Paula da Silva Santos (também grafada como Paula da Silva Campos)As fontes bibliográficas do Projeto Sal60 divergem quanto ao sobrenome de batismo da biografada, utilizando tanto "Campos" quanto "Santos". (Cantagalo, ? — 2001), mais conhecida como Paula do Salgueiro, foi uma célebre passista, dançarina e modelo brasileira. Considerada um dos grandes expoentes femininos do Carnaval carioca e uma das criadoras do conceito de "samba no pé", ajudou a consolidar a figura da passista na década de 1960. Segundo relatos históricos, a própria palavra "passista" foi cunhada originalmente para defini-la.TINOCO, Felipe. Texto sobre Paula do Salgueiro. Projeto Sal60.
Biografia
Primeiros anos Nascida no município de Cantagalo, no interior do estado do Rio de Janeiro, Paula cresceu em contato direto com manifestações culturais afro-brasileiras, como o Caxambu e a Folia de Reis. Ainda na infância, após o falecimento de seu pai, mudou-se com a mãe e seus nove irmãos para a cidade de Niterói. Devido às condições socioeconômicas do período, trabalhou como empregada doméstica. Ao longo de sua juventude, antes de focar exclusivamente no Carnaval, também atuou fazendo figuração em peças de teatro e como aderecista.
Descoberta e Acadêmicos do Salgueiro Sua trajetória no samba iniciou-se na década de 1940 na escola de Niterói Combinado do Amor. Sua dedicação intensa à dança foi, inicialmente, motivada por uma desilusão amorosa após o fim de um casamento prematuro.PEREIRA, Bárbara. Um monumento ao samba no pé. Revisão de Luise Campos. Projeto Sal60.
Foi descoberta de forma inusitada por diretores do Acadêmicos do Salgueiro enquanto dançava na Praça Saens Peña, tradicional polo cultural da Tijuca. Convidada a visitar o Morro do Salgueiro, Paula compareceu à quadra vestida de azul e branco, as cores de sua agremiação do coração em Niterói. A escolha cromática causou forte atrito com outras componentes salgueirenses, chegando quase às vias de fato no território vermelho e branco.
Apesar do incidente, Paula conquistou seu espaço e desfilou no Salgueiro em 1954, o primeiro ano após a fusão que originou a atual agremiação. Em 1960, vestida de baiana inspirada na estética de Carmen Miranda (sua grande musa), desfilou para um patrocínio da Coca-Cola e foi considerada uma das principais atrações do desfile pelo Jornal do Brasil. Seu destaque orgânico atraía os holofotes da mídia. Nos anos seguintes, viveu personagens marcantes na avenida, como a representação das riquezas no histórico enredo Chico Rei (1964) e a figura de Tia Ciata (1965). miniaturadaimagem|Paula desfilando pelo Salgueiro, em 1964.
A criação do termo "Passista" O carisma e o domínio corporal de Paula na avenida fugiam das nomenclaturas da época. Ela não se enquadrava como uma "bailarina" clássica aos olhos da elite da época, nem apenas como uma "cabrocha". A princípio, os jornais passaram a chamá-la de "malabarista". Posteriormente, a imprensa e o meio do samba adotaram o termo "passista" unicamente para designar sua forma ímpar de se movimentar, riscar o chão e interagir com o público. De acordo com o pesquisador José Carlos Rego, movimentos como o ziguezague, o agachadinho e o dizque tornaram-se assinaturas de Paula.REGO, José Carlos. Dança do samba, exercício de prazer. Rio de Janeiro: Aldeia/Imprensa Oficial RJ, 1996.
Passagem pela Tradição e últimos anos Na década de 1980, Paula participou do período de fundação da escola de samba Tradição, dissidência da Portela. Ela defendeu o pavilhão da agremiação por três anos, mas enfrentou severas dificuldades financeiras. Ilustrando a precarização dos artistas populares do Carnaval, Paula precisou escolher entre ter um teto para morar ou custear as fantasias, e o desfile acabou sendo preterido. Com a saúde debilitada por uma artrose nas articulações, foi incentivada a se aposentar das avenidas.
Outras atuações O sucesso monumental de Paula do Salgueiro levou-a a excursões internacionais. Ela integrou alguns dos mais expressivos grupos folclóricos do Brasil, como a companhia de Mercedes Baptista (primeira bailarina negra do Theatro Municipal), o grupo de Solano Trindade, e o grupo Brasiliana, dirigido por Haroldo Costa.
No campo das artes plásticas, atuou por muitos anos como modelo vivo na Escola de Belas Artes (EBA) e foi musa inspiradora do pintor modernista Di Cavalcanti.
Legado Paula faleceu em 2001, deixando sua marca definitiva na história cultural brasileira. A revista Manchete, em edição de 1973, declarou: "Paula do Salgueiro não é destaque apenas de sua escola. Ela é mais do que isso, porque simboliza o Carnaval e em sentido mais largo o próprio espírito do povo carioca (...) unidos num ritmo de cor e de som, alma aberta à alegria, corpo-oferenda ao amor".
Seus ensinamentos e seu estilo serviram de escola para grandes nomes que a sucederam, como Narcisa, que seria futuramente rainha do Salgueiro e teve em Paula sua inspiração e professora.
Bibliografia
BRUNO, Leonardo. Explode coração – Histórias do Salgueiro. Rio de Janeiro, 2013. FARIA, Guilherme José Motta. História e memória: a construção do mito Isabel Valença, a Chica da Silva do GRES Acadêmicos do Salgueiro pela imprensa carioca. CLIO – Revista de Pesquisa Histórica, n. 31, v. 1, 2013. IPHAN. Dossiê Matrizes do Samba do Rio de Janeiro. Brasília: IPHAN, 2007. PEREIRA, Bárbara Regina. Pé, cadeira e cadência: trajetórias e memórias de passistas de escolas de samba do Rio de Janeiro. Meu samba, minha vida, minhas regras. Tese apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Memória Social da UNIRIO, 2019. PEREIRA, Bárbara. Um monumento ao samba no pé. Revisão de Luise Campos. Projeto Sal60. REGO, José Carlos. Dança do samba, exercício de prazer. Rio de Janeiro: Aldeia/Imprensa Oficial RJ, 1996. TINOCO, Felipe. Texto sobre Paula do Salgueiro. Livro Projeto Sal60.
Ligações externas
IPHAN - Matrizes do Samba no Rio de Janeiro G.R.E.S. Acadêmicos do Salgueiro (Site Oficial)
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