O Acordo de Fronteiras e Comercial Germano-Soviético, assinado em 10 de janeiro de 1941, foi um tratado abrangente que solucionou disputas fronteiriças e deu continuidade ao comércio de matérias-primas e equipamentos bélicos entre a União Soviética e a Alemanha Nazista. O acordo manteve o relacionamento diplomático iniciado em 1939 com o Pacto Molotov-Ribbentrop, que continha protocolos secretos para a divisão da Europa Oriental entre a União Soviética e a Alemanha. Essa cooperação havia prosseguido com as invasões subsequentes desse território por ambas as nações. O tratado incluiu protocolos secretos adicionais que resolveram uma disputa sobre terras na Lituânia, divididas entre os dois países. O acordo também estendeu as relações econômicas germano-soviéticas, ampliadas anteriormente pelo Acordo Comercial de 1939 e pelo mais abrangente Acordo Comercial de 1940.
O acordo teve curta duração. Apenas seis meses após a assinatura, a Alemanha invadiu a União Soviética, rompendo as relações econômicas bilaterais. As matérias-primas importadas pela Alemanha da União Soviética entre 1939 e 1941 desempenharam um papel fundamental no apoio ao esforço de guerra alemão contra a própria União Soviética a partir de 1941.
Contexto
Necessidades de recursos
A Alemanha carecia de suprimentos naturais de diversas matérias-primas cruciais para suas operações econômicas e militares. Em meados de 1939, planejadores alemães determinaram que o país possuía apenas estoques suficientes para dois a três meses de borracha e de três a seis meses de petróleo. Estimou-se que, após um planejado ataque alemão à Polônia e o subsequente bloqueio naval dos Aliados, a União Soviética se tornaria a única fornecedora potencial para várias matérias-primas vitais necessárias ao esforço de guerra.
Acordos de 1939 e a divisão da Europa Oriental thumb|right|Oficiais soviéticos e alemães examinam um mapa na linha de demarcação right|thumb|As áreas em azul-escuro e roxo compreendem a "Faixa da Lituânia"
Em 19 de agosto de 1939, a União Soviética e a Alemanha firmaram o Acordo Comercial Germano-Soviético, estabelecendo o fornecimento de equipamentos militares e civis alemães em troca de matérias-primas soviéticas. Em 23 de agosto, assinaram o Pacto Molotov-Ribbentrop, que continha protocolos secretos delimitando esferas de influência de ambas as potências no Norte e no Leste Europeu.Texto do Pacto de Não Agressão Germano-Soviético, assinado em 23 de agosto de 1939
Uma semana após a assinatura do pacto, a partilha da Polônia começou com a invasão alemã no oeste do país, seguida pela invasão soviética no leste polonês em 17 de setembro, executada em coordenação com as forças alemãs. Três Estados bálticos abrangidos pelo Pacto Molotov-Ribbentrop — Estônia, Letônia e Lituânia — foram compelidos a assinar um "Pacto de defesa e assistência mútua", permitindo o estacionamento de tropas do Exército Vermelho em seus territórios.Wettig, Gerhard, Stalin and the Cold War in Europe, Rowman & Littlefield, Landham, Md, 2008, , pp. 20–21
Onze dias após a invasão soviética do leste polonês, as partes modificaram o protocolo secreto no chamado Tratado de Fronteiras e Amizade Germano-Soviético, que continha um "Protocolo Adicional Secreto". Entre outras disposições, o documento concedeu à Alemanha uma fatia maior da Polônia e transferiu a Lituânia para a esfera soviética. No entanto, uma porção do território lituano, conhecida como a "Faixa da Lituânia" (na margem esquerda do rio Šešupė), permaneceu designada como território de interesse alemão.
