivototal.pdf. Acesso em: 25 jul. 2026.DIÁRIO DO RIO DE JANEIRO. Athenêo Dramático (S. Januário): O que é o casamento?. Diário do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 10 out. 1862. Anúncio de espetáculo. A sessão marcou a estreia do ator Joaquim Augusto Ribeiro de Sousa no papel principal e foi, segundo o anúncio de estreia publicado no Diário do Rio de Janeiro, "honrada com as augustas presenças de Suas Magestades Imperiaes": o imperador Dom Pedro II e a imperatriz Teresa Cristina.
Como o próprio título indica, a peça tem o casamento como tema central, apresentado por meio de diferentes personagens e perspectivas sobre a vida conjugal, e é considerada pela crítica o texto em que Alencar mais explicitamente formula sua concepção de matrimônio, a de uma união indissolúvel, ancorada nos moldes sacramentais do catolicismo então oficial no Brasil.
Enredo A ação se passa no Rio de Janeiro e em Petrópolis, na casa de Augusto Miranda, um homem de 36 anos casado com Isabel, de 23. Mais do que uma intriga única, a peça se organiza como uma sucessão de diálogos e situações que confrontam diferentes visões sobre o casamento, apresentadas pelos amigos e parentes reunidos em torno do casal: o negociante Alves, temeroso de perder sua liberdade e "ficar hipotecado" caso se case; Sales, que retorna de uma temporada em Petrópolis; Siqueira, sogro de Miranda; e Clarinha, prima de Isabel, de apenas 17 anos, cuja presença introduz a perspectiva de quem ainda está por casar.
Miranda expõe, ao longo da peça, sua própria filosofia do casamento, recusando tanto a visão romântica exaltada ("a poética transfusão de duas almas em uma só carne") quanto a visão pessimista de matrimônio como "guerra doméstica"; para ele, a instituição repousa sobre a "paz, firmada sobre a estima e o respeito mútuo". Em contraponto a esse discurso teórico, no entanto, a personagem Isabel manifesta, em determinados momentos, um sofrimento silencioso ("Como sofro, meu Deus! Sinto-me realmente doente"), sugerindo uma tensão entre o ideal exposto pelo marido e a experiência vivida dentro do próprio casamento retratado na peça.O que é o casamento?: 1ª edição — tomo segundo. Florianópolis: Digital Library of Literature from Lusophone Countries, UFSC, [19--]. Disponível em: https://literaturabrasileira.ufsc.br/documentos/?action=download&id=6307. Acesso em: 25 jul. 2026.
Personagens Augusto de Miranda: 36 anos, protagonista Isabel: 23 anos, mulher de Miranda Henrique de Miranda: 21 anos, sobrinho de Miranda Clarinha: 17 anos, prima de Isabel Sales: 25 anos Siqueira: 50 anos, sogro de Miranda Alves: 33 anos, negociante Joaquim: 45 anos, escravo Rita: 38 anos, escrava parda Iaiá: 3 anos
Análise A crítica sobre O Que é o Casamento? costuma tomá-la como o texto-chave para compreender a visão de Alencar sobre o matrimônio, tema recorrente em boa parte de sua obra teatral e romanesca. Luciana de Santana Fernandes argumenta que a peça expressa uma concepção conservadora e moralista da instituição matrimonial, alinhada às normas do catolicismo, ainda que construída a partir da adaptação, ao contexto brasileiro, do modelo do teatro realista francês de Alexandre Dumas Filho e Honoré de Balzac. Segundo essa leitura, há um "descompasso histórico-literário" entre Alencar e seus modelos franceses: enquanto os dramaturgos europeus problematizavam o casamento burguês de forma mais crua e cética, Alencar tende a reafirmar, ao final, a validade da instituição.
Um artigo de Ana Raquel Herane analisa, por sua vez, a recepção da peça pelo crítico Machado de Assis, que a comentou em texto publicado no Diário do Rio de Janeiro em março de 1866. Para Machado, Alencar respondia à pergunta contida no próprio título mostrando, precisamente, que não seria possível extrair "conclusões gerais" sobre o casamento. Cada união seria distinta, resistente a fórmulas fechadas, o que explicaria a estrutura da peça como um mosaico de situações e perspectivas conjugais diversas, em vez de uma única intriga moralizante. Segundo Herane, essa mesma leitura seria retomada por Machado de Assis treze anos depois, em 1879, em seu conto "Curiosidade", que reelabora o problema em chave mais relativista, questionando se a ficção seria capaz de oferecer respostas seguras para a "vida real".HERANE, Ana Raquel. "Conclusões gerais": a leitura da peça O que é o casamento?, de José de Alencar, no conto "Curiosidade" e na crítica de Machado de Assis. Teresa: Revista de Literatura Brasileira, São Paulo, n. 22, 2018. Disponível em: https://revistas.usp.br/teresa/article/view/127292. Acesso em: 25 jul. 2026.
É comum aproximar a filosofia do casamento expressa pela personagem Miranda, recusando tanto o ideal romântico quanto o pessimismo em relação à instituição, à própria posição pública do autor sobre o tema, expressa também em textos não ficcionais. Nesse sentido, a peça é lida como um contraponto ao tratamento mais cético e mercantil que o casamento receberia, catorze anos mais tarde, no romance Senhora, no qual o casamento é apresentado de forma mais crua como uma espécie de transação comercial entre os cônjuges.
Referências
Categoria:Obras de José de Alencar