O ataque à casa de Fátima é a designação dada a um conjunto de tradições relativas aos confrontos ocorridos em Medina após a morte de Maomé, em 11 A.H. (632), durante a disputa em torno de sua sucessão. Depois da escolha de Abu Becre como chefe da comunidade muçulmana no Saquifa, parte dos haxemitas e alguns companheiros de Maomé reuniram-se na residência de Fátima e Ali, que sustentavam que este possuía melhor direito à sucessão. Fontes antigas, entre elas relatos preservados por Atabari e Albaladuri, registram que Omar se dirigiu à casa para obter o juramento de fidelidade de Ali e ameaçou incendiá-la caso seus ocupantes não saíssem. As tradições divergem, porém, quanto ao que ocorreu em seguida: algumas afirmam que o confronto terminou sem que Ali prestasse juramento naquele momento, enquanto outras situam sua submissão imediatamente após a ameaça ou apenas depois da morte de Fátima.

As versões mais extensas sobre uma incursão violenta contra a residência são preservadas sobretudo em fontes xiitas. Obras como o , o Alcafi, o e o relatam, com diferenças importantes entre si, que Fátima teria sido agredida durante a entrada dos homens na casa e que essas agressões teriam provocado a perda de seu filho e contribuído para sua morte pouco tempo depois. Outras fontes xiitas são mais reservadas: Aliacubi descreve uma invasão da residência, mas não relaciona Almocine a uma perda gestacional, enquanto Almufide menciona sua morte ainda no útero sem atribuí-la diretamente a Omar. A tradição sunita rejeita a narrativa segundo a qual Fátima tenha sofrido agressões físicas ou perdido a gravidez em consequência de um ataque, embora fontes historiográficas sunitas preservem relatos de ameaça de incêndio, entrada forçada na residência e coerção contra Ali e seus partidários.

A historicidade e a extensão da violência permanecem discutidas pela historiografia moderna. Wilferd Madelung considera incerto até que ponto houve emprego efetivo de força contra os moradores da casa, embora reconheça indícios de que a residência de Fátima foi revistada; Arthur Buehler recomenda cautela diante das versões mais violentas, enquanto Laura Veccia Vaglieri entende que as tradições xiitas podem conservar um núcleo histórico posteriormente ampliado. O episódio tornou-se central nas interpretações xiitas sobre os conflitos que se seguiram ao Saquifa, a posição de Ali e a morte de Fátima, e também se relaciona às tradições segundo as quais ela morreu sem se reconciliar com Abu Becre e Omar e foi sepultada discretamente durante a noite. Nas fontes sunitas, por outro lado, prevalece a interpretação de que Fátima morreu em consequência do pesar pela morte de Maomé e que Almocine faleceu ainda criança por causas naturais.

Contexto histórico

Imediatamente após a morte de Maomé, em 11 A.H. (632), os ançares, muçulmanos de Medina, reuniram-se no Saquifa, pórtico dos Banu Saída. A interpretação tradicional é que pretendiam escolher entre si um novo líder para a comunidade muçulmana. Madelung, contudo, considera que a ausência dos emigrantes de Meca na reunião pode indicar que os ançares pretendiam antes restabelecer seu controle sobre Medina, supondo que a maioria dos emigrantes retornaria a Meca depois da morte de Maomé. Abu Becre e Omar, ambos companheiros de Maomé, foram informados da reunião e dirigiram-se ao local acompanhados por Abu Ubaida ibne Aljarrá, constituindo os únicos representantes dos emigrantes ali presentes. Depois de uma sessão acalorada, durante a qual um chefe ançar foi agredido em meio à disputa, os presentes no Saquifa reconheceram Abu Becre como novo chefe da comunidade. Na tradição xiita, a escolha realizada no Saquifa é considerada ilegítima porque Maomé já teria designado Ali como seu sucessor no Gadir Cume, interpretação segundo a qual não haveria razão para uma nova escolha após sua morte.