Relações econômicas de 1940 thumb|right|Fábrica de produção de blindados Tiger I na Alemanha, 1943
A insistência de Adolf Hitler em antecipar a invasão da Polônia em 1939 impôs uma enorme pressão sobre as forças armadas alemãs, cuja prontidão para a guerra total fora planejada originalmente apenas para 1942 ou 1943. A Alemanha enfrentava grave carência de petróleo, borracha e outros recursos necessários mesmo para uma ofensiva restrita no oeste. A União Soviética era o único fornecedor capaz de suprir tais matérias-primas. Ao mesmo tempo, a demanda soviética por produtos manufaturados e maquinários alemães crescia, enquanto sua capacidade de importá-los de outros países diminuiu após as sanções e o rompimento de laços comerciais causados pelo Pacto Molotov-Ribbentrop. Em 11 de fevereiro de 1940, os dois governos celebraram o Acordo Comercial Germano-Soviético, prevendo o envio de 650 milhões de Reichsmarks em matérias-primas soviéticas em troca de 650 milhões de Reichsmarks em maquinários, bens manufaturados e tecnologia militar alemã.Weeks, Albert L., Stalin's Other War: Soviet Grand Strategy, 1939–1941, Rowman & Littlefield, 2003, , pp. 74–75 O pacto comercial permitiu à Alemanha contornar o bloqueio naval britânico. A URSS tornou-se uma fornecedora primária de materiais vitais para o Reich, incluindo petróleo, cobre, níquel, cromo, platina, madeira e cereais.Moss, Walter, A History of Russia: Since 1855, Anthem Press, 2005, , p. 291
Os Bálticos e a Bessarábia thumb|right|250px|Esferas de influência e expansão territorial germano-soviética thumb|right|A Bessarábia e o norte da Bucovina compreendem a região verde-clara superior Em meados de junho de 1940, tropas do NKVD ocuparam os postos de fronteira na Lituânia, Estônia e Letônia, culminando na anexação formal desses territórios à União Soviética — incluindo toda a Lituânia e a área do rio Šešupė previamente reservada à Alemanha.Senn, Alfred Erich, Lithuania 1940: Revolution from Above, Amsterdã, Nova York, Rodopi, 2007 Em 26 de junho, o governo soviético emitiu um ultimato exigindo da Romênia a entrega da Bessarábia, do norte da Bucovina e da região de Hertsa. Depois que Moscou concordou em limitar suas reivindicações ao norte da Bucovina, Berlim aconselhou Bucareste a aceitar os termos. Diante da incapacidade da França em garantir o status quo no Leste Europeu e sob pressão alemã e italiana, o governo romeno cedeu. Após a ocupação soviética da Bessarábia, cerca de 100.000 alemães étnicos (Volksdeutsche) que habitavam a região começaram a ser transferidos para a Alemanha.
No mesmo período, as vitórias alemãs na França, nos Países Baixos e na Bélgica elevaram as demandas industriais alemãs e fecharam canais indiretos de abastecimento, tornando o Reich ainda mais dependente das importações soviéticas.
Últimas tentativas soviéticas de adesão ao Eixo
Hitler vinha avaliando planos militares contra a União Soviética desde julho de 1940. Contudo, após a assinatura do Pacto Tripartite entre Alemanha, Japão e Itália em setembro, a União Soviética explorou a possibilidade de ingressar no Eixo em outubro de 1940. Após discussões bilaterais, a Alemanha apresentou uma minuta de acordo definindo as esferas globais de influência para as quatro potências. Onze dias depois, os soviéticos responderam com uma contraproposta redigida por Stalin, aceitando o pacto com a condição de que a Bulgária ficasse sob a esfera soviética e seus interesses se concentrassem na direção do Golfo Pérsico e do Oceano Índico (regiões do atual Iraque e Irã). A proposta de Moscou foi acompanhada por promessas econômicas expressivas, como a entrega de 2,5 milhões de toneladas de grãos até maio de 1941 (1 milhão acima das obrigações correntes) e a indenização completa das propriedades dos Volksdeutsche.
Hitler ignorou a contraproposta soviética e emitiu diretrizes secretas para ultimar os preparativos da invasão da União Soviética, acirrando as tensões entre os dois países.
