O Acordo Comercial Germano-Soviético de 1940 (; também conhecido como Acordo Econômico de 11 de Fevereiro de 1940 entre o Reich Alemão e a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas) foi um arranjo econômico firmado entre a União Soviética e a Alemanha Nazista em 11 de fevereiro de 1940. Nele, a União Soviética concordou em fornecer commodities (petróleo, matérias-primas e grãos) no valor de 420 a 430 milhões de Reichsmarks no período de 11 de fevereiro de 1940 a 1941, além das entregas já previstas no Acordo Comercial Germano-Soviético assinado em 19 de agosto de 1939.
Posteriormente, acertou-se uma política para o trânsito por território soviético de commodities de terceiros países adquiridas pela Alemanha. As nações deram continuidade ao acordo e solucionaram outras pendências por meio do Acordo de Fronteira e Comercial Germano-Soviético de 10 de janeiro de 1941. Em junho de 1941, a Alemanha invadiu a União Soviética, violando o Pacto Molotov-Ribbentrop de 1939 e encerrando todos os acordos econômicos entre os dois países.
Entre janeiro de 1940 e a data da invasão alemã, a URSS exportou para a Alemanha produtos em um valor total estimado de 597,9 milhões de Reichsmarks. As entregas alemãs somaram 437,1 milhões de Reichsmarks. Os acordos deram prosseguimento às relações econômicas germano-soviéticas e resultaram na entrega de grandes volumes de matérias-primas à Alemanha, incluindo mais de de petróleo, de grãos e de minério de manganês.
A União Soviética recebeu o cruzador pesado incompleto da , as plantas do couraçado , informações sobre testes navais alemães, "maquinário completo para um grande contratorpedeiro", canhões navais pesados, outros equipamentos marítimos e amostras de 30 dos mais recentes aviões de guerra da Alemanha, incluindo os caças Bf 109 e 110 e os bombardeiros Ju 88 e Do 215. A União Soviética também recebeu equipamentos elétricos e de petróleo, locomotivas, turbinas, geradores, motores a diesel, navios, máquinas-ferramenta e amostras de artilharia alemã, tanques, explosivos, equipamentos de guerra química e outros itens.
As matérias-primas que a Alemanha obteve dos soviéticos por meio do acordo de 1940 sustentaram o esforço de guerra alemão contra a própria União Soviética a partir de 1941. Em particular, os estoques alemães de borracha e grãos não teriam sido suficientes para viabilizar a invasão da URSS caso os soviéticos não tivessem exportado esses produtos previamente para a Alemanha.
Contexto
Antes de 1939
O Acordo Econômico Germano-Soviético de 12 de outubro de 1925 formou a base contratual para as relações comerciais com a União Soviética. Além da troca normal de mercadorias, as exportações alemãs para a União Soviética utilizaram, desde o início, um sistema negociado pela Missão Comercial Soviética em Berlim pelo qual a União Soviética recebia créditos para o financiamento de pedidos adicionais na Alemanha, para os quais a Missão Comercial devia negociar letras de câmbio pagáveis em Reichsmarks.
O comércio com a União Soviética, impulsionado pelas primeiras operações de crédito, levou a uma intensa troca de mercadorias, que atingiu seu ponto mais alto em 1931. No início da década de 1930, no entanto, as importações soviéticas diminuíram à medida que o regime estalinista, mais isolacionista, se consolidava no poder e a redução do cumprimento dos requisitos de desarmamento do Tratado de Versalhes diminuía a dependência da Alemanha em relação às importações soviéticas. Além disso, a ascensão do Partido Nazista ao poder aumentou as tensões entre a Alemanha e a União Soviética.
