thumb|Alberto Ruschel e Milton Ribeiro em cena do filme O Cangaceiro (1953) thumb|Othon Bastos em Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964)

Nordestern, também chamado de faroeste nordestino, western cangaceiro, western macaxeira ou farnordeste, é um gênero de ficção que transpõe convenções narrativas, visuais e temáticas do western para o sertão e para o imaginário histórico e cultural da Região Nordeste do Brasil. Seus enredos são frequentemente construídos em torno do cangaço, das forças volantes, do coronelismo, dos conflitos de terra, da vingança, do banditismo rural, da violência política e da disputa por justiça em territórios onde a autoridade estatal é ausente, limitada ou subordinada aos poderes locais.

O termo é um neologismo formado pela junção de Nordeste e western. Sua criação é atribuída ao crítico de cinema potiguar Salvyano Cavalcanti de Paiva que o empregou nos anos 60 e 70 nas páginas jornal Correio da Manhã, para designar os filmes brasileiros inspirados no faroeste e protagonizados por cangaceiros, volantes, jagunços e outros personagens do sertão.

Em sentido estrito, nordestern designa principalmente o ciclo de filmes de aventura sobre o cangaço desenvolvido a partir da década de 1950, fortemente estruturado segundo os códigos do western clássico. Em sentido amplo, a denominação também é aplicada a documentários, comédias, paródias, obras do Cinema Novo, produções da Boca do Lixo, filmes experimentais e releituras contemporâneas que utilizam a paisagem, os mitos e os conflitos do sertão.

Embora o gênero matriz, o Western – seja tradicionalmente ambientado no Velho Oeste (Old West) ou Oeste Selvagem (Wild West) dos Estados Unidos, entre a Corrida do Ouro da Califórnia (1849) e o fechamento da fronteira em 1890, o Nordestern opera em um recorte cronológico distinto. As histórias do cangaço, que inspiram grande parte do gênero, situam-se entre o fim do século XIX e meados do século XX, com seu período áureo nas décadas de 1920 e 1930, época de Lampião e Maria Bonita. Assim, muitas das narrativas nordestern, quando ambientadas no século XX, já seriam, em essência, "westerns contemporâneos", histórias que coexistem com a modernidade do rádio, do avião e do automóvel.

O faroeste brasileiro vai além do Nordeste. Termos mais abrangentes como western feijoada e faroeste caboclo designam produções ambientadas em outras regiões e contextos culturais do país, como o interior de São Paulo ou Pampa gaúcho. Enquanto o nordestern é uma vertente regional e tematicamente delimitada (muitas vezes associada ao cangaço e ao sertão semiárido), esses outros termos funcionam como categorias mais amplas que reconhecem a apropriação do gênero pelo imaginário brasileiro em suas múltiplas manifestações geográficas e históricas.

O Nordestern se manifesta em diversas mídias. No cinema, teve seu marco inicial com O Cangaceiro, dirigido por Lima Barreto e lançado em 1953 pela Companhia Cinematográfica Vera Cruz. O filme recebeu no Festival de Cannes o Prêmio Internacional de Filme de Aventura e alcançou ampla circulação internacional.

É importante destacar que, embora o cangaço seja um tema recorrente, nem toda história sobre o cangaço é necessariamente um nordestern. A distinção fundamental reside na transposição consciente das convenções do western, como o confronto entre lei e banditismo, a paisagem árida como personagem, o duelo e a busca por justiça em uma terra sem lei, para o contexto sertanejo.

Nos quadrinhos, a influência do gênero é notável em artistas que transitam entre o faroeste tradicional e cenários brasileiros, como Julio Shimamoto (conhecido por obras como O Gaúcho e Sertão Vermelho) e Flavio Colin (autor de histórias brasileiras do cowboy Cavaleiro Negro, personagem da Marvel, histórias para a revista Sertão & Pampas da Grafipar e ilustrou o romance gráfico Mulher-Diaba no Rastro de Lampião, escrito por Ataíde Braz), por exemplo, produziram faroestes para a revista Histórias do Faroeste, publicada pela editora Vecchi entre 1979 e 1982. Ambos são exemplos de como o western, em suas múltiplas vertentes, encontrou no Brasil um terreno fértil para reinvenção.

