Os zuraítas ou Banu Zura () foram um dos principais clãs da tribo dos coraixitas, descendentes de Zura ibne Quilabe. Estabelecidos na região central de Meca desde a reorganização da cidade promovida por Cuçai ibne Quilabe, destacaram-se pelo estreito parentesco com os haxemitas, sendo o clã materno do profeta Maomé. Durante o surgimento do islã, grande parte de seus membros aderiu precocemente à nova religião, embora alguns tenham permanecido entre seus opositores. Posteriormente participaram das conquistas islâmicas, exerceram cargos administrativos e judiciais durante os califados Ortodoxo, Omíada e Abássida e deram origem a diversas personalidades de destaque na história islâmica.

História

Os zuraítas descendiam de Zura ibne Quilabe ibne Murra, membro do ramo principal dos coraixitas cuja linhagem remontava, segundo a tradição genealógica árabe, a Adenane. O clã recebeu o nome de seu ancestral epônimo, Zura, irmão de Cuçai ibne Quilabe, e perpetuou-se principalmente por meio de seus filhos Alharite e Abede Manafe. O neto de Zura, Uabe ibne Abede Manafe, foi reconhecido como chefe do clã em sua época e tornou-se avô materno de Maomé. Em razão desse parentesco, autores antigos, como Ibne Cutaiba, referiam-se aos zuraítas como os "tios maternos" do profeta. A mãe de Maomé, Amina binte Uabe, pertencia ao clã, assim como Hala binte Uaibe, mãe de Hâmeza e de Safia binte Abede Almotalibe, que era prima de Amina. Quando Cuçai reorganizou o assentamento dos coraixitas em Meca durante a primeira metade do , os zuraítas foram instalados nas proximidades da Caaba, integrando o grupo conhecido como Coraixe Albitá (), formado pelos clãs estabelecidos na região central da cidade. O clã figurava entre os grupos economicamente mais prósperos de Meca, mantendo estreitas relações comerciais com os abedexemecitas.

Segundo um relato preservado por Maomé ibne Habibe, o primeiro grande conflito interno entre os coraixitas ocorreu quando uma disputa motivada por ciúmes entre Omaia ibne Abede Xemece e Uabe ibne Abede Manafe levou os abedexemecitas a apoiarem os omíadas (descendência de Omaia) e expulsarem temporariamente os zuraítas de Meca. O clã, entretanto, retornou após a intervenção de , ligado aos zuraítas por parentesco materno. Sob o comando de Macrama ibne Naufal, os zuraítas participaram das Guerras Sacrílegas. Também integraram aos mutaiabitas e aos alfudulitas, alianças formadas entre diversos clãs coraixitas para defesa de interesses comuns e preservação da ordem em Meca. Assim como os haxemitas e os almotalibitas, os zuraítas figuraram entre os ramos dos coraixitas que mais prontamente aderiram ao islã durante o período mecano. Entre seus primeiros convertidos encontravam-se Abederramão ibne Aufe, e Sade ibne Abi Uacas, enquanto , e participaram da migração para a Abissínia. Em contraste, , primo materno de Maomé e avô do tradicionalista Ibne Xiabe Azuri, destacou-se como um dos mais conhecidos opositores do islã durante os primeiros anos da pregação e combateu os muçulmanos nas batalhas de Badre e Uude.

Os zuraítas também estiveram envolvidos nos acontecimentos que antecederam a Batalha de Badre. Macrama ibne Naufal representava o clã na grande caravana coraixita cuja proteção motivou a mobilização militar de Meca. Cerca de cem zuraítas integraram inicialmente o exército enviado contra os muçulmanos. Entretanto, antes do confronto, o aliado do clã informou-lhes que a caravana comandada por Abu Sufiane ibne Harbe já se encontrava em segurança e lembrou-lhes dos laços de parentesco que os uniam a Maomé. Diante disso, os zuraítas decidiram regressar a Meca e não participaram da batalha. A retirada provocou desentendimentos com Abu Sufiane, que reteve temporariamente os camelos pertencentes ao clã utilizados no comércio da caravana. Os animais somente foram restituídos após a intervenção de Macrama ibne Naufal e de Alaquenas ibne Xarique. Na Batalha de Uude, contudo, alguns zuraítas combateram ao lado dos coraixitas, destacando-se , apontado pelas fontes tradicionais como o homem que feriu o rosto de Maomé durante o combate. Após a Batalha de Hunaine, Maomé procurou consolidar a integração dos zuraítas à nova ordem política, concedendo a três de seus principais chefes generosos presentes provenientes do espólio da campanha como medida de conciliação.

Os zuraítas participaram ativamente das conquistas islâmicas após a morte de Maomé. Integraram, entre outras campanhas, a conquista do Iraque sob o comando de Sade ibne Abi Uacas, e diversos membros do clã combateram também nas campanhas da Ifríquia, nas quais alguns morreram. Durante a Primeira Fitna, o clã dividiu-se politicamente: parte de seus integrantes combateu Ali ibne Abi Talibe na Batalha do Camelo, enquanto outros permaneceram ao seu lado na Batalha de Sifim. No período omíada, embora alguns de seus membros tenham ocupado posições de destaque no governo, os zuraítas tenderam a apoiar movimentos contrários à dinastia. A principal exceção foi , comandante das tropas responsáveis pela morte de Huceine ibne Ali na Batalha de Carbala, que posteriormente foi morto juntamente com familiares durante a revolta liderada por Almoquetar Atacafi. Em contrapartida, o clã apoiou Abedalá ibne Azobair em sua revolta contra os omíadas, participando da defesa de Meca durante o cerco conduzido por . Durante o período abássida, diversos zuraítas exerceram funções administrativas e judiciais em cidades como Meca, Medina, Baguedade e Fostate, atuando como cádis, funcionários do tesouro público e integrantes da xurta. Segundo Ibne Hasme, um ramo descendente de Abederramão ibne Aufe estabeleceu-se no Alandalus. Entre as personalidades mais célebres do clã destaca-se ainda o tradicionalista e jurista Ibne Xiabe Azuri.

Bibliografia

Categoria:Zuraítas