Ivã Fiódorovitch Karamázov (em russo: Ива́н Фёдорович Карама́зов) é um personagem fictício de Os Irmãos Karamazov, de Fiódor Dostoiévski, publicado em 1880. Enventualmente, também é chamado de Vânia. Filho de Fiódor Pavlovitch e de Sofia Ivânovna, A Endemoniada, Ivã é o irmão mais velho de Aliócha e o meio-irmão mais novo de Mítia. Sua relação com os seus irmãos, incluindo o suposto meio irmão Smierdiákov, seu pai e sua cunhada (Catarina Ivânovna, noiva de Mítia) são cruciais para o desenvolvimento do romance.
Características Assim como seus irmãos, Ivã foi criado por parentes maternos, não cultivando relações com o pai enquanto criança e adolescente. Após terminar seus estudos, trabalhou como crítico e jornalista em Moscou.. Ele foi criado por parentes de sua mãe. Eis a consideração feita pelo narrador sobre a chegada de Ivã:
Ivã passa algum tempo na casa do pai e, aparentemente, eles se deram muito bem um com o outro.
Ivã é um ateu convicto e debate seu pensamento filosófico claramente com os outros personagens, que o consideram frio, distante e muito intelectual. A princípio, ele e seu irmão Aliócha mantém uma relação meramente protocolar, mas, com o desenvolver da história, eles desenvolvem uma relação de amor e respeito mútuo, mesmo com a diferença de idade e de crenças. Durante uma longa conversa em um botequim, Ivã explica a Aliéksiei seu pensamento:
No romance, Ivã reafirma seus pensamentos, como o de não existir nem bem nem mal. Quando do assassinato de seu pai, ele cai no desespero por não conseguir resvolver o problema, e, após uma série de encontros com Smierdiákov, ele enlouquece. Vânia passa a ter delírios e pesadelos, mesmo acordado, nos quais ele conversa com o próprio diabo sobre suas ações e crenças.
Relações com outros personagens
Relação com o pai Apesar de Fiódor Pavlocitvh parecer respeitar Ivã, Vânia nutre uma antipatia em relação a seu pai. Depois de Fiódor ser atacado por Dmitri (no Capítulo 9, 'Os Sensuais', do terceiro livro), Ivã confessa a Aliócha que não se importaria caso Fiódor fosse assassinado e que "os dois répteis devoram um ao outro", mesmo tendo sido ele mesmo quem impediu o ataque. Fiódor diz a Aliócha que sente mais medo de Ivã do que do outro.
Ivã, após ter uma conversa enigmática com Smierdiákov, parte para Moscou, mesmo com os apelos de seu pai para que ele ficasse. Ivã tem certeza que o assassinato foi cometido por Dmitri, mas também se ressabia sobre a participação de Smierdiákov no crime, justamente pela conversa que teve com o criado. A certeza de Aliócha acerca da inocência do meio-irmão também abala sua certeza. A suspeita em Smierdiákov persiste ao ponto que Ivã passa a implicar a própria participação no crime, consequentemente a culpa pelo assassinato do pai.
Relação com seus irmãos
Aliócha Ivã e seu irmão mais novo se dão bem, apesar de suas diferenças filosóficas. Os dois jantam juntos, ocasião em que Ivan desabafa com Aliócha, discute suas crenças filosóficas e políticas, além de recitar para ele "O Grande Inquisidor". Terminando seu poema, Ivã percebe que Aliócha luta para conseguir aceitar as posições do irmão, que são diametralmente opostas às suas:
Aliócha fica em silêncio e beija Ivan nos lábios.
Depois que Ivã passa a ter os delírios e ser perturbado pelas visões do demônio, Aliócha passa a cuidar dele, sem condená-lo por suas crenças. Aliéksiei conversa com Vânia até que ele padece, inconsciente, e o deita na cama. No fim do livro, é relatado que Aliócha continua visitando o irmão, ainda inconsciente, duas vezes ao dia. Ivã está aos cuidados de Catarina Ivânovna. O romance não diz explicitamente se Ivã sobreviverá a essa condição ou não, mas o clima aparente é de otimismo acerca da recuperação.
Dmitri Ivã mantém uma relação instável com Dmitri, que tem mais semelhanças com Fiódor do que os outros dois irmãos. Ivã parece também odiar Mítia tanto quanto odeia o próprio pai. Apesar disso, Mítia é mais bondoso que seu pai e luta contra suas paixões intempestivas, tentando manter sempre a consciência de seus atos. Inicialmente, Ivã crê veementemente que Dmitri é o real assassino de Pavlovitch e o visita frequentemente na prisão.
