O Saquifa () dos saidaítas refere-se ao local onde ocorreu, nos primeiros momentos da história do islão, uma reunião em que parte dos companheiros do profeta islâmico Maomé prestou juramento de fidelidade a Abu Becre como primeiro califa e sucessor de Maomé, pouco depois de sua morte, em 11 A.H. (632). A reunião do Saquifa é considerada um dos acontecimentos mais controversos do islão primitivo, em razão da ausência de numerosos companheiros de Maomé, entre eles membros de sua família imediata, notadamente Ali, seu primo e genro. Os conflitos surgidos em torno da sucessão de Maomé são geralmente apontados como a principal origem da divisão histórica entre sunitas e xiitas. Os que reconheceram o califado de Abu Becre passaram posteriormente a ser identificados como sunitas, enquanto os partidários do direito de Ali ao califado ficaram conhecidos como xiitas.
Historiografia
A palavra árabe designa um recinto comunitário coberto destinado a reuniões e conversas. Nas fontes históricas, porém, o termo tornou-se praticamente sinônimo da assembleia realizada logo após a morte de Maomé para deliberar sobre sua sucessão.
Fontes
Os primeiros relatos sobre a reunião do Saquifa só começaram a ser registrados por escrito na primeira metade do da Hégira ou posteriormente. Nessa época, a comunidade muçulmana já se encontrava consolidada em correntes sunitas e xiitas. Em razão disso, as obras dos autores sunitas Ibne Sade (m. 230/845), Albaladuri (m. 279/892) e Atabari (m. 310/923) refletem, em diferentes graus, a perspectiva sunita, enquanto autores associados ao xiismo, como Ibne Isaque (m. 151/768), Iacubi (m. 284/897–898) e Almaçudi (m. 345/956), preservaram tradições mais favoráveis a essa corrente. Por essa razão, Husain Mohammad Jafri defende que todos os relatos disponíveis devem ser examinados em conjunto para que se possa reconstruir o episódio com maior segurança histórica. Como exemplo, Jafri observa que Ibne Sade apresenta, em seu , um relato fortemente apologético da reunião do Saquifa, no qual a participação de Ali é omitida. Segundo o autor, Ibne Sade foi um dos precursores da técnica historiográfica "piedosa" sunita, que preservava apenas os aspectos considerados exemplares dos companheiros e suprimia relatos potencialmente controversos. Em contrapartida, Jafri considera que as obras tardias dos autores xiitas (m. 548/1153) e (m. 1699) possuem caráter marcadamente polêmico e reduzido valor histórico.
O relato mais antigo é o de Ibne Isaque, preservado na recensão realizada pelo autor sunita Ibne Hixame (m. 218/833) de sua . Jafri observa que, de maneira incomum, Ibne Hixame absteve-se de modificar a narrativa de Ibne Isaque sobre a reunião do Saquifa, circunstância que interpreta como a preservação de um relato elaborado por um autor de inclinação xiita e aceito por um editor sunita. As reconstruções históricas de Jafri e de Wilferd Madelung baseiam-se, em grande medida, nesse relato. Em sua obra , Albaladuri segue parcialmente o método apologético de Ibne Sade, mas preserva também parte do material controverso referente à reunião do Saquifa, incluindo tradições favoráveis a Ali. Por outro lado, o conteúdo controverso da obra de Aliacubi foi frequentemente rejeitado por autores sunitas posteriores como inautêntico, ao passo que Jafri o considera uma valiosa coletânea de documentos preservados apesar da tendência predominante entre muitos historiadores sunitas de omitir ou rejeitar tradições divergentes. Madelung igualmente sustenta que a afinidade sunita ou xiita de um relato, por si só, não constitui prova de sua falsidade. Segundo Jafri, o relato de Atabari sobre a reunião do Saquifa é, em geral, equilibrado e imparcial, enquanto Mahmoud M. Ayoub o considera a narrativa mais detalhada do episódio.
