Os amiritas ou Banu Amir ibne Saçaa () foram um grande agrupamento tribal árabe tradicionalmente incluído entre os hauazinitas e cuja genealogia era remontada a Adenane. Seus principais componentes incluíam os descendentes de Rabia ibne Amir, os numairitas e os hilalitas; de Rabia procediam, por sua vez, os quilabitas e os cabitas, subdivididos em numerosos clãs. A primeira referência conhecida aos amiritas ocorre numa inscrição sul-arábica do , datada do reinado de Abramo. Seu território original situava-se na Arábia central, estendendo-se aproximadamente desde a região de e até as terras altas ao sul da estrada entre Riade e Meca. Predominantemente beduínos e dedicados à criação de animais, seus diferentes ramos ocupavam extensos territórios de migração e mantiveram relações de aliança ou conflito com numerosos outros agrupamentos tribais da região.

No período pré-islâmico, os amiritas participaram de diversos conflitos dos Dias Árabes, entre os quais a , travada por volta de 580. No início da pregação de Maomé, mantinham vínculos estreitos com Meca e inicialmente recusaram seu convite para aderir ao Islã, embora a hostilidade comum aos gatafanitas favorecesse relações relativamente pacíficas com os muçulmanos de Medina. Mesmo o incidente de Bir Mauna, em 625, não ocasionou uma ruptura duradoura. A conversão dos diferentes grupos amiritas ocorreu gradualmente e completou-se após a vitória muçulmana na Batalha de Hunaine, em 630, quando delegações da tribo foram a Medina e aderiram ao Islã. Os amiritas praticamente não participaram das Guerras da Apostasia e tiveram atuação relativamente modesta nas primeiras conquistas muçulmanas.

As conquistas e os movimentos migratórios posteriores dispersaram diferentes ramos amiritas para regiões como o Alandalus, a Pérsia, o norte da Síria e a Jazira. Na Síria e na Alta Mesopotâmia, alguns deles adquiriram poder político a partir dos séculos X e XI: dos quilabitas surgiu a dinastia mirdássida, que governou Alepo e partes do norte da Síria, enquanto os numairitas e ucailitas, que haviam migrado para a Jazira entre aproximadamente 940 e 955, deram origem respectivamente aos numaíridas e ucaílidas. Na Arábia, os grupos remanescentes conservaram por mais tempo seu modo de vida tradicional, embora novas migrações tenham ocorrido durante o período abássida e em consequência das campanhas dos cármatas da Arábia Oriental.

Genealogia

Os amiritas eram um grande agrupamento tribal árabe. As genealogias árabes tradicionais faziam dos amiritas descendentes de Amir ibne Saçaa e integravam-nos ao conjunto dos hauazinitas. Seu ancestral epônimo tinha sua genealogia remontada a Adenane. Entre os principais componentes atribuídos ao agrupamento estavam os descendentes de Rabia ibne Amir, os numairitas e os hilalitas. De Rabia procediam dois dos ramos amiritas historicamente mais importantes, os quilabitas e os cabitas, cada qual subdividido em numerosos clãs. A composição registrada pelas genealogias, contudo, não necessariamente reproduz em todos os casos as relações tribais existentes nos períodos mais antigos. Caskel observa especificamente que os numairitas, embora incluídos entre os Banu Amir nas genealogias posteriores, figuram entre os grupos que habitavam anteriormente a região para a qual os quilabitas se expandiram e que acabaram ficando, em maior ou menor grau, sob sua influência.

Os quilabitas constituíam um dos maiores componentes do ramo de Rabia. Entre suas subdivisões estavam os , os abedalaítas (), os abubacritas () e os anritas (). Seus movimentos sazonais abrangiam uma extensa área da Arábia central: os dibabitas deslocavam-se entre a região central do e suas antigas aldeias próximas de ; os abedalaítas percorriam a região posteriormente conhecida como , enquanto os abubacritas migravam do sul do Hima em direção sudeste até , na estrada entre Riade e Meca. Os anritas, por sua vez, deslocavam-se do sudeste do Hima até . A partir dessas áreas, alguns desses grupos também realizavam movimentos para sudoeste em direção às terras altas ocupadas pelos amiritas.

