Alice Rezende da Silva (São José do Rio Preto, 1932 — São Paulo, 1961), conhecida no meio artístico como Alice Rezende, foi uma atriz, Cantora, Vedete e modelo vivo brasileira. Sua trajetória de vida e o conjunto documental que compõe o Dossiê Alice Rezende — integrante do Arquivo Nery Rezende — constituem hoje fontes para o estudo da memória, da cultura material e dos processos de integração social da população negra na cidade de São Paulo entre as décadas de 1950 e 1960.

Biografia e Infância Nascida no interior paulista, Alice foi a filha do meio de Florentino José da Silva, trabalhador do campo, e de Maria Helena Rezende da Silva, lavadeira, arrumadeira e empregada doméstica. Teve como irmãos Nestor da Silva, que faleceu precocemente aos nove meses; Nery Rezende, a irmã mais velha que, embora criada pelos padrinhos, manteve-se como o pilar de preservação de sua memória; e Jackson Rezende da Silva, integrado à família por adoção no ano de 1952 .

Carreira Artística Em 1951, Alice Rezende obtém seu registro profissional de artista emitido pelo Departamento Nacional do Trabalho, Divisão de Diversões Públicas . No mesmo ano, ela fez uma participação no filme “Terra é sempre terra”, dirigido por Tom Payne . No ano de 1952, a artista integrou no Teatro Experimental do Negro de São Paulo (TENSP), interpretando a personagem Selene na peça “O filho pródigo”, sob direção de Geraldo Campos de Oliveira . Nesse mesmo ano, ela posou como modelo vivo, possivelmente para o pintor ítalo-brasileiro Nelson Nóbrega, e do Grupo Santa Helena, cujos artistas eram frequentadores do Clubinho dos Artistas no qual Alice costumava se apresentar como integrante do grupo Mestre Durva e suas Pastoras.

Na Companhia Cinematográfica Vera Cruz, Alice contracenou com o então galã Anselmo Duarte em papel dramático no longa-metragem “Veneno”, dirigido por Gianni Pons, em 1953. Conforme anotações em seu diário, ela realizou testes para pelo menos outros três filmes da companhia (Sinhá Moça, dir. Tom Payne, 1952; Uma pulga na balança, dir. Luciano Salce, 1953; Anita Garibaldi, inconcluso, 1953). Ainda no ano de 1953, no programa TV de Vanguarda, exibido ao vivo na TV Tupi, a atriz deu vida à personagem Elaine na teledramaturgia “Mas não se mata cavalo?”, adaptada por Walter George Durst e Cassiano Gabus Mendes.

No Radiatro Experimental Negro, criado pelo empresário Augusto Barone e atuante na Rádio São Paulo, Alice foi radioatriz de destaque e participou de pelo menos quatro produções no ano de 1954.  No mesmo ano, passou a integrar o grupo musical Mestre Durva e Suas Pastoras, que se apresentava nos programas da Rádio Record. Foi vedete de destaque na Companhia de Revistas e Comédias Benjamin Oliveira entre 1955 e 1956, na qual atuava junto da irmã Nery – a exemplo das revistas musicais “Carnaval no Brás”, “Carnaval na Barra Funda” e “Terra de Amor” - esta última, encenada em 1956 no Teatro de Alumínio, posteriormente renomeado como Teatro das Bandeiras, localizado na região central da capital paulista.

Sua carreira foi interrompida, em 1956, devido ao agravamento de sua saúde. A artista faleceu em 1961, aos 28 anos, em São Paulo, vítima de um tumor cerebral.

Arquivo Pessoal e Legado no Museu Paulista A escassez de registros institucionais sobre Alice, comum a figuras populares e negras, torna o arquivo privado reunido por sua irmã, Nery Rezende, uma biografia.

O Arquivo Nery Rezende (ANR) e o Dossiê Alice Rezende, estão enquadrados na discussão sociológica da integração social de pessoas negras na sociedade paulistana, tema central do contexto pós-abolição.  O volume impressionante do ANR, com mais de 10 mil itens, é entendido como uma resposta material direta à exclusão institucional.

Alice se conectou ao meio artístico negro de São Paulo e seu dossiê documenta suas relações de trabalho e lazer, sendo crucial para traçar suas redes de sociabilidade. O auto-arquivamento garantiu a prova da existência social complexa de uma família negra, confrontando, assim, a falha das instituições hegemônicas.

O dossiê é o cerne da contribuição desta figura, constitutivo de um dos mais importantes arquivos orgânicos de documentação da experiência negra paulistana em uma grande instituição museológica brasileira.

Alice, por meio de seu dossiê, e Nery, ao reunir em seu arquivo o dossiê da irmã, atuaram como proto-arquivistas e historiadoras de si mesmas. Ao aceitar o arquivo, o Museu Paulista endossa a validade dessas vidas populares como parte da memória pública, e o arquivo se torna a materialização de uma luta por reconhecimento.

A contribuição mais significativa de Alice Rezende ao Museu do Ipiranga é sua função como um dispositivo de revisão institucional. Desde 2025, está em curso na instituição o projeto curatorial "Em Companhia de Alice Rezende: Uma Artista Negra no Museu do Ipiranga",  enquanto pós-doutorado em Estudo de Coleção Museal de Liliane Pereira Braga, realizado com financiamento do Fundo de Pesquisas do Museu Paulista da USPhttps://museudoipiranga.org.br/wp-content/uploads/2025/06/PROJETOS-SELECIONADOS-PELA-COMISSAO-DE-AVALIACAO-E-SELECAO-%E2%80%93.pdf. O projeto dialoga diretamente com os silêncios e vazios nas coleções desse museu. A salvaguarda do dossiê Alice Rezende oferece uma narrativa centrada na experiência negra, urbana e popular, que desafia os símbolos elitistas e coloniais.

Referências

Categoria:Atrizes do Brasil