Dimitri e Ivã também entram em conflito por causa de Catarina Ivânovna. Catarina é noiva de Dmitri, mesmo com Mítia declarando abertamente que sua verdadeira paixão é, em realidade, Grúchenka - também cobiçada por Fiódor Karamázov. Ivã, então, apaixona-se por Catarina Ivânovna e vice-versa, mas ambos não assumem o amor existente entre eles. Catarina e Ivã atuam como testemunhas a favor de Mítia em seu julgamento. No entanto, a essa altura, Ivan já estava quase furioso e foi retirado do tribunal, e Catarina, que começa seu depoimento elogiando as qualidades morais de Dmitri, acaba "traindo" seu noivo, percebendo que Mítia poderia usar da ira de Ivã e do testemunho para incrimar Ivã.
Ivan acaba por reconhecer a inocência do irmão e ajuda até planejar sua fuga. Ele compartilha os planos com Catarina Ivânonva, pois sua própria doença o deixou incapaz de ajudar.
Smierdiákov Ivã irrita-se com os rumores da possibilidade de Smierdiálov ser um filho ilegítimo de Fiódor Karamázov. Apesar disso, Smierdiákov passa a admirar Ivã por sua intelectualidade. Mesmo que Smierdiákov possa ser considerado uma pessoa inteligente, Ivã se recusava a aceitar isso, já que acabaria por comprovar as falhas morais dele próprio. Smierdiákov acaba sugerindo implicitamente que ele poderia ser o assassino de Fiódor em conversas com Ivã, e, diante da inércia de Vânia, Smierdiákov assume a posição como uma permissão.
Ivã e Smierdiákov são apontados como duas formas de expressão do niilismo russo. Ivã é a representação de uma corrente de revolta filosófica, enquanto Smierdiákov traduz a revolta prática, pondo em prática a dialética defendida por Ivã.
Smierdiákov suicida-se após conversar com Ivã três vezes. Mesmo assim, Ivã depõe contra Smierdiákov. Ainda, a loucura de Ivã deve-se, em parte, devido a ele ver o resultado da ação prática da filosofia, que ele tanto defendeu, por Smierdiákov, que dizia ter Ivã concedido a permissão para que ele matasse Fiódor.
Significado filosófico
Niilismo Dostoiévski usa Ivan como uma personificação do niilismo do século XIX. Essa filosofia estava se difundindo entre a juventude russa da época, e é claramente retratada neste romance e em Pais e Filhos, de Ivan Turgenev . O niilismo, em resumo, é uma rejeição de Deus, da imortalidade e da moral/autoridade, levando a pessoa a acreditar que a vida é completamente sem sentido e que se pode fazer o que bem entender. Ivan aparenta ser um niilista típico, mas na presença de seu irmão, Alyosha, ele se abre mais sobre os motivos que o levaram a rejeitar a doutrina cristã.
A frase "Tudo é permitido" torna-se um mantra para todo o livro e para as crenças filosóficas de Ivã. Ele, no entanto, não deixa de apontar defeitos morais nas outras pessoas. Aliócha reconhece a turbulência interna de seu irmão dizendo: "Ah, Mítia, ele (Ivã) é uma alma tempestuosa. Sua mente está cativa. Há um grande pensamento não resolvido nele. Ele é um daqueles que não precisam de milhões, mas precisam resolver seus pensamentos."
Ivã, em suma, não consegue reconhecer Cristo porque não consegue reconciliar-se com o sofrimento inocente e não acredita que alguém seja digno de trazer a harmonia eterna. Essa luta filosófica o leva à loucura pela culpa, a ponto de delírio e febre cerebral, devido à sua culpa e à sua incapacidade de realmente negar a virtude ou aceitar Cristo plenamente.
Albert Camus O filósofo franco-argelino Albert Camus discute Ivan diversas vezes. Considerando-o o 'homem absurdo' ideal, uma personificação de sua própria filosofia: o absurdismo . Em sua obra de 1942, O Mito de Sísifo, Camus usa Ivã como um exemplo de que se desesperar na liberdade pode influenciar uma pessoa a adotar práticas niilistas.. Em sua obra A Rebelde, Camus inclui um capítulo inteiro dedicado às visões de Ivã sobre o mal: "Com Ivã, porém, o tom muda. Deus, por sua vez, é posto à prova. Se o mal é essencial à criação divina, então a criação é inaceitável." Camus chegou a interpretar Ivã numa adaptação teatral de Os Irmãos Karamazov que ele produziu.
Ver também
Aliocha Karamazov Os Irmãos Karamazov O Grande Inquisidor
Referências
Categoria:Personagens de Fiódor Dostoiévski Categoria:Os Irmãos Karamazov Categoria:Fiódor Dostoiévski Categoria:Literatura da Rússia