Os cabitas constituíam o outro grande ramo descendente de Rabia. Entre suas subdivisões estavam os cuxairitas, os , os ucailitas e os . Os cuxairitas deslocavam-se ao norte do em direção à estrada que atravessava a região, enquanto os ajelanitas alcançavam essa mesma área acompanhando o vale. Os ucaílidas percorriam uma área particularmente extensa, partindo da região dos e em direção ao norte, até as terras altas, mas também avançavam para o sul em direção a Najrã. A amplitude desses deslocamentos fazia com que as áreas percorridas por quilabitas e cabitas se sobrepusessem numa extensão considerável. Caskel relaciona essa proximidade, somada à grande dimensão dos territórios de migração, à solidariedade frequentemente demonstrada pelos dois ramos diante de adversários externos. Essa coesão, porém, não implicava unidade política interna: tanto Quilabe quanto Cabe eram formados por numerosos grupos com interesses próprios e sujeitos a rivalidades entre seus componentes.

História

Período pré-islâmico

A primeira referência conhecida aos amiritas ocorre numa inscrição sul-arábica do , datada de 544–545 ou 547, durante o reinado de Abramo. A julgar pela inscrição sul-arábica e pela distribuição posterior dos amiritas, seu território original começava a oeste do oásis de Turaba e estendia-se para leste, passando por Rania, até as terras altas ao sul da estrada entre Riade e Meca. A fronteira noroeste desse território não pode ser determinada com precisão. A partir dessa área, diferentes ramos empreenderam movimentos próprios: os quilabitas avançaram para norte e noroeste, ocupando a região onde posteriormente foi estabelecido o Hima Daria, enquanto os cabitas avançaram para leste e nordeste, em direção à parte meridional do . Os hilalitas, por sua vez, permaneceram em seu território original, conhecido como . A maior parte dos amiritas levava uma vida nômade baseada na criação de animais. Alguns grupos passavam os meses de verão em Taife e deslocavam-se durante o inverno para o Négede, onde procuravam pastagens para seus rebanhos. A amplitude dos territórios percorridos pelos diferentes ramos favoreceu contatos frequentes entre eles. Quilabitas e cabitas, em particular, conservaram considerável solidariedade entre si, embora cada um desses agrupamentos apresentasse divisões internas próprias.

A expansão dos amiritas colocou seus diferentes ramos em contato e conflito com numerosas tribos da Arábia central. Os quilabitas tinham como vizinhos os tamimitas e os a leste, os açaditas a nordeste e diferentes grupos dos gatafanitas ao norte e noroeste, mantendo com eles um estado quase permanente de hostilidade. Em contrapartida, suas relações com os soleimitas e, sobretudo, com outros grupos hauazinitas, a sudoeste, eram amistosas. Ao sul, quilabitas e cabitas entraram em conflito principalmente com os catamitas, mas também com grupos sul-arábicos que haviam adotado um modo de vida beduíno e avançavam para o norte, entre eles os muraditas, e jufitas, estes últimos pertencentes aos descendentes de . Por outro lado, mantiveram inicialmente relações pacíficas com os alharititas e seus aliados e jarmitas, na região de Najrã, até que essa paz foi rompida pelas expedições de saque de Amir ibne Atufail.

Entre os principais episódios dos Dias Árabes envolvendo os amiritas esteve a , travada por volta de 580 na fronteira oriental do Hima Daria. Nela, os amiritas repeliram uma força formada por açaditas, dubianitas e membros do ramo dos tamimitas. Os amiritas também mantiveram relações inicialmente amistosas com os aduanitas, de Taife, com os quais estabeleceram vínculos de parentesco, mas posteriormente entraram em conflito e os expulsaram da cidade. Durante a Jailia, envolveram-se ainda em guerras com diversas outras tribos. Suas relações com os coraixitas, inicialmente boas, deterioraram-se depois que membros dos coraixitas atacaram uma mulher pertencente aos amiritas, episódio que acabou provocando um confronto entre os dois grupos. Entre os quilabitas, os exerciam uma autoridade pouco definida sobre os demais grupos, constituindo nessa época mais uma família dominante do que propriamente uma subtribo. Sua posição apoiava-se numa aliança com os anritas, embora os jafaritas nem sempre fossem capazes de impor sua autoridade aos abubacritas, então o mais poderoso ramo dos quilabitas. A fragmentação política interna contrastava, assim, com a solidariedade que os principais ramos amiritas podiam demonstrar diante de adversários externos.

