Caibar () é um oásis histórico situado na região do Hejaz, no noroeste da Arábia Saudita, cerca de 180 quilômetros ao norte de Medina. Desenvolvido em um amplo vale cercado por terrenos vulcânicos, constituiu desde a Antiguidade um importante centro agrícola, comercial e fortificado, conhecido pela abundância de água, pelos extensos palmeirais e pelas numerosas fortalezas que protegiam seus habitantes. Localizado sobre a principal rota que ligava o sul ao norte da Península Arábica, tornou-se um dos principais entrepostos mercantis do Hejaz, frequentado por caravanas provenientes da Iêmen, Hadramaute, Barém, Taife, Síria, Palestina e Iraque.
Na Antiguidade Tardia, Caibar abrigava uma importante comunidade formada por tribos judaicas e grupos árabes judaizados, organizada em torno de diversas fortalezas e extensas propriedades agrícolas. A origem desse povoamento permanece objeto de diferentes tradições e hipóteses historiográficas. Durante o , o oásis tornou-se um dos principais centros judaicos do Hejaz, desempenhando papel relevante na política e na economia da Arábia ocidental em razão de sua posição estratégica, de sua prosperidade e de suas estreitas relações com Meca e Medina.
Caibar tornou-se particularmente célebre em 628, quando foi conquistada por Maomé durante a Campanha de Caibar, episódio que consolidou a posição do nascente Estado islâmico na Arábia ocidental. Após a rendição, seus habitantes judeus foram autorizados a permanecer na região mediante um acordo de parceria agrícola pelo qual conservaram o cultivo das terras em troca da entrega de parte da produção. Esse regime vigorou até o califado de Omar ibne Alcatabe , quando a comunidade judaica foi transferida para outras regiões do domínio islâmico, processo que posteriormente adquiriu grande importância nos debates jurídicos islâmicos sobre a administração das terras conquistadas.
Geografia
Caibar é o nome de um amplo vale e de seu principal núcleo habitado, situados aproximadamente 180 quilômetros ao norte de Medina, na região do Hejaz. O oásis encontra-se a cerca de 850 metros acima do nível do mar e ocupa uma área de harra, isto é, um extenso campo de origem vulcânica coberto por derrames basálticos. Seu principal assentamento desenvolveu-se no vale central, conhecido como uádi Zaidia. Na época moderna, a localidade constituiu um dos distritos administrativos da região de Jabal Xamar e compreendia diversas aldeias distribuídas ao longo do vale. Embora Caibar devesse sua fama histórica sobretudo aos acontecimentos ocorridos nos anos 7 e 20 A.H., e não às suas características naturais, os geógrafos árabes medievais destacaram reiteradamente a abundância de seus palmeirais. Segundo alguns autores medievais, o nome derivaria de uma palavra empregada pelos judeus da região com o significado de "fortaleza". Iacute Alhamaui acrescentou que, como existiam várias fortificações no oásis, a localidade também podia ser chamada pelo plural Caiabir. Outra tradição faz o topônimo remontar a Caibar ibne Cania ibne Malail, apontado como fundador da localidade. Iacute relacionou sete fortalezas principais: Naime, Camus — também chamada fortaleza de Abu Alhuçaique —, Xique, Netate, Sulalime, Uati e Catiba. Outros geógrafos e historiadores mencionaram ainda fortalezas e localidades menores, mas a correspondência entre a antiga nomenclatura e os lugares atualmente identificados permanece incerta.
Durante o período pré-islâmico, Caibar compreendia diversos oásis de grande fertilidade, irrigados por fontes, poços e barragens. A região destacava-se especialmente pela produção de tâmaras, e as fontes mencionam a existência de cerca de quarenta mil tamareiras apenas na área de Catiba na época de Maomé. As fortalezas distribuíam-se por três grandes setores — Netate, Xique e Catiba —, provavelmente separados por vales, terrenos pantanosos e antigos derrames de lava que constituíam barreiras naturais. Muitas delas funcionavam simultaneamente como residências fortificadas, armazéns, estábulos e centros de propriedades agrícolas, erguendo-se sobre colinas ou afloramentos basálticos e sendo cercadas por campos cultivados e palmeirais. A disposição irregular do relevo fazia com que não fosse possível avistar simultaneamente todas as fortificações, mesmo dos pontos mais elevados do oásis. As fontes também mencionam que Caibar era afetada por febres endêmicas, tradicionalmente temidas pelos árabes. Relatos de viajantes dos séculos XIX e XX descrevem áreas pantanosas, águas estagnadas, depósitos salinos nos vales e extensas formações de basalto escuro, elementos que contribuíam para tornar o ambiente pouco saudável. O explorador britânico Charles Montagu Doughty, que permaneceu no oásis entre novembro de 1877 e março de 1878, produziu a descrição moderna considerada pela Encyclopaedia of Islam como a mais completa da localidade, registrando uma paisagem dominada por extensos afloramentos de basalto negro e classificando o ambiente como particularmente desolado. Nas décadas seguintes foram construídas barragens para ampliar o aproveitamento dos recursos hídricos e uma estrada adequada ao tráfego de veículos passou a ligar Caibar a Medina, modificando parcialmente sua infraestrutura tradicional.
