Renée Simon é uma das figuras mais emblemáticas da dança franco brasileira. Reconhecida internacionalmente por sua atuação como bailarina, mestra, coreógrafa e pedagoga, construiu uma obra que une rigor técnico, pesquisa anatômica e uma visão profundamente humanista do movimento. Sua metodologia — hoje transmitida em diversos países — consolidou a como uma das grandes referências da pedagogia da dança no século XX.
Origens e infância Filha da atriz e cantora Irema Isis e do jornalista francês Jean Baptiste Simon, Renée nasceu enquanto os pais estavam em turnê com a companhia os companheiros de Eva, dirigida por Luiz Iglezias ( padrinhos de Renée). Veio ao mundo literalmente no palco, durante um espetáculo, origem simbólica para uma artista que dedicaria toda a vida ao movimento.
Após o nascimento, a família retorna a Laranjeiras, no Rio de Janeiro. Durante a Segunda Guerra Mundial, o general Charles de Gaulle convoca os franceses residentes no exterior para integrar a resistência. Jean Simon é enviado à guerra, declarado desaparecido e posteriormente dado como morto.
Renée iniciou os estudos aos três anos no Liceu Franco Brasileiro, em Laranjeiras. Aos oito anos, Irema casa se com o juiz Carlos Couto, apaixonado pelo teatro. Com a mudança para Niterói, prosseguiu no Colégio Figueiredo e no Liceu Nilo Peçanha.tribuna_da_imprensa_19_dezembro_1951
Renée cresce em um ambiente cultural vibrante, entre palcos, rádio e televisão, acompanhando a mãe e o padrasto em turnês e integrando a Companhia de Teatro Carlos Couto nos anos 1952.
Educação e formação artística
Sua formação em dança clássica começou com Juliana Ianakiewa de Carvalho e Ivone Maia Forte en Niterói. Aos 12 anos, ingressou na Escola de Dança do Teatro Municipal do Rio de Janeiro, onde teve como mestra principal Nina Verchinina e D. Consuelo Rios, influenciaram profundamente sua carreira e teve como professores:
Olga Morosava Renée Wells Eugenia Feodorova Tatiana Leskova Artur Ferreira David Dupré
Concluiu seus estudos em 1959, integrou o corpo de baile do Teatro Municipal e recebeu o diploma de Professora de Ballet em 1961.Diploma em acervo familia Braga - Simon - Couto
No final dos anos 1950, Renée foi selecionada pelo coreógrafo dinamarquês Harald Lander para participar do ballet l’Étude, obra prima do repertório clássico do século XX. A escolha direta de Lander evidencia sua qualidade técnica e artística dentro do Ballet do Teatro Municipal.Acervo familia Braga - Simon - Couto o artigo é super completo sobre a vida da bailarina Diarios de Notícias 29/11/1970
Herdeira de uma linhagem artística, seu bisavô Léon Simon foi pintor e aquarelista francês. Renée formou se também pela Escola de Belas Artes do Rio de Janeiro, aprofundando sua compreensão anatômica, estética e escultórica do movimento.
Viagem à França (1961) Determinada a ampliar sua formação e conhecer o país de origem do pai, Renée viaja para Paris em 1961. Estuda com alguns dos maiores nomes da dança europeia, na Alemanha teve aulas com Tatiana Gsorky, na Bélgica com seu grande amigo Victor Gsorky, na França trabalhou muito com Georges Reich. Teve como professores:
Serge Peretti Yura Loboff Jacques Ribes Olga Morosava (irmã de Nina Verchinina) Victor Gsovsky Lubov Egorova Nora Kiss Boris Kniaseff - cuja técnica de barre au sol influenciaria profundamente sua futura metodologia
Paralelamente, inicia estudos de jazz com Gene Robinson, Valerie Camille e Katherine Dunham. Paris vivia uma efervescência artística marcada pela chegada de bailarinos americanos que difundiam técnicas modernas, contemporâneas e de jazz.
Renée atuou como bailarina de Fernando Rego no Casino de Paris, onde dançou ao lado de Rudolf Leine (seu futuro marido). Trabalhou também com Dick Sanders, Peter Jackson e Rudi Wonwir, e durante anos participou de produções no Théâtre du Châtelet.
Em 1964 nasce seu filho Carlos Alexandre, que têm com padrinho um bailarino brasileiro chamado Antonio Brigoni (foi o primeiro bailarino brasileiro a ter dançado na Opéra), ele trabalha com Roland Petit e o trio inseparável de balarinos viviam entre os espétaculos, aulas e o petit Charles.
Acidente em Paris Poucos sabem que Renée sofreu um grave acidente em cena: o palco de vidro quebrou e a bailarina foi projetada sobre a orquestra. Gravemente machucada, passou por longa reeducação dos braços e pernas. Recuperou se graças ao trabalho com Kniaseff e aos estudos nos Estados Unidos, mas foi sua formação em artes plásticas que completou a reabilitação: ao modelar corpos humanos em escultura, recuperou força e sensibilidade. Essa experiência contribuiu para a criação de seu próprio método.
Retorno ao Brasil (1967–1970) Em 1967, Renée e Rudolf Leine retornam ao Brasil e abrem uma escola em Niterói, o Studio Confiança, com colaboração do padrasto Carlos Couto.
Em 1967, Renée recebe o Diploma de Honra ao Mérito como Melhor Bailarina do Ano, conferido pelo Governo do Estado do Rio de Janeiro, pela Prefeitura de Niterói e pela Universidade Brasileira de Artes.
