O Acordo de Crédito Germano-Soviético (também denominado Acordo Comercial e de Crédito Germano-Soviético)Documents on German Foreign Policy, 1918-1945. Series D (1937–1945) Washington, D.C.: U.S. Gov. Printing Office, 1949-64 vol. v. VI The last months of peace, March-Aug. 1939.--v. VII The last days of peace, Aug. 9-Sept. 3, 1939, assinado em 19 de agosto de 1939 foi um arranjo econômico entre a Alemanha Nazista e a União Soviética, por meio do qual esta última recebeu um crédito de aceitação de 200 milhões de Reichsmarks ao longo de sete anos, com uma taxa de juros efetiva de 4,5%. A linha de crédito destinava-se a ser utilizada durante os dois anos seguintes para a compra de bens de capital (equipamentos de fábrica, instalações industriais, maquinários e máquinas-ferramentas, navios, veículos e outros meios de transporte) na Alemanha, devendo ser quitada por meio do envio de matérias-primas soviéticas a partir de 1946. O acordo econômico foi o primeiro passo para a melhoria nas relações entre a União Soviética e a Alemanha.

Em 11 de maio de 1939, o dia após o início formal das tratativas que levaram ao Acordo de Crédito, a União Soviética enfrentou o Japão em uma bem-sucedida campanha militar no Extremo Oriente.Timothy Snyder, Bloodlands, 2010 O Pacto Molotov-Ribbentrop (também chamado de Pacto Nazi-Soviético) foi assinado quatro dias após o Acordo de Crédito. O Acordo Comercial Germano-Soviético de 1939 renovou as declinantes relações econômicas germano-soviéticas, sendo posteriormente ampliado pelo mais abrangente Acordo Comercial Germano-Soviético de fevereiro de 1940 e pelo Tratado de Fronteiras e Comercial de janeiro de 1941. As entregas alemãs aos soviéticos tornaram-se tardias e deixaram de fornecer tudo o que havia sido prometido à medida que a data da Operação Barbarossa se aproximava. Os soviéticos cumpriram suas obrigações rigorosamente até o momento da invasão, buscando evitar provocações à Alemanha. Todos esses acordos foram encerrados quando a Alemanha invadiu a União Soviética em junho de 1941, violando os tratados entre os dois países. O comércio soviético com a Alemanha no período pré-invasão acabou fornecendo aos alemães grande parte dos recursos necessários para a invasão da própria União Soviética, incluindo matérias-primas cruciais como grãos e petróleo.

Contexto

Comércio tradicional e comércio pré-nazista A Alemanha carece de recursos naturais essenciais, incluindo diversas matérias-primas fundamentais necessárias para operações econômicas e militares. Desde o final do século XIX, dependia fortemente de importações russas desses materiais. Antes da Primeira Guerra Mundial, a Alemanha importava anualmente 1,5 bilhão de Reichsmarks em matérias-primas e outras mercadorias da Rússia. Essas importações caíram vertiginosamente após a Primeira Guerra Mundial. No início da década de 1930, as importações soviéticas diminuíram à medida que o regime estalinista, mais isolacionista, se consolidava e a redução do cumprimento das exigências de desarmamento do Tratado de Versalhes diminuía a dependência alemã de importações soviéticas.

Deterioração das relações A chegada ao poder do Partido Nazista aumentou as tensões entre a Alemanha e a União Soviética, com a ideologia racial nazista retratando a União Soviética como povoada por "subumanos" étnicos eslavos governados por líderes do "bolshevismo judaico".Bendersky, Joseph W., A History of Nazi Germany: 1919-1945, Rowman & Littlefield, 2000, , página 177Rolf-Dieter Müller, Gerd R. Ueberschär, Hitler's War in the East, 1941–1945: A Critical Assessment, Berghahn Books, 2002, , página 244 Mesmo com as crescentes tensões, em meados da década de 1930 a União Soviética fez repetidos esforços para restabelecer contatos mais estreitos com a Alemanha, os quais foram rechaçados por Hitler, que desejava evitar tais laços políticos.