Terminologia e delimitação

A expressão nordestern corresponde a uma adaptação linguística e cultural da palavra inglesa western. A associação decorre da semelhança entre o espaço dramático do Velho Oeste norte-americano e a construção cinematográfica do sertão brasileiro: grandes áreas abertas, comunidades isoladas, grupos armados, perseguições, emboscadas, conflitos de honra, violência privada e instituições incapazes de exercer plenamente a autoridade.

O pesquisador Marcelo Dídimo utiliza a expressão mais ampla filmes de cangaço para reunir as diferentes formas pelas quais o fenômeno histórico foi representado no cinema. Dentro desse conjunto, o nordestern corresponde especialmente ao momento em que a produção passou a apresentar personagens, conflitos, estruturas narrativas e códigos visuais repetidos de filme para filme, formando um gênero reconhecível pelo público.

A Cinemateca Brasileira adota uma concepção abrangente. Na mostra Nordestern: bangue-bangue à brasileira, realizada em 2023, a instituição reuniu filmes de aventura, documentários, produções do Cinema Novo, obras da retomada e releituras contemporâneas como Bacurau e Sertânia.

O termo farnordeste também aparece em pesquisas acadêmicas para identificar a apropriação do modelo estético do faroeste pelo cinema ambientado no sertão brasileiro.

O termo western macaxeira é uma alusão ao western spaghetti italiano, utilizando o nome da mandioca, tubérculo conhecido como macaxeira no Norte e Nordeste do Brasil no lugar do ingrediente italiano.

Nem todo western brasileiro é necessariamente um nordestern, existem termos mais abrangentes, como western feijoada e faroeste caboclo que abarcam produções ambientadas em outras regiões do país. Filmes ambientados em outras regiões do país, relacionados a garimpo, disputas agrárias, fronteiras, roubo de gado ou pistoleiros urbanos, podem ser classificados como faroestes brasileiros sem ligação direta com o cangaço ou com o sertão nordestino. Da mesma forma, nem toda produção sobre o Nordeste utiliza convenções do western.

Um exemplo de obra de western fora do cenário nordestino é a telenovela Irmãos Coragem (1970), ambientada em Goiás. Esse diálogo cultural com o imaginário do Velho Oeste se manifesta de maneira particular na música sertaneja. Por intermédio das transformações da música sertaneja moderna, que absorveu influências do country estadunidense, elementos da estética e do estilo de vida do cowboy foram importados e integrados à cultura caipira, notadamente nas regiões do interior de São Paulo e do Grande Goiás. Essa fusão se refletiu em adereços como o chapéu e as botas, e em práticas como o rodeio, que se popularizaram no Brasil.

Contexto histórico e cultural thumb|cartaz de procura-se pela captura de Lampião. O cangaço foi uma manifestação de banditismo rural desenvolvida no Nordeste brasileiro, especialmente entre o final do século XIX e as primeiras décadas do século XX. Seus grupos armados percorriam áreas do sertão e mantinham relações variáveis com proprietários rurais, autoridades, comerciantes, coiteiros e populações locais. Entre os fatores históricos associados ao fenômeno encontram-se a concentração de terras, o coronelismo, as disputas familiares, a violência privada, a pobreza, as secas, as vinganças e a limitada presença do Estado em extensas áreas rurais. Normalmente os filmes se enquandaram como western contemporâneo por seem ambientados no século XX.

A figura do cangaceiro foi transformada em personagem cultural antes mesmo da consolidação do cinema sonoro. Jornais, relatos orais, cantorias, fotografias, literatura regionalista e cordel contribuíram para construir imagens contraditórias do cangaço, apresentando os cangaceiros como criminosos, vingadores, rebeldes, justiceiros, heróis populares, vítimas do coronelismo ou agentes da própria violência que combatiam. Essa mesma ambiguidade foi assimilada por Luiz Gonzaga, o Rei do Baião, que, ao transportar para o forró a figura do vaqueiro e do cangaceiro. Seguido por outros artistas do forró, Gonzaga consolidou a imagem do cangaceiro no imaginário popular.