Em 1968, é convidada pela Universidade Federal Fluminense (UFF) para criar e dirigir o Curso de Ballet Experimental, que deu origem ao primeiro Balé da Cidade. O grupo destacou se em apresentações no Teatro Municipal de Niterói, na Reitoria da UFF, no Teatro Alvorada e em programas da TV Educativa. Posteriormente, passou a chamar se Ballet Arte e Gente.
Balé da cidade
Préludio (Bachianas 7) - música de Villa Lobos Fantasia (Bachiana 7) - música de Villa Lobos Fuga (Bachiana 7) - música de Villa Lobos Jazz - música de Dave Brubeck Bachiana 5 - música de Villa Lobos MGT 3500 - sobre o ritmo estrutural - Coreografias de Rudolf LEINE Bailarinos: Irma BAUBERGER, Maria Alice CANAMO, Claudette de CARVALHO, Carlos DEMITRE, José Carlos GONDIM, Liza Maria GUERREIRO, Tânia MELLO, Carla PATITTUCCI, Vera Lourdes PESTANA, Ana Maria ROSA, Sílvia TUBENCHLAK, Vera TUBENCHLAK, Angela ULMAN e Maria Lúcia VIANNA Coreografias e Direção Geral de Renée SIMON
Chicago – New York – Paris Em outubro de 1970, a UFF envia Renée aos Estados Unidos para intercâmbio cultural. Em Chicago e Nova York, continua sua formação com Richard Ellis, Christine Du Boulay, Gus Giordano, Judy Joseph e Ken Breslsfoard.
Após dificuldades profissionais e o divórcio, Renée retorna à França, dançou coreografias de seu amigo Roland Petit e teve aulas com Pereti. Com Loboff, foi aluna e professora em sua escola e começou a lecionar nos Studios Constant e Studio Wacker, dois dos melhores centros de dança de Paris.
Retorno definitivo ao Brasil (1972) Durante uma visita ao Brasil, Renée conhece o mannequin e ator Rodolfo Thompson, com quem terá três filhos: Othon, Désirée e Carla.
Começa a lecionar na escola de Juliana Ianakiewa, onde iniciou sua formação.
Escola Brasileira de Artes (ESBA) e Companhia Franco Brasileira de Dança Em 1976, Renée inaugura a Escola Brasileira de Artes (ESBA), reunindo professores vindos da França e do Brasil. A escola oferecia cursos de dança clássica, jazz, moderna, folclórica e contemporânea; teatro; formação musical (em parceria com o Conservatório de Niterói); fisiologia e anatomia (com a Pestalozzi); e francês (em convênio com a Aliança Francesa).
Todos os membros da família contribuíam para o trabalho na Escola de Dança. Sua mãe, Irema Isis, auxiliava na administração e na organização dos eventos; seu padrasto, Carlos Couto, ministrava aulas de teatro e comunicação; seu marido Rodolfo Thompson, já advogado, prestava assistência jurídica à instituição.
A prima Alzinette Braga (bailarina e fisioterapeuta) ministrava aulas de dança, o Método Simon e também lecionava curso de Anatomia; Othon colaborou durante anos como diretor da ESBA, o filho mais velho, Carlos‑Alexandre formou‑se em Folclore, tornou‑se Mestre de Capoeira e fundou o primeiro grupo de capoeira na cidade de Angers e as filhas Désirée e Carla‑Alexandrine continuam até hoje a manter vivo o legado da mãe, ensinando o Método Simon na França.
Uma família inteiramente dedicada à arte.
A ESBA formou gerações de bailarinos, professores e coreógrafos, tornando‑se um dos polos mais importantes da dança no estado do Rio de Janeiro, cujos ensinamentos continuam vivos hoje em vários países.
Em 1990, Renée cria a Companhia Franco‑Brasileira de Dança, vinculada à ESBA e os alunos tinham choregrafias assinadas por choréografos vindos do Brasil ou extérior e participavam à diversos festivais de dança, concursos e eventos semi-profissionais e profissionais.
Em 1993, com o falecimento do pai que tinha criado o Teatro de Varandas, no sitio familial em 1981 ela deseja fazer uma homenagem em mudando o nome para Teatro Carlos Couto. O espaço passa a sediar aulas, ensaios e apresentações.
Em 2002, Renée recebe uma Moção de Aplausos da cidade de Niterói, reconhecendo oficialmente sua trajetória e contribuição cultural.
Falecimento No dia 22 de março de 2012, Renée Simon faleceu em Niterói, encerrando uma trajetória marcada pela dedicação absoluta à dança e à formação artística. Sua metodologia, construída ao longo de décadas de pesquisa, permanece viva através dos seus filhos, netos e bisnetos. que continuam a transmitir seu trabalho, assim como tantos alunos pelo mundo afora, formados diretamente por Renée ou por sua escola e companhia.
Legado Setenta anos de entrega ao movimento: uma vida inteira moldada pela arte, respirada no palco, ensinada com rigor e ternura, transmitida como herança viva aos que seguiram seus passos. Renée Simon fez do corpo um instrumento de consciência e da dança um modo de existir ... e sua trajetória permanece acesa em cada gesto que ainda ecoa seu método, sua visão e sua alma.
Coragem meus filhinos!!! Doce frase que escutamos para todas nossas vidas.
Referências
Categoria:Dança Categoria:Artistas Categoria:Bailarinas Categoria:Franco-brasileira Categoria:Niterói Categoria:Método Simon Categoria:Escola Brasileira de Artes Categoria:Família de Artistas Categoria:Familia Braga - Simon - Couto