O principal transmissor das tradições relativas à reunião do Saquifa é Ibne Abas (m. 68/687–688), primo de Maomé e reconhecida autoridade religiosa em Medina. Segundo Jafri, ele presenciou os acontecimentos e recebeu ainda o testemunho direto de seu pai, Alabás ibne Abede Almotalibe, que então desempenhava papel político ativo. Madelung considera autêntica a narrativa de Ibne Abas, observando que ela reflete características recorrentes de sua perspectiva histórica. A maior parte desse relato consiste em um sermão pronunciado por Omar em 23/644. Embora ausente da maioria das fontes sunitas, Madelung e Jafri entendem que esse discurso foi proferido para desencorajar aqueles que eventualmente pretendiam apoiar a nomeação de Ali como califa após a morte de Omar.
Reunião
thumb|esquerda|300px|Juramento de fidelidade a Abu Becre no Saquifa, com Omar à direita; miniatura persa produzida por volta de 1595
Durante a vida de Maomé, os muçulmanos de Medina dividiam-se em dois grupos: os muajiritas, que haviam se convertido ao islão em Meca e emigrado para Medina com Maomé, e os ançares, originários de Medina e responsáveis por convidar Maomé a governar a cidade. Logo após a morte de Maomé, em 11/632, os ançares reuniram-se no Saquifa (literalmente, "pátio coberto") dos saidaítas, enquanto os parentes próximos do profeta preparavam seu sepultamento. Segundo a interpretação tradicional, os ançares pretendiam escolher entre si um novo dirigente para a comunidade muçulmana, excluindo deliberadamente os muajiritas. Essa também foi a versão apresentada por Omar em seu sermão posterior. O principal candidato teria sido Sade ibne Ubada, companheiro de Maomé, chefe dos saidaítas e uma das principais lideranças dos cazerajitas, a tribo majoritária entre os ançares. Sade encontrava-se doente naquele dia. Para Madelung, contudo, a ausência dos muajiritas indica que os ançares se reuniram para restabelecer seu controle sobre Medina, pois supunham que a maioria dos emigrantes regressaria a Meca após a morte de Maomé. Jafri propõe, alternativamente, que os ançares tenham agido preventivamente por temerem a dominação dos mecanos e talvez já conhecerem suas pretensões à liderança da comunidade.
Entre as três tradições disponíveis, Jafri privilegia aquela presente em quase todas as fontes que examinou. Segundo esse relato, a notícia da reunião chegou a Abu Becre, Omar e Abu Ubaida ibne Aljarrá quando os três provavelmente se encontravam na casa deste último, talvez discutindo a crise sucessória. Thomas Walker Arnold e Jafri consideram provável que Abu Becre e Omar tivessem planejado anteriormente uma aliança para enfrentar a sucessão de Maomé, enquanto Madelung atribui esse planejamento apenas a Abu Becre. No relato de Ibne Isaque, uma pessoa teria informado Abu Becre e Omar sobre a reunião nos seguintes termos: "Se desejais assumir o comando do povo, fazei-o antes que a ação deles [os ançares] se torne séria." Os dois dirigiram-se então rapidamente ao Saquifa, acompanhados de Abu Ubaida, possivelmente para impedir qualquer desdobramento inesperado. Segundo Omar, algumas pessoas tentaram dissuadi-los, mas os três prosseguiram mesmo assim. Omar afirma que "os muajiritas" se juntaram a Abu Becre e que, em seguida, ele próprio sugeriu que fossem ao encontro dos ançares reunidos no Saquifa. Madelung rejeita essa versão e considera que Abu Becre, Omar e Abu Ubaida eram os únicos representantes dos muajiritas presentes, talvez acompanhados por alguns parentes e clientes. Para o autor, a quase completa ausência dos emigrantes também explicaria a inexistência de outros relatos independentes sobre o episódio, pois os ançares teriam relutado posteriormente em narrar sua derrota política.