Período islâmico

No início da pregação de Maomé, os amiritas mantinham vínculos estreitos com Meca e, assim como os habitantes da cidade, reconheciam a sacralidade da Caaba e de seus arredores. Maomé convidou membros dos Banu Amir que haviam ido a Meca a aderir ao Islã, mas sua proposta foi inicialmente recusada. Apesar disso, a existência de inimigos comuns entre os amiritas e os muçulmanos de Medina, sobretudo os gatafanitas, favoreceu relações relativamente pacíficas entre ambos os grupos. Essas relações sobreviveram inclusive ao Incidente de Bir Mauna, em 625. A pedido do chefe amirita , Maomé enviou um grupo de muçulmanos encarregado de divulgar o Islã entre as tribos da região, mas a missão foi atacada por iniciativa de Amir ibne Atufail, também pertencente aos Banu Amir. O episódio não provocou, contudo, uma ruptura duradoura entre os amiritas e Medina. Maomé procurou ainda estreitar seus vínculos com o grupo por meio de seus casamentos com Zainabe binte Cuzaima e Maimuna binte Alharite, ambas pertencentes aos amiritas. A adesão dos amiritas ao Islã ocorreu gradualmente. , chefe de uma das linhas mais antigas dos jafaritas e rival de Amir ibne Atufail, converteu-se ainda antes da submissão geral do agrupamento, enquanto Amir permaneceu contrário à nova religião. , acompanhado de seu filho e de um sobrinho, dirigiu-se a Medina, converteu-se e prestou juramento de fidelidade a Maomé. Depois da vitória muçulmana sobre os hauazinitas na Batalha de Hunaine, em 630, diferentes delegações amiritas foram a Medina e aderiram ao Islã, completando a integração do agrupamento à comunidade muçulmana sem resistência significativa. Durante as Guerras da Apostasia que se seguiram à morte de Maomé, os Banu Amir praticamente não participaram das revoltas contra a autoridade do califa Abu Becre .

Os amiritas tiveram participação relativamente modesta nas primeiras conquistas muçulmanas. Alguns de seus ramos, contudo, acompanharam os exércitos muçulmanos e acabaram estabelecendo-se longe de seus territórios de origem. Grupos dos ucailitas chegaram ao Alandalus com os exércitos sírios, enquanto membros dos e dos cuxairitas seguiram os contingentes de Cufa e Baçorá em direção à Pérsia. Outros grupos amiritas migraram depois das conquistas e estabeleceram-se no norte da Síria e além do Eufrates. Os amiritas estabelecidos nessas regiões seguiram trajetórias distintas. Parte dos que se fixaram no norte da Síria adotou progressivamente um modo de vida sedentário, enquanto grupos estabelecidos além do Eufrates voltaram gradualmente ao nomadismo. Nessa região reaparecem nas fontes vários dos antigos componentes dos Banu Amir, entre eles os quilabitas, cuxairitas, , ucailitas e numairitas. Os quilabitas permaneceram predominantemente no lado sírio do Eufrates e deles surgiu, no , a dinastia mirdássida, que governou Alepo e partes do norte da Síria. Os numairitas e ucailitas, por sua vez, atravessaram para a Jazira entre aproximadamente 940 e 955, e seus chefes adquiriram poder político nas décadas seguintes, dando origem, respectivamente, aos numaíridas e aos ucaílidas. Os grupos que permaneceram na Arábia conservaram por mais tempo seu modo de vida tradicional.