Em meados da década de 1930, a União Soviética fez repetidos esforços para restabelecer contatos mais estreitos com a Alemanha. Os soviéticos buscavam principalmente pagar dívidas comerciais anteriores com matérias-primas, enquanto a Alemanha buscava o rearmamento, levando os países a assinarem um acordo de crédito em 1935. A "Quarta Operação de Crédito, Transação Especial de 1935", foi concluída em 4 de abril de 1935. Ela colocou à disposição da União Soviética, até 30 de junho de 1937, 200 milhões de Reichsmarks em créditos a serem pagos no período de 1940 a 1943. A União Soviética utilizou 183 milhões de Reichsmarks desse crédito. As operações de crédito anteriores foram liquidadas, com exceção de cinco milhões de Reichsmarks, que deveriam ser pagos em 1938.
As tensões aumentaram devido ao apoio da Alemanha aos nacionalistas espanhóis de orientação fascista na Guerra Civil Espanhola, enquanto a União Soviética apoiava o governo republicano parcialmente liderado por socialistas da Segunda República Espanhola.
A reaproximação econômica foi dificultada ainda mais pela tensão política após o Anschluss em meados de 1938 e pela crescente hesitação de Hitler em negociar com a União Soviética. As exportações soviéticas para a Alemanha caíram para 47,4 milhões de Reichsmarks em 1937 (aproximadamente um quinto do total de 1934) e 52,8 milhões de Reichsmarks em 1938. Em suma, a importante relação comercial entre os países que existia na década de 1920 praticamente entrou em colapso com a ascensão de Hitler ao poder.
Ao longo desses anos, a maior parte das importações da União Soviética consistiu em matérias-primas equivalentes a divisas estrangeiras. Em 1937, por exemplo, 95% das importações da União Soviética eram matérias-primas. A Alemanha carecia de suprimentos naturais de várias matérias-primas essenciais necessárias para operações econômicas e militares. Em 1938, dois terços do fornecimento de petróleo alemão vinham dos Estados Unidos e da América Latina, enquanto 52% do aço alemão utilizava minério de ferro importado originário da Suécia. As importações da Alemanha por países (em milhões de Reichsmarks) foram as seguintes: União SoviéticaPolônia & Danzig Finlândia Estônia Letônia Lituânia Estados Unidos Reino Unido Países da América do Sul193693.2 74.0 46.1 13.8 33.2 9.1232.2N/D536.5193765.1 80.7 70.1 23.7 45.7 17.2281.9308.6850.3193847.4 109.4 88.6 24.0 43.5 27.6404.6282.7809.7
Necessidades de recursos Devido à escassez de recursos naturais próprios, os planejadores alemães em maio de 1939 temiam que uma interrupção no comércio sueco cortasse os fornecimentos cruciais de minério de ferro. Além disso, caso os suprimentos russos fossem interrompidos, os analistas estimavam que precisariam encontrar substitutos para aproximadamente de manganês e quase (2 milhões de toneladas curtas) de petróleo por ano. A Alemanha já enfrentava uma grave escassez de borracha devido à recusa britânica e holandesa em comerciar com o país. Em 8 de maio, autoridades alemãs divulgaram novos números de planejamento estimando que a Alemanha possuía estoques de petróleo suficientes para apenas 3,1 meses de consumo.
Em agosto, enquanto a Alemanha planejava a invasão da Polônia e se preparava para uma eventual guerra contra a França, os planejadores militares alemães calcularam que, sob um esperado bloqueio naval britânico, caso a União Soviética se mostrasse hostil, o país teria um déficit em relação aos requisitos de mobilização de guerra de (9,9 milhões de toneladas curtas) de petróleo e de manganês. Naquela época, a Alemanha dispunha de apenas dois a três meses de estoques de borracha e de três a seis meses de estoques de petróleo. Devido ao bloqueio naval iminente, a União Soviética se tornaria o único fornecedor potencial para diversos itens essenciais.
Eventos que antecederam as negociações
Em meados de 1939, a União Soviética discutiu a formação de um pacto político e militar com delegações representantes da França e da Grã-Bretanha, ao mesmo tempo em que negociava um possível acordo com a Alemanha.
