Dou-te-lo-vivo ou vivo-to-dou é um jogo tradicional português, conhecido desde o séc. XVI, que consiste em fazer passar um palito ou pau aceso de mão em mão, entre jogadores, perdendo o jogo aquele que deixar o lume apagar-se, por vezes tendo de responder a certa pergunta antes de poder passar o pau ou palito ao próximo jogador.

Na versão portuguesa do jogo, o jogador que entrega o palito aceso diz «Dou-te-lo-vivo» ou «Vivo-to-dou» ao que o jogador que irá receber o pau deverá responder «Vivo mo deste» e/ou «Vivo to tomei».Quando o palito se apaga nas mãos do jogador, determinando-se assim o fim da partida, diz-se «Morreu».

História Este jogo já marca presença na cultura portuguesa desde o séc. XVI, encontrando-se alusões ao mesmo nas Comédias de Jorge Ferreira de Vasconcelos e nos Autos de Gil Vicente.

O dou-te-lo-vivo afigura-se como um jogo quer do foro doméstico, como do foro religioso, e consistia em fazer passar de mão em mão, entre jogadores, um pau aceso, sendo que a pessoa em cuja mão o fogo se apagasse teria de pagar uma prenda ao jogador que detivera o pau antes de si.

No âmbito religioso o dou-te-lo-vivo assumia-se como um costume popular nalgumas festas de santos, em que os jogadores corriam com fogaréus ou fachos acesos, geralmente por ocasião da festa da Candelária ou Nossa Senhora das Candeias, com festa a 2 de Fevereiro.

Posteriormente, atento o intuito religioso e augural, houve nas Constituições dos Bispados ordem de proibição da queima de candeias, por meio deste jogo.

Abonações literárias Na obra «Comédia Aulegrafia» de Jorge Ferreira Vasconcelos, consta a seguinte alusão ao sobredito jogo:

Percursores históricos O historiador português, Teófilo Braga estabeleceu vários paralelos entre este jogo português e outros seus congéneres europeus, rastreando-lhes as origens aos gregos antigos, que se serviam de um divertimento semelhante nas festas dos casamentos, a que chamavam: Lampa-dophorein. No ensejo desse tipo de divertimento, os jovens corriam até certa distância com um facho aceso, e logo que este se apagava pagavam uma prenda ao rei do jogo.

Com efeito, Pausanias descreve-o como usado pelos rapazes junto do altar de Prometeu.

Espanha Este jogo também já existia em Espanha, desde finais do séc. XVI ou princípios do séc. XVII, constando da obra «Los Juegos de Noches Buenas à lo divino» de Alonso de Ledesma. Corresponde-lhe o nome «Sopla, vivo te lo doy»

Enquanto se passava o pau aceso pelo fogo tinha-se de se pronunciar o refrão:

Por vezes, as palavras deste refrão estavam reduzidas a escrito num papel, que se tinha de ler em voz alta, com clareza, não se podendo entregar o palito flamejante até ter acabado de ler o papel. Tal como na versão portuguesa do jogo, os jogadores não se podiam negar a receber o pau aceso e assim que o lume se apagasse teriam de pagar uma prenda ao vencedor.

Na versão espanhola do jogo, porém, adicionava-se mais um factor de dificuldade: ao dizer a palavra «soplo» (sopro) o jogador deveria soprar contra a chama, sem a apagar. Caso o sopro fosse demasiado fraco, como para não extinguir a chama, o rei ou presidente do jogo, posicionado ao centro do circulo de jogadores, para fiscalizar o cumprimento das regras, poderia impor que o jogador tivesse de repetir as palavras ou dá-lo sumariamente como perdedor, obrigando-o a ter de dar a prenda.

França Em França, este jogo denominava-se «Petit bonhomme, vit encore» (O bom homenzinho ainda vive) ou então Martin vit (Martim vive), durante a Idade Média, tendo chegado ao séc. XIX com o nome «Je vous vends mon allumette» (vendo-vos o meu fósforo).

Na versão medieval, em que se alternava o nome entre Petit bonhome ou Martin consoante a região do país, o diálogo que se trocava entre jogadores ao dar e receber o pau aceso era:

Na versão do séc. XIX, porém, o refrão pronunciado pelo jogador que recebia o fósforo era outro, nomeadamente:Sendo que, por seu turno, o jogador que entregava o fósforo dizia: Em França, ao praticar este jogo, as crianças formavam um círculo, sendo que uma delas acendia um pau ou palito e, ao passá-lo ao seu vizinho, repetiam-se as falas já acima explicitadas. O fósforo ia continuando a ser trocado de mão em mão sucessivamente ao longo do círculo, com cada jogador a repetir as mesmas palavras e passando o objecto aceso tão depressa quanto possível. Assim que o fósforo se apagasse, aquele em cuja mão ficasse era obrigado a pagar uma prenda ao que tivera o fósforo na mão antes dele. Assim que o fósforo se apagava, dizia-se: Petit Bonhomme est mort.» (o bom homenzinho morreu) ou então «Martin est mort» (O Martim morreu).

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