Negociações right|thumb|Reassentamento de Volksdeutsche após a ocupação soviética da Bucovina e da Bessarábia thumb|right|Transporte de famílias de Volksdeutsche na Bessarábia thumb|right|Refugiados alemães étnicos transferidos para o território polonês anexo thumb|right|Mapa de 1940 ilustrando o reassentamento de alemães étnicos no Reichsgau Wartheland Em outubro de 1940, os estoques alemães de matérias-primas foram projetados para durar apenas até o verão de 1941. O quadro era especialmente crítico em relação à borracha, com reservas de apenas 1.500 toneladas. As anexações soviéticas na Romênia também geraram atritos diplomáticos: a Alemanha reivindicava 100.000 toneladas de grãos previamente contratadas com a Bessarábia, garantias de segurança sobre as propriedades de 125.000 Volksdeutsche locais e a garantia de que os ramais ferroviários com petróleo romeno não sofreriam interrupções.
Hitler pretendia extrair o máximo de suprimentos antes de iniciar a campanha militar no leste, enquanto negociadores alemães de setores econômicos esperavam que uma ampliação comercial pudesse arrefecer as tendências de confronto. Ao mesmo tempo, debates acalorados concentraram-se na "Faixa da Lituânia", ocupada pelos soviéticos em 15 de junho a despeito das cláusulas secretas anteriores.
As conversações tiveram início em Moscou em 30 de outubro de 1940. As delegações avançaram nas discussões sobre o fornecimento de torres navais alemãs de 38 cm, mas Moscou resistiu a reembolsar integralmente as propriedades dos Volksdeutsche transferidos. Em novembro, a União Soviética concordou em elevar sua oferta de grãos de 1,2 milhão para 1,5 milhão e, por fim, para 2,5 milhões de toneladas, atendendo à demanda alemã. A questão da "Faixa da Lituânia" exigiu a intervenção direta de Hitler, levando a uma breve suspensão dos trabalhos em 29 de novembro.
Os dois lados debateram também as cotas de extração da mina de níquel finlandesa em Petsamo e o montante de indenização aos bens alemães nos Bálticos. Fixou-se a compensação para as propriedades dos Volksdeutsche entre 200 e 350 milhões de Reichsmarks, enquanto os soviéticos pediram 50 milhões de Reichsmarks por bens em territórios sob ocupação alemã. Em contrapartida, Berlim concordou em fornecer canhões antiaéreos de 10,5 cm, maquinários e ouro.
Com a intenção de invadir a URSS no ano seguinte, os diplomatas alemães manobraram para postergar o cronograma das entregas de bens manufaturados alemães para além do verão de 1941. Diante da lentidão nas respostas de Berlim, a delegação soviética exigiu que todos os contenciosos bilaterais fossem formalmente equacionados para a assinatura do acordo.
O Acordo 140px|thumb|right|O embaixador alemão Friedrich Werner von der Schulenburg thumb|right|Chegada de Volksdeutsche transferidos da Lituânia soviética em 28 de fevereiro de 1941 Em 10 de janeiro de 1941, o embaixador alemão em Moscou, Friedrich Werner von der Schulenburg, e o Comissário do Povo para as Relações Exteriores, Viatcheslav Molotov, assinaram os acordos finais em Moscou.
O documento estendeu a regulamentação do Acordo Comercial de 1940 até 1.º de agosto de 1942, ampliando o volume de trocas para uma faixa entre 620 e 640 milhões de Reichsmarks. Foram solucionadas as tarifas de trânsito ferroviário, cronogramas de remessas para o segundo ano do pacto econômico, direitos de comércio nos Bálticos e na Bessarábia e os valores de compensação para propriedades privadas alemãs confiscadas nos países bálticos.
O negociador Karl Schnurre classificou o arranjo como "o maior contrato econômico já concluído pela Alemanha, indo muito além do acordo de fevereiro do ano anterior". As cotas incluíam compromissos soviéticos de enviar 2,5 milhões de toneladas de grãos e 1 milhão de toneladas de petróleo, além de metais não ferrosos e preciosos. O embaixador especial Karl Ritter informou às representações alemãs no exterior que "enquanto a Grã-Bretanha e os Estados Unidos não obtiveram êxito em seus esforços com a União Soviética, esta celebrou com a Alemanha o maior contrato bilateral já firmado".