No início de agosto, a Alemanha e a União Soviética finalizaram os termos de um acordo econômico, mas os soviéticos adiaram sua assinatura formal até que as cláusulas do acordo político fossem acertadas. Em 19 de agosto, a Alemanha e a União Soviética assinaram um acordo comercial prevendo o intercâmbio de certos equipamentos civis e militares alemães por matérias-primas soviéticas. O acordo estipulava que a Alemanha aceitaria 200 milhões de Reichsmarks em novas encomendas ao longo de sete anos, com uma taxa de juros efetiva de 4,5%, exportando 60 milhões de Reichsmarks em "negócios correntes" (comércio coberto por acordos anteriores), 180 milhões de Reichsmarks em "novos negócios" e outros 200 a 300 milhões de Reichsmarks na amortização de créditos antigos e novos. A linha de crédito deveria ser utilizada durante os dois anos seguintes na compra de bens de capital (equipamentos fabris, instalações, máquinas e máquinas-ferramenta, navios, veículos e outros meios de transporte) na Alemanha, sendo quitada por meio de remessas de matérias-primas soviéticas a partir de 1946.
right|thumb|Molotov assina o Pacto, ladeado por Ribbentrop e Stalin Quatro dias depois, a União Soviética e a Alemanha assinaram o Pacto Molotov-Ribbentrop, um tratado de não agressão mútua entre as partes. O Pacto Molotov-Ribbentrop continha protocolos secretos que dividiam os estados do Norte e do Leste Europeu em "esferas de influência" alemã e soviética. Na ocasião, Stalin considerava o acordo comercial mais importante do que o próprio tratado de não agressão. Uma semana após a assinatura do Pacto Molotov-Ribbentrop, a partilha da Polônia começou com a invasão alemã do oeste polonês.
Em 17 de setembro, o Exército Vermelho invadiu o leste da Polônia e ocupou o território polonês que concentrava até 70% da produção petrolífera do país no período pré-guerra. Em outubro de 1939, três parceiros comerciais da Alemanha — Estônia, Letônia e Lituânia — não tiveram outra escolha senão assinar os chamados Pactos de defesa e assistência mútua, que permitiam à União Soviética posicionar tropas em seus territórios.
Negociações
Planos e expectativas alemãs A insistência de Hitler em invadir a Polônia em 1939 colocou uma tremenda pressão sobre a máquina militar alemã, que vinha se reestruturando gradualmente após as restrições do Tratado de Versalhes com previsão de uma guerra total apenas em 1942 ou 1943. A marinha alemã enfrentava escassez crítica de meios navais e militares e não alcançou mobilização completa até 1942. Mesmo a rápida vitória na Polônia sobrecarregou os recursos militares alemães de 1939, visto que o país possuía apenas seis semanas de munições estocadas e nenhuma reserva significativa de mão de obra mobilizável. A falta de matérias-primas exigia que a Alemanha buscasse ampliação de fornecimento no exterior. No entanto, o bloqueio naval britânico deixou Berlim cada vez mais desesperada por insumos. O único Estado restante capaz de fornecer o petróleo, a borracha, o manganês, os grãos, as gorduras alimentares e a platina necessários era a União Soviética.
A Alemanha necessitava de uma aliança econômica ampla voltada a matérias-primas, superando o modelo de parceria que o acordo de 19 de agosto de 1939 oferecia. Ao mesmo tempo, a demanda soviética por produtos manufaturados (como maquinário alemão) crescia, enquanto sua capacidade de importá-los diminuía, já que diversos países cessaram relações comerciais após a entrada de Moscou no Pacto Molotov-Ribbentrop. A União Soviética pouco podia oferecer em termos de tecnologia de ponta, enquanto a Alemanha dominava a tecnologia de que Moscou precisava para construir uma frota de alto-mar. Consequentemente, durante as seis semanas seguintes às invasões da Polônia, a Alemanha pressionou fortemente pela conclusão de um acordo adicional.