Boabdil é uma peça de teatro escrita por Gonçalves Dias em 1850, sendo o último dos quatro dramas do autor.FERNANDES, Andréa Camila de Faria. Construção de memória nas narrativas autobiográficas do poeta Antonio Gonçalves Dias. Revista NUPEM, Campo Mourão, v. 16, n. 37, p. 1-16, jan./abr. 2024.

A peça tem como cenário o Reino de Granada nos seus últimos anos, tendo por tema o amor entre um cavaleiro abencerragem e a rainha, sobre o pano de fundo da ameaça cristã que levaria à queda do último reduto muçulmano da Península Ibérica.RIBEIRO, Maria Aparecida. Da princesa Santa Joana à índia saudosa do amigo: o medievismo em Gonçalves Dias. Humanitas, Coimbra, v. 50, 1998. Escrita num momento em que o gosto europeu pela exploração literária de temas medievais já começava a declinar, a peça retoma, no entanto, um repertório muito explorado pelo romantismo francês e espanhol do início do século XIX, que é a lenda da rivalidade entre as famílias Abencerragem e Zegri na corte granadina, tema também tratado por autores como Chateaubriand e Florian.

Enredo Zoraima fora prometida a Ibrahim, jovem da nobre família dos Abencerragens, mas o rapaz é dado como morto, e ela acaba por se casar com Boabdil, que se torna rei de Granada. Ibrahim, na realidade, sobrevivera, e retorna à corte sob o nome falso de Aben-Hamet, tornando-se o melhor amigo de Boabdil, seu rival amoroso, sem que este saiba de sua verdadeira identidade nem de seu passado com a rainha.

Quando Boabdil descobre o antigo amor entre Zoraima e o abencerragem, e apura que o sobrenome do rapaz é Abencerrage, não se dá ao trabalho de confirmar de qual membro da família se trata: ordena a morte de todos os integrantes do clã, deixando vivo, por ironia, justamente o culpado, pois o verdadeiro nome de seu amigo e confidente Aben-Hamet era Ibrahim Abencerrage. O amor entre Zoraima e o abencerragem, uma vez descoberto, condena o casal, e o drama se encerra com o mesmo desenlace sangrento que marca as demais peças do autor.

Personagens Boabdil: rei de Granada. Zoraima: rainha de Granada. Aben-Hamet (Ibrahim Abencerrage): cavaleiro abencerragem, antigo amor de Zoraima.

Análise Vinícius Pinto de Oliveira aproxima Boabdil de Patkull, as duas peças consideradas estética e textualmente inferiores a Beatriz Cenci e Leonor de Mendonça pela crítica literária, identificando nelas um "sabor plautino" comum: o recurso ao motivo do engano e da identidade oculta, presente tanto na trama de Berta em Patkull quanto na de Aben-Hamet/Ibrahim em Boabdil.OLIVEIRA, Vinícius Pinto de. Dramaturgia, história e recepção: Plauto, Sêneca e Gonçalves Dias. Projeto de Iniciação Científica (PAIC) – Centro de Estudos Superiores de Parintins, Universidade do Estado do Amazonas, Parintins, 2022-2024. Orientador: Weberson Fernandes Grizoste. Disponível em: latinitates.com.

Maria Aparecida Ribeiro situa Boabdil no contexto do medievalismo de Gonçalves Dias, observando que a peça surge justamente quando, em Portugal, o gosto pela exploração literária de temas medievais já começava a arrefecer, o que não impediu o dramaturgo brasileiro de voltar-se, uma última vez, para o passado ibérico, desta vez sob o signo da presença muçulmana na Península e da Reconquista.

Gisele Gemmi Chiari situa Boabdil na leitura proposta por Marlene de Castro Correia, para quem as quatro peças do autor compartilham o mesmo tema estrutural do poder patriarcal, com o domínio masculino sobre o destino das personagens femininas evidenciando-se de forma particularmente acentuada em Beatriz Cenci, Leonor de Mendonça e no próprio Boabdil.CHIARI, Gisele Gemmi. A estética romântica no teatro de Gonçalves Dias: Leonor de Mendonça. 2015. Tese (Doutorado em Literatura Brasileira) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2015. Jéssica de Oliveira Guimarães coloca Boabdil entre os dramas de juventude do autor que, ao lado de Patkull e Beatriz Cenci, apresentam problemas de enredo, com cenas pouco trabalhadas e acontecimentos sobrepostos, em contraste com o amadurecimento dramatúrgico alcançado em Leonor de Mendonça.GUIMARÃES, Jéssica de Oliveira. Conceitos schillerianos presentes na obra Beatriz Cenci de Gonçalves Dias. Opiniães, São Paulo, n. 15, p. 191-212, 2019.

Referências

Categoria:Peças de teatro do Brasil Categoria:Gonçalves Dias