Os pactos de Ácaba () foram dois acordos de fidelidade celebrados entre o profeta islâmico Maomé e habitantes de Iatrebe (posteriormente Medina) durante as peregrinações a Meca de 621 e 622. Firmados em um vale conhecido como Ácaba, nos limites de Mina, os pactos marcaram o início da aliança entre Maomé e os futuros ançares, lançando as bases para a Hégira e para a formação da primeira comunidade política islâmica em Medina. O primeiro, conhecido como Pacto das Mulheres (), consistiu num compromisso religioso e moral assumido por doze medinenses. O segundo, denominado Pacto da Guerra (), reuniu setenta e três homens e duas mulheres, que se comprometeram a proteger Maomé, inclusive pelas armas, caso emigrasse para Medina.

Local

Há diversos lugares conhecidos pelo nome de Ácaba na Península Arábica. O local onde foram celebrados os pactos situa-se em Meca, aproximadamente três quilômetros ao leste da Mesquita Sagrada, dentro dos limites de Mina. Trata-se de um pequeno vale cercado por colinas, nas proximidades da ponte Jamarate, junto ao ponto conhecido como , onde os peregrinos realizam o ritual do Apedrejamento do Diabo durante a peregrinação. Atualmente existe no local uma mesquita erguida em memória da fidelidade prestada pelos primeiros muçulmanos de Medina a Maomé.

Antecedentes

miniatura|300px|Miniatura islâmica que retrata Iblis (canto superior esquerdo) conspirando contra Maomé, observando uma reunião dos líderes dos coraixitas (entre eles Omaia ibne Calafe, Abu Sufiane ibne Harbe, Calide ibne Alualide e Anre ibne Alás) que discutem o Segundo Pacto de Ácaba, sendo espionados pelo fanático anti-islâmico "o Monge" , que faz parte do plano de Iblis

Durante os primeiros anos de sua missão profética, Maomé aproveitava a afluência de peregrinos provenientes de toda a Península Arábica para divulgar o islã entre as tribos que visitavam Meca durante a peregrinação anual e as feiras realizadas em seus arredores. Na estação de peregrinação correspondente ao décimo primeiro ano da missão profética (620), encontrou em Ácaba um grupo de seis homens da tribo dos cazerajitas, oriundos de Iatrebe, aos quais apresentou sua mensagem. Os seis aceitaram o islã e, instados por Maomé a acolhê-lo e protegê-lo em sua cidade, manifestaram a esperança de que a nova religião pudesse pôr fim às prolongadas guerras entre cazerajitas e aucitas. Antes de regressarem a Iatrebe, prometeram divulgar a nova fé entre os membros de ambas as tribos e reencontrar Maomé na peregrinação do ano seguinte. A atividade desse pequeno grupo em Iatrebe favoreceu a rápida expansão do islã na cidade. Em consequência, dez membros dos cazerajitas e dois dos aucitas viajaram a Meca no ano seguinte para cumprir a promessa feita a Maomé.

Primeiro Pacto de Ácaba

No mês de Dulrija do décimo segundo ano da missão profética (621), os doze habitantes de Iatrebe encontraram-se secretamente com Maomé em Ácaba e prestaram-lhe um compromisso de fidelidade. Prometeram não associar parceiros a Deus, não furtar, não cometer adultério, não matar os próprios filhos, não levantar falsas acusações e obedecer ao Profeta em tudo o que fosse correto. Como não previa qualquer obrigação militar, esse acordo passou a ser conhecido como Pacto das Mulheres (), em referência ao compromisso mencionado no . Após o pacto, Maomé enviou Muçabe ibne Omeir a Iatrebe para ensinar o Alcorão e instruir os novos convertidos. Durante o ano seguinte, sua atividade missionária contribuiu decisivamente para a difusão do islã na cidade, culminando na conversão de importantes chefes tribais, entre eles Sade ibne Muade e Uçaíde ibne Hudair, preparando Iatrebe para acolher a futura comunidade muçulmana.

Segundo Pacto de Ácaba

No décimo terceiro ano da missão profética (622), durante a peregrinação anual, setenta e cinco muçulmanos de Iatrebe — setenta e três homens e duas mulheres — partiram para Meca juntamente com outros peregrinos de sua cidade, ocultando seu verdadeiro propósito. Após concluírem os ritos da peregrinação, combinaram secretamente com Maomé um encontro noturno em Ácaba. Quando chegaram ao local, encontraram Maomé acompanhado apenas de seu tio Alabás ibne Abede Almotalibe, que, embora ainda não tivesse abraçado o islã, abriu a reunião com um discurso no qual recordou a posição respeitada de Maomé entre os coraixitas e advertiu os presentes sobre as consequências de levá-lo para Iatrebe. Ressaltou que, caso não estivessem dispostos a protegê-lo contra a oposição das demais tribos árabes, seria preferível desistirem do compromisso naquele momento. Os medinenses reafirmaram sua disposição de acolher Maomé e aceitaram as condições propostas. Em seguida, Maomé dirigiu-se aos presentes, recitou passagens do Alcorão, exortou-os a perseverarem no islã e convidou-os a prestar um compromisso de fidelidade. Os participantes prometeram protegê-lo da mesma forma que protegiam suas próprias famílias, obedecer-lhe tanto em tempos de prosperidade quanto de dificuldade, contribuir materialmente conforme suas possibilidades, promover o bem, impedir o mal e permanecer firmes na verdade sem receio da oposição de qualquer pessoa. Todos aceitaram essas condições e prestaram o pacto. Como parte do acordo, Maomé determinou a escolha de doze representantes (naquibes) para servirem de intermediários entre ele e a comunidade de Iatrebe. Esse compromisso passou a ser conhecido como Pacto da Guerra (), por incluir o dever de defender Maomé, inclusive pelas armas, caso necessário. Após a celebração do pacto, Maomé autorizou seus seguidores a emigrar para Iatrebe. Pouco tempo depois, ele próprio realizou a Hégira juntamente com Abu Becre, marcando o início do período medinense da história islâmica.

Historiografia

Embora a tradição islâmica distinga claramente dois pactos celebrados em Ácaba, alguns estudiosos ocidentais sustentaram que teria ocorrido apenas um encontro entre Maomé e os habitantes de Iatrebe. Essa interpretação baseia-se principalmente no fato de Atabari mencionar apenas um encontro em sua narrativa, bem como na circunstância de que a formulação do chamado Pacto das Mulheres, conforme preservada pelas fontes disponíveis, se fundamenta no Alcorão (60:12), passagem considerada posterior aos acontecimentos. Ainda assim, outros estudiosos observam que a complexidade das negociações tornaria mais provável a realização de mais de um encontro entre as partes.

Bibliografia

Categoria:621 Categoria:622 Categoria:Tratados de Maomé