A Revolta do Naquibe Alaxerafe (também conhecida como Levante do Naquibe Alaxerafe) foi uma revolta popular ocorrida em Jerusalém entre maio de 1703 e outubro de 1705 contra as autoridades do Império Otomano. Liderada pelo naquibe alaxerafe de Jerusalém, , reuniu habitantes da cidade, camponeses das aldeias vizinhas, beduínos locais e membros dos ulemás. Durante mais de dois anos, os rebeldes exerceram controle efetivo sobre Jerusalém por meio de uma administração própria. Contudo, divisões internas enfraqueceram o movimento e, após um cerco otomano, o grupo liderado por Maomé ibne Mustafá abandonou a cidade, sendo posteriormente capturado e executado.
Antecedentes
Em meados do , a Sublime Porta, governo central do Império Otomano, iniciou um amplo processo de centralização administrativa nas províncias sob a orientação dos grão-vizires da família Köprülü. Na Palestina, essa política traduziu-se na eliminação gradual das dinastias locais hereditárias, sobretudo os riduânidas, os e os , cujos membros tradicionalmente ocupavam os governos dos sanjacos de Jerusalém, Gaza, e Nablus. Essas famílias mantinham estreitas alianças tanto com os notáveis das principais cidades palestinas quanto com as tribos beduínas da região. Ao final do , os governadores locais haviam sido substituídos por funcionários enviados diretamente pela Sublime Porta, que abandonaram as relações de cooperação cultivadas por seus predecessores. Sob a nova administração, continuaram os abusos praticados por janízaros, e contra a população local. Ao mesmo tempo, as autoridades mostravam-se incapazes de restaurar a segurança no Sanjaco de Jerusalém. As estradas que ligavam Jerusalém a Jafa e Nablus a Hebrom eram frequentemente atacadas por beduínos, enquanto a instabilidade persistia tanto no campo quanto em importantes centros urbanos, como Hebrom.
A elevada carga tributária imposta pelos governadores e os abusos cometidos por funcionários subalternos levaram muitos camponeses a abandonar suas aldeias. Nesse contexto, os dignitários de Jerusalém passaram frequentemente a atuar como mediadores dos conflitos locais em substituição às autoridades governamentais. A perda dos privilégios de que haviam desfrutado sob as antigas dinastias aproximou-os das camadas populares, que compartilhavam a insatisfação com a nova ordem administrativa. O descontentamento foi agravado por atos atribuídos aos janízaros, entre eles a profanação de mesquitas e de outros locais sagrados, incluindo o Harame Axarife. Em 1701, foi nomeado governador dos sanjacos de Jerusalém, Gaza e Nablus. Durante seu governo, promoveu sucessivas campanhas punitivas contra camponeses e tribos beduínas que resistiam à sua autoridade, recusavam-se a pagar os novos tributos — cuja carga havia sido duplicada após sua posse — ou, no caso dos beduínos, controlavam as principais estradas da região e cobravam pedágios dos viajantes. Essas campanhas caracterizaram-se pela extrema violência. Em 1702, uma expedição contra beduínos e camponeses dos sanjacos de Gaza e Jerusalém provocou cerca de duzentas mortes. No início de 1703, o governador sitiou a cidade fortificada de Bete-Jibrim, onde rebeldes da região haviam se entrincheirado. Diversas aldeias foram destruídas antes que a cidade fosse reconquistada pelas forças otomanas. Após o cerco, os ulemás de Jerusalém solicitaram ao governador que moderasse sua política fiscal e militar, mas seus apelos foram ignorados.
Revolta
Em maio de 1703, durante a oração de sexta-feira na Mesquita de al-Aqsa, enquanto Maomé Paxá Curde Bairame se encontrava em campanha nos arredores de Nablus, foi proclamada uma revolta contra o governo otomano. O nomeado pelo governador, juntamente com a pequena guarnição deixada para administrar Jerusalém, foi preso pelos rebeldes, que contaram com o apoio decisivo de unidades locais de sipais e de janízaros. Os insurgentes libertaram ainda os prisioneiros da cadeia da cidade. À medida que o chamado dos ulemás à rebelião se difundia, habitantes de Jerusalém passaram a receber o apoio de camponeses provenientes das aldeias vizinhas, enquanto eram organizadas as defesas da cidade para enfrentar a esperada ofensiva das tropas otomanas. Os rebeldes escolheram como líder , Naquibe Alaxerafe de Jerusalém, conferindo-lhe igualmente o título de xeque da cidade, origem da denominação moderna atribuída ao movimento. Os xeques dos diferentes bairros passaram a auxiliá-lo na administração dos assuntos governamentais e econômicos. Com o firme controle da cidade, o amplo apoio da população e o estabelecimento de uma administração própria, Jerusalém passou a viver um período de mais de dois anos de autogoverno de facto. A situação foi favorecida pelo fato de o governo central estar concentrado em problemas mais urgentes decorrentes da , circunstância que levou a Sublime Porta a tolerar temporariamente a situação em Jerusalém.