A reunião no Saquifa ocorreu sem a participação da família de Maomé, então ocupada com seus preparativos funerários, e da maior parte dos emigrantes. Alguns deles se opuseram à escolha de Abu Becre. O historiador sunita Albaladuri (m. 892) relata que membros dos haxemitas, clã de Maomé, e alguns de seus companheiros reuniram-se em protesto na casa de Fátima. Segundo Madelung, encontravam-se entre eles o tio de Maomé Alabás ibne Abede Almotalibe e Azobair ibne Alauame. Os opositores, entre os quais Fátima, sustentavam que Ali possuía melhor direito à sucessão de Maomé, reivindicação que algumas tradições relacionam ao episódio do Gadir Cume. Relata-se que Ali apresentou essa posição diretamente a Abu Becre ou a seus representantes. Há também relatos segundo os quais Ali e Fátima visitaram os ançares em suas casas para solicitar seu apoio.

Pouco depois da reunião no Saquifa, Abu Becre teria encarregado Omar de obter o juramento de fidelidade de Ali. Segundo uma tradição registrada pelo historiador sunita Atabari, Omar dirigiu-se à residência de Ali acompanhado de homens armados e ameaçou incendiar a casa caso Ali e seus partidários não jurassem fidelidade a Abu Becre. Atabari atribui a Omar a ameaça de incendiar a residência caso seus ocupantes não saíssem para prestar o juramento. O confronto tornou-se violento, e Azobair foi desarmado e retirado do local. Segundo Atabari, ele saiu da casa com a espada desembainhada, tropeçou e foi então dominado pelos homens presentes. Segundo o e Aliacubi, o grupo acabou recuando sem obter o juramento de Ali depois que Fátima interveio. Fátima, contudo, não aparece no relato correspondente de Atabari. Albaladuri preserva uma versão diferente, segundo a qual Ali cedeu e jurou fidelidade a Abu Becre logo após a ameaça de Omar. Em contraste, as coleções canônicas sunitas Sahih al-Bukhari e Sahih Muslim situam o juramento apenas depois da morte de Fátima, algum tempo mais tarde. Soufi observa que, com uma exceção, as tradições citadas por Atabari e Albaladuri acerca do conflito não possuem cadeias de transmissão que remontem diretamente à época dos acontecimentos.

Madelung considera que Abu Becre posteriormente promoveu uma forma de boicote político a Ali e, de maneira mais ampla, aos haxemitas, procurando fazê-los abandonar sua oposição. Um hádice sunita atribuído a Aixa afirma que homens proeminentes deixaram de falar com Ali nesse período. Lesley Hazleton escreve de maneira semelhante que Ali chegou a rezar sozinho na mesquita. Jafri acrescenta que seus partidários iniciais gradualmente se afastaram e prestaram juramento a Abu Becre. Hazleton considera que, ao final, apenas Fátima e os quatro filhos pequenos do casal permaneceriam ao lado de Ali, interpretação compatível com uma declaração posteriormente atribuída a ele no Naje Albalaga.Ao mesmo tempo, Ali rejeitou propostas para reivindicar o califado pela força, entre elas uma oferta de Abu Sufiane ibne Harbe. Veccia Vaglieri interpreta essa recusa como indício de que Ali não estava disposto a disputar o califado naquele momento. Momen, Jafri e Ayoub, em contraste, consideram que ele recusou essas propostas sobretudo porque temia que um confronto armado destruísse a ainda nascente comunidade islâmica. Momen acrescenta que o apoio restante à candidatura de Ali se dissipou à medida que ele se recusava a promovê-la ativamente.

Diversos autores modernos destacam a reputação de severidade de Omar e alguns também lhe atribuem atitudes misóginas, aspectos particularmente enfatizados nas fontes xiitas. Uma tradição sunita atribuída a Aixa menciona a "severidade de Omar" (shidda) como razão para que ele fosse excluído de uma suposta tentativa de reconciliação entre Ali e Abu Becre. Kelen relata ainda uma tradição segundo a qual Omar teria agredido a própria irmã ao descobrir que ela havia abraçado o Islã antes dele. Madelung relaciona igualmente a reputação de Omar por tratamento áspero das mulheres à resistência inicial de à proposta de casamento dele.

