Uaraca ibne Naufal, nascido Abu Abedalá Uaraca ibne Naufal ibne Açade ibne Abede Aluzá Alaçadi Alcoraixi (; Meca, primeira metade do — c. 610 ou 614) foi um monoteísta árabe do período pré-islâmico, tradicionalmente identificado como um dos hanifes de Meca. Primo de Cadija binte Cuailide, destacou-se pelo conhecimento das Escrituras judaico-cristãs e é lembrado na tradição islâmica por ter reconhecido a experiência de Maomé após a primeira revelação como o início de sua missão profética. Segundo as fontes islâmicas, rejeitou o politeísmo da Arábia pré-islâmica e dedicou-se ao estudo das Escrituras. É descrito por diferentes tradições como conhecedor da Torá e do Evangelho, copista ou tradutor de textos religiosos e um dos poucos monoteístas presentes em Meca antes do surgimento do islã. Sua filiação religiosa, entretanto, permanece objeto de debate, sendo apresentado por diferentes autores como cristão, hanife ou seguidor da religião de Abraão. Os estudiosos também divergem quanto à sua condição de companheiro de Maomé e de um dos primeiros muçulmanos. Embora alguns autores sustentem que tenha aceitado a missão profética de Maomé, outros entendem que morreu pouco depois da primeira revelação, antes que houvesse oportunidade para manifestar publicamente sua fé ou integrar a comunidade islâmica. Por essa razão, é frequentemente incluído entre o .
Vida
Embora sua data de nascimento seja desconhecida, estima-se que Uaraca tenha nascido na primeira metade do , pois já era um ancião cego quando recebeu a visita de Maomé logo após a primeira revelação. Pertencia aos abedaluzaítas dos coraixitas, ramo cuja linhagem remontava a Cuçai ibne Quilabe e se encontrava com a de Maomé em Abede Manafe. Seu pai, Naufal ibne Açade, morreu na última Guerra Sacrílega, e sua mãe chamava-se Hinde binte Abi Cabir. Tinha dois irmãos, Adi e Safuane, e uma irmã, Rucaia (Ume Quital), descrita pelas fontes como conhecedora da Torá e do Evangelho. Algumas tradições afirmam que Cadija binte Cuailide chegou a ser prometida em casamento a Uaraca, embora a união não tenha ocorrido. Também lhe atribuem uma filha chamada Cutaila, mas sua descendência não teve continuidade. As tradições islâmicas apresentam versões divergentes sobre sua vida religiosa. Segundo um dos relatos mais difundidos, Uaraca, Ubaide Alá ibne Jaxe, e rejeitaram coletivamente o politeísmo da Meca pré-islâmica e partiram em busca da religião de Abraão. Após viajarem à Síria, Uaraca teria adotado o cristianismo, enquanto Zaíde permaneceu fiel ao monoteísmo abraâmico sem aderir formalmente ao judaísmo nem ao cristianismo. Outras tradições, porém, apresentam Uaraca como um dos mais célebres hanifes de Meca e sustentam que morreu como monoteísta. Também se relata que sabia ler e escrever, estudava o Evangelho e o transcrevia em árabe ou hebraico, sendo possível que tenha traduzido parte do texto para o árabe. Algumas fontes mencionam ainda que possuía exemplares do Evangelho em sua residência. Estudos modernos, entretanto, consideram improvável a existência de uma tradução árabe do Evangelho tão cedo, tratando com cautela essas tradições.
Segundo os relatos preservados por Albucari e outros tradicionalistas, depois da primeira revelação recebida na caverna de Hira, Maomé dirigiu-se com Cadija binte Cuailide — ou, segundo outra tradição, também acompanhado de Abu Becre — à residência de Uaraca para relatar o ocorrido. Após ouvir a descrição da experiência, Uaraca afirmou que o mensageiro que lhe aparecera era o mesmo Namus que havia sido enviado a Moisés — ou, conforme outra versão, a Jesus — e anunciou que ele era o último profeta aguardado por judeus e cristãos. Também advertiu Maomé de que seria rejeitado e perseguido por seu próprio povo, acrescentando que o auxiliaria caso ainda estivesse vivo quando isso ocorresse. Entretanto, morreu antes que a pregação pública do islã tivesse início. Diversos relatos posteriores procuraram aproximar Uaraca da vida de Maomé antes da primeira revelação. Algumas fontes afirmam que ele encontrou o futuro profeta quando este se perdeu em Meca durante a infância, outras relatam que Cadija o consultou antes de aceitar o casamento com Maomé, enquanto outras lhe atribuem conhecimento das observações feitas pelo monge e dos acontecimentos narrados por , servo de Cadija, durante a viagem comercial à Síria. As diferentes versões da visita após a primeira revelação também variam quanto aos participantes e ao desenrolar do encontro, refletindo preocupações da tradição posterior, como a precedência da conversão de determinados companheiros. O autor observa, contudo, que esses relatos não demonstram uma relação suficientemente estreita entre ambos para sustentar a hipótese, defendida por alguns orientalistas, de que Uaraca teria exercido influência decisiva sobre a formação religiosa de Maomé. Também não existem evidências de que tenha desempenhado qualquer atividade missionária cristã em Meca, apesar de algumas fontes afirmarem que dominava as Escrituras e o conhecimento religioso dos povos do Livro.
Os estudiosos muçulmanos também divergiram quanto à condição religiosa de Uaraca após o início da missão profética. Alguns autores, como Assuaili, , Ibne Alcaime Aljauzia e , sustentaram que ele deve ser considerado muçulmano e até mesmo companheiro de Maomé. Outros, entre eles Ibne Abede Albarre e Ibne Hajar Alascalani, rejeitaram essa interpretação por entenderem que Uaraca morreu antes de haver oportunidade para professar publicamente sua fé ou participar da comunidade islâmica. As tradições que o descrevem no paraíso foram consideradas fracas, razão pela qual costuma ser incluído entre o . A maioria das fontes indica que morreu pouco tempo após o início da revelação, provavelmente durante o período de interrupção temporária das revelações, por volta de 610, embora existam tradições que situem sua morte em 614 ou, mais raramente, em datas ainda posteriores. Diversos de seus poemas de conteúdo religioso e moral foram preservados e reunidos em coletâneas modernas. Embora alguns estudiosos modernos tenham defendido que Uaraca exerceu influência sobre a formação religiosa de Maomé, as evidências disponíveis não permitem determinar com segurança a extensão de qualquer contato entre ambos nem o eventual impacto de suas conversas sobre o surgimento do islã.
Bibliografia
Categoria:Árabes do século VI Categoria:Árabes do século VII Categoria:Açaditas (coraixitas) Categoria:Naturais de Meca Categoria:Pessoas envolvidas nas Guerras Sacrílegas