As relações se deterioraram ainda mais em 1936, quando a Alemanha apoiou os nacionalistas fascistas na Guerra Civil Espanhola, enquanto os soviéticos apoiaram a oposição da Segunda República Espanhola.Jurado, Carlos Caballero e Ramiro Bujeiro, The Condor Legion: German Troops in the Spanish Civil War, Osprey Publishing, 2006, , páginas 5-6 No mesmo ano, a Alemanha e o Japão firmaram o Pacto Anticomintern.Gerhard Weinberg: The Foreign Policy of Hitler's Germany Diplomatic Revolution in Europe 1933-36, Chicago: University of Chicago Press, 1970, página 346. Os expurgos estalinistas também desarticularam o corpo diplomático soviético.

Necessidades econômicas no final dos anos 1930 No final da década de 1930, como uma abordagem econômica autárquica ou uma aliança com a Grã-Bretanha eram inviáveis, a Alemanha precisava estabelecer relações mais estreitas com a União Soviética, mesmo que apenas por razões econômicas. A Alemanha carecia de suprimentos essenciais, como petróleo, alimentos, minérios metálicos e borracha, para os quais dependia do fornecimento ou trânsito soviético, tendo de recorrer à Rússia e à Romênia. Além disso, as necessidades alimentares alemãs cresceriam ainda mais se o país conquistasse nações que também eram importadoras líquidas de alimentos. Importações soviéticas de grãos ucranianos ou o transbordo soviético de soja da Manchúria poderiam suprir o déficit. Enquanto isso, a União Soviética necessitava, a curto prazo, de equipamentos militares e projetos de armamentos para fortalecer o enfraquecido Exército Vermelho e a Marinha Soviética. A malha de transportes soviética era muito subdesenvolvida, com rodovias quase inexistentes e linhas ferroviárias já operando em seus limites operacionais.

Após o Anschluss em meados de 1938, a reconciliação econômica foi dificultada pela tensão política e pela crescente hesitação de Hitler em negociar com a União Soviética. No entanto, as necessidades alemãs de suprimentos militares e as demandas soviéticas por maquinário industrial aumentaram após os Acordos de Munique.

Negociações

Discussões preliminares Em outubro de 1938, a Alemanha começou a pressionar pela expansão dos laços econômicos entre os dois países e apresentou um plano aos soviéticos em 1.º de dezembro de 1938. Stalin, contudo, não estava disposto a ceder sua posição de barganha econômica cada vez mais forte pelo baixo preço que Hitler estava disposto a oferecer na época. Os soviéticos concordaram em manter conversações para discutir uma nova proposta alemã em fevereiro e março de 1939 em Moscou. A Alemanha suspendeu as negociações em meados de março. Poucos dias depois, a Alemanha ocupou a Checoslováquia e, em seguida, a região de Klaipėda (Memel), tornando uma guerra germano-polonesa muito mais provável.

direita|thumb|Aeronave alemã Ju 90 desenvolvida e utilizada pela Lufthansa, 1938

A Alemanha e a União Soviética discutiram a celebração de um acordo econômico ao longo do início de 1939. Durante a primavera e o verão de 1939, os soviéticos negociaram um pacto político e militar com a França e a Grã-Bretanha, ao mesmo tempo em que conversavam com autoridades alemãs sobre um potencial acordo político soviético-alemão. Em 7 de abril, o diplomata soviético Georgii Astakhov afirmou ao Ministério das Relações Exteriores da Alemanha que não fazia sentido continuar a luta ideológica germano-soviética e que os dois países poderiam chegar a um acordo. Dez dias depois, o embaixador soviético Alexei Merekalov reuniu-se com o secretário de Estado alemão Ernst Weizsäcker e apresentou-lhe uma nota solicitando a rápida remoção de quaisquer obstáculos para o cumprimento dos contratos militares assinados entre a Checoslováquia e a URSS antes de a primeira ser ocupada pela Alemanha.Geoffrey Roberts. Infamous Encounter? The Merekalov–Weizsacker Meeting of 17 April 1939. The Historical Journal, Vol. 35, No. 4 (dezembro de 1992), pp. 921–926. De acordo com relatos alemães, ao final da conversa o embaixador afirmou que "não existe para a Rússia razão pela qual ela não possa viver conosco em termos normais. E, de normais, as relações podem tornar-se cada vez melhores." Outras fontes sustentam que isso poderia ser um exagero ou um relato impreciso das palavras do embaixador.Biskupski, Mieczysław B. e Piotr Stefan Wandycz, Ideology, Politics, and Diplomacy in East Central Europe, Boydell & Brewer, 2003, , páginas 171–172 Imediatamente após a reunião, o embaixador soviético foi chamado de volta a Moscou e nunca mais retornou à Alemanha.