Nesse processo, o cangaço e o faroeste tiveram caminhos similares no desenvolvimento da literatura popular barata. O Oeste americano foi amplamente retratado em dime novels e revistas pulp, publicações de baixo custo que popularizaram narrativas de cowboys, índios e pistoleiros para um público massivo. No Brasil, o cangaço encontrou suas primeiras representações na literatura tradicional, como o romance O Cabeleira (1876), do cearense Franklin Távora. Contudo, o equivalente mais próximo à literatura barata do hemisfério norte, em termos de circulação popular e linguagem acessível, foram os folhetos de poesia de cordel.

Assim como os fora-da-lei do Velho Oeste foram romantizados pela literatura e pelo cinema como símbolos de liberdade, os cangaceiros, especialmente Lampião, tiveram suas imagens construídas não apenas como criminosos, mas como vingadores do povo nordestino, dinâmica que o historiador Eric Hobsbawm classificou como banditismo social, na qual a violência do bandido é ressignificada como resistência contra a opressão dos poderosos. Esse fenômeno é antigo: Robin Hood, o célebre fora-da-lei inglês, já era celebrado em baladas e poemas medievais como um justiceiro que roubava dos ricos para dar aos pobres, numa dinâmica muito similar à dos folhetos de cordel. O cordel, aliás, deriva da poesia medieval europeia, transportando suas narrativas para o cenário do sertão brasileiro e forjando a imagem do cangaceiro como herói popular.

O nordestern herdou essas representações e as combinou com convenções internacionais de gênero. A imagem do cangaceiro no nordestern não corresponde, portanto, a uma reprodução neutra do personagem histórico, mas a uma construção elaborada por diferentes mídias, tradições narrativas e interesses políticos.

Antecedentes cinematográficos

Primeiros registros

No Brasil, a influência dos westerns começa ainda no cinema mudo com o filme Dioguinho de 1917, baseado em um bandido de mesmo nome. A presença do cangaço no cinema brasileiro antecede o aparecimento do nordestern como gênero organizado. Uma exibição realizada no Recife em 1917 apresentou imagens de Antônio Silvino preso na Casa de Detenção e manejando um rifle. O registro não constituía ainda uma narrativa ficcional, mas representa uma das primeiras aparições conhecidas de um cangaceiro nas telas.

Os primeiros filmes de ficção conhecidos a introduzir cangaceiros em suas narrativas foram realizados em Pernambuco e na Bahia durante o período silencioso. Entre eles encontram-se:

Filho sem Mãe, de Tancredo Seabra, exibido em 1925; Sangue de Irmão, de Jota Soares, realizado entre 1926 e 1927; Lampião, a Fera do Nordeste, de Guilherme Gáudio, de 1930.

Nenhuma dessas obras sobreviveu integralmente. A Cinemateca Brasileira reconhece esses títulos como os primórdios da representação cinematográfica do cangaço.

Em 1931, foi lançado o filme alagoado Um Bravo do Nordeste, inspirado nos faroestes e também considerado um filme perdido.

Benjamin Abrahão miniaturadaimagem|Lampião, o Rei do Cangaço de Benjamin Abrahão Entre 1936 e 1937, o fotógrafo e cinegrafista Benjamin Abrahão Botto registrou Lampião, Maria Bonita, Corisco, Dadá e outros integrantes dos bandos de cangaceiros. Com equipamentos fornecidos pela Aba Film, de Fortaleza, Abrahão realizou fotografias e imagens em movimento do cotidiano do grupo, incluindo deslocamentos, danças, refeições, poses armadas e atividades no acampamento.

O material foi apreendido durante o Estado Novo, sob a alegação de que sua exibição prejudicaria a imagem do país e das forças responsáveis pela repressão ao cangaço. Fragmentos posteriormente preservados tornaram-se documentos fundamentais para a iconografia do gênero.