Ao chegar ao Saquifa, Omar afirma ter percebido que os ançares pretendiam "separar-nos de nossa raiz", isto é, dos coraixitas, e usurpar-lhes o governo. Abu Becre tomou então a palavra e advertiu que os árabes não reconheceriam a autoridade de alguém que não pertencesse à tribo de Maomé, os coraixitas. Segundo a versão preservada por Ibne Isaque, argumentou também que os muajiritas eram os mais nobres entre os árabes em linhagem e posição. Albaladuri acrescenta que Abu Becre destacou a precedência dos emigrantes na conversão ao islão e sua maior proximidade genealógica com Maomé. O parentesco dos coraixitas com o profeta também aparece nos relatos de Aliacubi e Atabari e na interpretação de Moojan Momen. Madelung, contudo, considera improvável que Abu Becre tenha invocado o parentesco dos coraixitas com Maomé, pois esse argumento levantaria inevitavelmente a questão dos direitos dos haxemitas, clã do profeta e grupo que reunia seus parentes mais próximos. Retomando a narrativa de Ibne Isaque, Abu Becre teria então convidado os ançares a escolher Omar ou Abu Ubaida como sucessor de Maomé. Omar relata que a proposta o desagradou, pois considerava Abu Becre mais digno do governo do que ele próprio. Madelung interpreta a oferta como uma manobra de Abu Becre para apresentar-se aos ançares como alternativa aceitável a Omar e Abu Ubaida. Segundo o autor, Abu Ubaida não possuía projeção política suficiente, enquanto Omar aparentemente havia prejudicado sua posição pouco antes da reunião ao negar publicamente a morte de Maomé.
No relato de Ibne Isaque, , veterano da Batalha de Badre, respondeu a Abu Becre propondo que coraixitas e ançares escolhessem separadamente seus próprios governantes. Seguiu-se então uma discussão acalorada. Segundo Omar, ele pediu a Abu Becre que estendesse a mão e lhe prestou juramento de fidelidade, sendo seguido por outros presentes. Acrescentou ainda: "Depois nos lançamos sobre Sade, até que um deles gritou: 'Matastes Sade ibne Ubada.' Eu respondi: 'Que Deus mate Sade.'" Para Madelung, a eclosão da violência indica que uma parcela considerável dos ançares recusou-se inicialmente a seguir Omar. Caso contrário, argumenta, não teria sido necessário agredir seu chefe, Sade ibne Ubada. Sade continuou recusando-se a reconhecer a nova liderança até morrer durante o califado de Omar. Tradições posteriores atribuíram sua morte a um gênio, embora Madelung e Ayoub considerem possível que ele tenha sido assassinado por instigação do segundo califa.
Ali
Ali, primo e genro de Maomé, preparava o corpo do profeta para o sepultamento ao lado de outros parentes próximos e provavelmente desconhecia a reunião que ocorria no Saquifa. Após o juramento de Omar a Abu Becre, o relato do cufano Ibraim Anacai (m. 96/714–715) acrescenta: "Mas os ançares, ou alguns deles, disseram: 'Não prestaremos juramento de fidelidade a ninguém senão Ali.'" Leone Caetani rejeita essa tradição em razão de sua coloração xiita, enquanto Madelung a aceita, observando que Anacai não é conhecido por simpatias xiitas e que o restante de sua narrativa possui caráter claramente sunita. De modo semelhante, Aliacubi relata que o ançar interrompeu os debates e propôs Ali como sucessor. Jafri, Arzina Lalani e Momen também afirmam que alguns dos presentes defenderam a candidatura de Ali no Saquifa. Madelung não considera certo que a sucessão de Ali tenha sido discutida no Saquifa, mas julga provável que isso tenha ocorrido. Segundo ele, os ançares teriam naturalmente se inclinado a Ali em razão dos laços familiares que os uniam ao profeta. Em seu sermão posterior, Omar explicou que os presentes haviam pressionado os ançares a prestar imediatamente o juramento de fidelidade a Abu Becre porque, segundo ele, poderiam ter escolhido um dos seus como sucessor de Maomé. Madelung sugere que Omar também temia que os ançares levantassem entre si a candidatura de Ali. John McHugo admite igualmente essa possibilidade.