Maomé Paxá Curde Bairame, juntamente com , governador do Eialete de Damasco — ao qual Jerusalém estava subordinada — e seus sucessores, procurou sucessivamente retomar a cidade. Os rebeldes, contudo, aproveitaram-se do caráter sagrado de Jerusalém para os muçulmanos, dissuadindo as forças imperiais de bombardearem intensamente a cidade, ao mesmo tempo em que atacavam os sitiantes sempre que estes se aproximavam das muralhas. Em 1704, ao tomarem conhecimento de que o sultão preparava o envio de um grande exército para restaurar o controle imperial sobre Jerusalém, formou-se na cidade um grupo favorável à reconciliação com as autoridades otomanas, satisfeito com a destituição de Maomé Paxá Curde Bairame e disposto a pôr fim à revolta. Maomé ibne Mustafá, porém, desconfiou das promessas do governo e exigiu garantias mais sólidas antes de aceitar qualquer acordo. A população dividiu-se entre os dois grupos, e a rivalidade rapidamente degenerou em confronto armado quando os partidários do Naquibe Alaxerafe iniciaram uma ofensiva contra os legalistas. Os combates atingiram seu auge nas estreitas ruas em torno do , ao norte da cidade, provocando dezenas de mortes e numerosas deserções entre os rebeldes. Os partidários do governo refugiaram-se na cidadela, juntamente com o cádi, onde aguardaram a chegada do exército imperial. Os confrontos recomeçaram no final de 1705, quando o exército otomano iniciou sua marcha desde Damasco. As forças imperiais encontraram apenas resistência esporádica no interior da região de Nablus, onde grupos irregulares de camponeses realizaram ataques de oportunidade durante o avanço das tropas. Ao alcançarem os arredores de Jerusalém, em outubro de 1705, Maomé ibne Mustafá decidiu abandonar a cidade na noite de 28 de outubro, acompanhado por algumas dezenas de seguidores, escapando através do Portão de Damasco e do . Pouco tempo depois foi capturado pelas autoridades otomanas, enviado para Istambul e executado em 1707.
Consequências e legado
A fuga do Naquibe Alaxerafe marcou o fim da influência da família Aluafai Alhuceini em Jerusalém e abriu caminho para que o clã Algudaia, uma família de asrafes de projeção até então mais discreta, assumisse o cargo de Naquibe Alaxerafe. Em meados do , um de seus ramos passou a ser conhecido como , tornando-se uma das famílias mais influentes de Jerusalém durante as décadas finais do domínio otomano e exercendo papel de destaque no nacionalismo palestino após a Primeira Guerra Mundial. Além dos Aluafai Alhuceinis, diversas outras famílias de ulemás e de asrafes perderam o favor das autoridades otomanas, embora algumas tenham recuperado parte de sua influência política e administrativa nas décadas seguintes. Após a capitulação da cidade, milhares de soldados otomanos foram aquartelados em Jerusalém sob o comando de um novo governador, e a forte presença militar contribuiu para o declínio da economia local. Segundo Ilan Pappe, a Revolta do Naquibe Alaxerafe foi um episódio singular na história do distrito de Jerusalém por reunir, em uma mesma coalizão, camponeses, beduínos, dignitários urbanos e notáveis locais. O historiador Adel Manna descreveu-a como a "primeira revolta popular da Palestina", embora ressalte que sua abrangência geográfica permaneceu limitada a Jerusalém e seus arredores imediatos.
Bibliografia
Categoria:História de Jerusalém Categoria:Conflitos em 1703 Categoria:Conflitos em 1704 Categoria:Conflitos em 1705 Categoria:Revoltas contra o Império Otomano