Relatos xiitas

O que ocorreu depois do confronto inicial na casa de Fátima permanece incerto. Algumas fontes xiitas consideradas canônicas afirmam que Fátima sofreu fraturas nas costelas durante uma incursão contra sua casa liderada por Omar. Segundo essas tradições, Fátima estava grávida e perdeu o filho, , cujo nome teria sido escolhido por Maomé antes de sua morte.

Kitab Sulaym ibn Qays

Talvez o mais antigo relato xiita pormenorizado da incursão atribuída a Omar seja encontrado no (). A atribuição dessa coletânea de hádices a , que teria sido próximo de Ali, é tradicionalmente rejeitada por estudiosos sunitas. Uma tradição xiita afirma, por outro lado, que Maomé Albaquir, o quinto imame na doutrina duodecimana, confirmou a autenticidade da obra quando consultado a respeito dela. Ainda assim, não existe consenso nem mesmo entre estudiosos xiitas quanto à confiabilidade do livro em sua totalidade. Após analisar o texto, Hossein Modarressi considera que seu núcleo foi preservado e remonta a período anterior a 138 A.H., embora algumas passagens possam ser mais recentes, como a previsão da chegada de bandeiras negras vindas do Oriente antes da queda dos omíadas. Khetia observa que, dentro da tradição xiita, passagens desse tipo foram também interpretadas como profecias atribuídas a Maomé ou aos imames, em vez de anacronismos.

Grande parte da narrativa dos acontecimentos posteriores ao Saquifa no Kitab Sulaym ibn Qays apresenta paralelos com relatos históricos sunitas, mas a obra acrescenta uma descrição explícita de uma incursão liderada por Omar contra a casa de Fátima depois de sucessivas tentativas de obter a submissão de Ali. O relato é atribuído a Salmane, o Persa, companheiro de Maomé e de Ali. Segundo essa narrativa, Fátima recusou-se a permitir a entrada do grupo, após o que Omar teria incendiado a porta e entrado à força na residência apesar de seus protestos. A obra afirma que, diante da resistência de Fátima, Omar a agrediu com uma espada embainhada. Os homens teriam então dominado Ali e o arrastado para fora, golpeando novamente Fátima quando ela tentou impedi-los. O relato acrescenta que ela ainda apresentava marcas das agressões quando morreu pouco tempo depois. Soufi observa que uma versão ligeiramente diferente da obra menciona também a perda da gravidez de Fátima, enquanto outra versão resumida faz apenas referência ao papel de Omar no episódio. Em todas elas, Ali ou Fátima aparecem discutindo com Abu Becre e Omar acerca dos direitos dos Ahl al-Bayt.

Alcafi

O Alcafi é uma coleção canônica de hádices duodecimanos compilada por Alculaini (m. 941). A obra contém uma tradição atribuída a Muça Alcazim, sétimo imame na doutrina duodecimana, que descreve Fátima como mártir (shahīda). O relato é transmitido por Ali ibne Jafar Açadique, irmão de Alcazim, considerado nas ciências duodecimanas do hádice um transmissor prolífico e confiável. Em razão disso, essa tradição é tida como autêntica por parte significativa dos estudiosos duodecimanos.

Kamil al-Ziyarat

O foi compilado por , morto em 368 A.H. (977), importante tradicionalista duodecimano. A obra contém um hádice atribuído a Jafar Açadique, sexto imame, no qual Maomé teria sido informado durante o Isra acerca das mortes violentas que atingiriam membros de sua família. Em relação a Fátima, o relato menciona a perda de uma gravidez e sua morte em consequência de ferimentos sofridos numa incursão contra sua residência. A tradição é transmitida por Hamade ibne Otomão, conhecido companheiro de Jafar Açadique, e é por isso considerada autêntica em círculos duodecimanos de estudos do hádice. Khetia considera essa obra o testemunho mais antigo que relaciona explicitamente a perda da gravidez de Fátima à incursão atribuída a Omar. Soufi, por outro lado, observa que uma versão do Kitab Sulaym ibn Qays já menciona a perda da gravidez durante o ataque. Além dessas obras, várias fontes registram um quinto filho de Fátima chamado Almocine, embora as fontes sunitas sustentem que ele nasceu e morreu ainda criança.

História de Iacubi