A probabilidade de guerra aumentou a produção militar tanto na Alemanha quanto na União Soviética. O Terceiro Plano Quinquenal soviético exigia grandes influxos de tecnologia e equipamentos industriais. Enquanto isso, os gastos militares alemães aumentaram para 23% do produto nacional bruto em 1939. Em abril e maio de 1939, planejadores alemães temiam que uma interrupção do comércio com a Suécia cortasse os suprimentos essenciais de minério de ferro. Sem os suprimentos soviéticos, estimava-se que a Alemanha precisaria encontrar substitutos para aproximadamente 165.000 toneladas de manganês e quase 2 milhões de toneladas de petróleo por ano. A Alemanha já enfrentava severa escassez de borracha devido à recusa britânica e holandesa em comercializar. Além da dependência da importação de gorduras e óleos alimentares, surgiram problemas adicionais devido à escassez de mão de obra no setor agrícola, o que exigiu o trabalho de estudantes e crianças em idade escolar. Em 8 de maio, autoridades alemãs estimaram que a Alemanha tinha reservas de petróleo para apenas 3,1 meses.

No contexto de novas discussões econômicas, em 17 de maio, Astakhov declarou a um funcionário alemão que desejava reafirmar "em detalhes que não havia conflitos de política externa entre a Alemanha e a Rússia Soviética e que, portanto, não havia razão para qualquer inimizade entre os dois países." Três dias depois, em 20 de maio, Molotov disse ao embaixador alemão em Moscou que não desejava mais discutir apenas assuntos econômicos, sendo necessário estabelecer uma "base política", o que os diplomatas alemães consideraram um "convite implícito" e uma "convocação virtual para um diálogo político." Em 26 de maio, autoridades alemãs temeram um possível resultado positivo nas negociações soviéticas com a Grã-Bretanha e a França. Em 30 de maio, a Alemanha orientou seus diplomatas em Moscou: "decidimos agora empreender negociações definitivas com a União Soviética."Ulam, Adam Bruno, Stalin: The Man and His Era, Beacon Press, 1989, , página 508 As discussões seguintes foram canalizadas pelas negociações econômicas, porque as necessidades comerciais eram substanciais e porque as conexões diplomáticas haviam sido cortadas em meados dos anos 1930 após o Pacto Anticomintern e a Guerra Civil Espanhola, restando essas negociações como o único canal de comunicação viável.

Sinais contraditórios thumb|right|Viatcheslav Molotov Os soviéticos emitiram sinais contraditórios a partir de então. Em 31 de maio, o discurso de Molotov pareceu positivo, mas em 2 de junho o Comissário do Povo para o Comércio Exterior da União Soviética, Anastas Mikoyan, disse a uma autoridade alemã que Moscou "havia perdido todo o interesse nessas negociações [econômicas] como resultado da procrastinação alemã anterior." Em 15 de junho, o embaixador soviético reuniu-se com o embaixador búlgaro em Berlim, Purvan Draganov, que servia como intermediário não oficial com os alemães. O embaixador soviético explicou que um acordo com a Alemanha atendia melhor aos interesses soviéticos do que um acordo com a Grã-Bretanha e a França ou conversações inconclusivas. Draganov informou prontamente o Ministério das Relações Exteriores da Alemanha sobre a conversa. Sete dias antes, os soviéticos haviam concordado que uma autoridade de alto escalão alemã fosse a Moscou para continuar as negociações, o que ocorreu em 3 de julho. A partir disso, conversações oficiais tiveram início em Berlim em 22 de julho.