Favorecida por sua posição na principal rota comercial entre o sul e o norte da Península Arábica, Caibar constituiu um dos mais importantes centros mercantis do Hejaz. Além da produção local de frutas, hortaliças, produtos pecuários, mel e vinho, seus mercados comercializavam mercadorias oriundas de regiões tão distantes quanto a Índia e a China, bem como joias, armas, ferramentas agrícolas, tecidos e escravos. A atividade econômica concentrava-se sobretudo na agricultura, no artesanato, no comércio de longa distância e em operações financeiras, desempenhadas em grande parte pela comunidade judaica estabelecida no oásis. A atividade comercial atingia seu auge durante a famosa feira de Netate, considerada uma das principais do norte da Arábia e realizada anualmente entre os dias 10 e 30 de Moarrão, após a peregrinação. Nela reuniam-se negociantes provenientes de Meca, Iatrebe, Iêmen, Hadramaute, Barém, Taife, Síria, Palestina e Iraque.
História
Antiguidade e período pré-islâmico
Os registros mais antigos conhecidos sobre Caibar remontam ao reinado do último soberano do Império Neobabilônico, Nabonido . Uma inscrição descoberta em Harã em 1956 relata que, após estabelecer sua segunda capital em Temá, o monarca percorreu a região passando por Caibar e até alcançar Iatrebe. Outra inscrição bilíngue encontrada em , nas proximidades de Harã, registra que construiu Zelmertul em 463, um ano após uma expedição contra Caibar. Como essa data corresponderia a 568, a campanha foi associada ao reinado de , identificado em algumas fontes árabes como . Não se conhece com segurança quando os judeus se estabeleceram em Caibar nem a composição exata da população nos séculos anteriores ao islã. As tradições preservadas por historiadores muçulmanos afirmavam que a região fora inicialmente habitada pelos amalequitas, posteriormente expulsos pelos israelitas, enquanto outros relatos faziam remontar a colonização judaica aos tempos de Moisés, Josué, Saul ou Davi. No início do , alguns estudiosos propuseram que os judeus de Caibar descenderiam dos recabitas estabelecidos na região após a destruição do Primeiro Templo, hipótese igualmente sem confirmação histórica.
Segundo Laura Veccia Vaglieri, a formação da comunidade judaica de Caibar provavelmente esteve ligada aos movimentos migratórios que levaram grupos judaicos da Palestina para as regiões mais férteis do norte da Arábia. A autora considera plausível que esse processo tenha começado após a destruição de Jerusalém em 70 e prosseguido durante os séculos seguintes em consequência das perseguições sofridas pelos judeus. Em sua reconstrução, a imigração teria ocorrido em sucessivas vagas, sendo reforçada pela chegada de parentes, associados e outros membros das comunidades que já haviam encontrado no oásis condições favoráveis de estabelecimento. Trata-se, contudo, de uma hipótese historiográfica baseada em indícios, e não de um fato diretamente documentado pelas fontes antigas. Na época de Maomé, Caibar era habitada por tribos judaicas e por grupos árabes judaizados organizados em torno de diversas fortalezas e extensas propriedades agrícolas. A prosperidade do oásis decorria da combinação entre agricultura, artesanato, comércio e atividades financeiras. Seus habitantes estiveram entre os pioneiros da exploração agrícola intensiva dos oásis do norte da Arábia e destacavam-se pela produção e comercialização de armas, ferramentas, tecidos, joias e outros artigos manufaturados, além de exercer atividades de financiamento e empréstimo. Vaglieri considera provável que parte dessas operações fosse realizada em colaboração com tribos árabes da região, que atuariam como intermediárias comerciais junto às populações do interior da península, fornecendo os judeus o capital e as mercadorias e os árabes o contato com os mercados tribais do interior.
A importância econômica de Caibar também se refletia em suas relações com Meca e Medina. As fontes islâmicas relatam que, por ocasião de grandes festividades realizadas em Meca, era comum o aluguel de panelas de grandes dimensões e joias provenientes do oásis. Os vínculos comerciais favoreceram igualmente casamentos entre mulheres judias de Caibar e membros de importantes clãs coraixitas. Segundo a tradição islâmica, Haxime e seu irmão Almotalibe ibne Abede Manafe casaram-se com mulheres oriundas da região. Também é mencionado que a sacerdotisa consultada por Abede Almotalibe acerca do voto envolvendo um de seus filhos dividia sua permanência entre Medina e Caibar. A Encyclopadia of Islam considera que a riqueza acumulada pelos habitantes do oásis dificilmente pode ser explicada apenas pela agricultura e pelo artesanato destinados ao consumo local. Como indício de uma atividade comercial em maior escala, Vaglieri cita o inventário de objetos encontrados pelos muçulmanos após a conquista, entre os quais figuravam uma máquina de cerco, vinte fardos de tecidos iemenitas e quinhentos mantos. Segundo a autora, esses materiais provavelmente constituíam estoques destinados ao comércio regional, do mesmo modo que armas, lanças e escudos produzidos ou comercializados pelos habitantes de Caibar, interpretação que reforçaria o papel do oásis como um dos principais centros econômicos do norte da Arábia pré-islâmica. Na época de Maomé, Caibar constituía um dos principais centros judaicos do Hejaz e gozava de reputação como localidade fortificada de difícil conquista. Suas fortalezas, consideradas entre as mais sólidas da região, protegiam a população, as áreas agrícolas e as rotas comerciais que atravessavam o norte da Península Arábica, contribuindo para a autonomia política e econômica do oásis até sua conquista pelos muçulmanos em 628.
Campanha de Caibar