O Quarteto de cordas n.º 3 em fá maior, Op. 73, é uma obra de música de câmara composta por Dmitri Shostakovich entre janeiro e agosto de 1946. A peça estreou em 16 de dezembro de 1946, em Moscou, executada pelo Quarteto Beethoven, a quem é dedicada.

História Em 1945, ao fim da Segunda Guerra Mundial, Shostakovich compôs, em lugar da sinfonia heroica esperada pelas autoridades soviéticas para celebrar a vitória, a jovial Sinfonia n.º 9, com características até mesmo satíricas. A recepção oficial da sinfonia foi fria: alguns críticos a ouviram como uma paródia antipatriótica das celebrações da vitória, e ela foi criticada numa discussão da União dos Compositores em dezembro de 1945. No ano seguinte, Shostakovich voltou ao quarteto de cordas, gênero ao qual passaria a se dedicar cada vez mais, e compôs uma obra que "combina bom-humor com a mais profunda seriedade". O terceiro quarteto foi a única peça que o compositor escreveu em 1946, e o último antes da campanha contra os compositores iniciada em 1948.

Shostakovich começou a trabalhar no quarteto em 26 de janeiro de 1946, com o segundo movimento, e o concluiu em 2 de agosto do mesmo ano; o primeiro, o terceiro, o quarto e o quinto movimentos foram terminados, respectivamente, em 9 de maio, 17 de junho, 13 de julho e 2 de agosto. Os três primeiros movimentos foram compostos em Moscou, o quarto em Leningrado e o quinto em Komarovo, no golfo da Finlândia. Na carta em que anunciou o término da obra ao segundo violinista do Quarteto Beethoven, Vasili Shirinsky, o compositor escreveu: "Parece-me que nunca estive tão satisfeito com uma composição quanto com este quarteto."

A obra foi dedicada ao Quarteto Beethoven: Dmitri Tsyganov, Vasili Shirinsky, Vadim Borisovsky e Sergei Shirinsky. O conjunto estreou a obra em 16 de dezembro de 1946, no Pequeno Salão do Conservatório de Moscou. Já a estreia em Leningrado, com o Quarteto Glazunov, e não com o Quarteto Beethoven, ocorreu em 8 de abril de 1947.

Fiodor Druzhinin, violista do Quarteto Beethoven, descreveu a única ocasião em que viu Shostakovich visivelmente comovido com a própria música, durante um ensaio do terceiro quarteto ao qual o compositor assistiu:

Estrutura O quarteto tem cinco movimentos, numa estrutura que se afasta do formato tradicional de quatro movimentos e se aproxima das sinfonias de guerra do compositor: a Oitava e a Nona Sinfonias também têm cinco movimentos, e nas três obras um movimento lento de luto segue os dois scherzos centrais, ligando-se sem pausa ao finale. Os movimentos estão, respectivamente, em fá maior, mi menor, sol sustenido menor, dó sustenido menor e fá maior. Allegretto Moderato con moto Allegro non troppo Adagio (attacca) Moderato

A escrita é exigente para os intépretes: grande parte do quarteto permanece nos registos agudos dos instrumentos, com passagens de brilho solístico que contrastam com a escrita de conjunto. Em carta a Edison Denisov, o compositor pediu que o primeiro movimento fosse tocado "não muito rapidamente, mas com suavidade".

Análise

O primeiro movimento, Allegretto, tem um tema lúdico, com os quatro instrumentos em dolce e uma ideia principal do primeiro violino descrita como uma dança graciosa; o segundo tema é mais sombrio, pulsando sobre uma cadência de duas notas, e do choque entre os dois temas Shostakovich constrói a forma sonata do movimento. Trata-se de uma sonata modificada, com exposição repetida: o primeiro tema (compassos 1–45) é apresentado em fá maior pelo primeiro violino, com acompanhamento dos demais instrumentos, e inclui as doze notas da escala cromática; suas semicolcheias (compassos 8–10) são retomadas em cânone pelo violoncelo e servirão de sujeito da fuga do desenvolvimento. O segundo tema (compassos 54–80), em mi menor, é exposto pelo primeiro violino; o material de encerramento da exposição introduz um motivo descendente que prenuncia a fuga. O desenvolvimento (compassos 103–176) retira seu material principalmente do primeiro tema, com uma fuga que logo mergulha em "complexidade e conflito" dissonantes. Kuhn observa que a exposição não consegue estabelecer com segurança a segunda tonalidade — uma "exposição fracassada", nos termos da teoria da sonata de Hepokoski e Darcy —, o que contamina a recapitulação. A recapitulação (compassos 177-250) é curta, e o segundo tema reaparece não na tônica, mas em si menor, à distância de trítono de fá maior; o violoncelo assume então o tema de encerramento. A coda (compasso 251 em diante) aproveita fragmentos do primeiro tema com dinâmica crescente, e o movimento termina abruptamente, com um harmônico no primeiro violino e pizzicato nas demais vozes; segundo Kuhn, esses elementos finais "parecem parodiar, em vez de expressar, a ideia de um fechamento resolutivo".

O segundo movimento, Moderato con moto, é o primeiro scherzo do quarteto, em mi menor, com um pulso quase de valsa em compasso 3/4 que por vezes parece congelar, e desvanece-se em silêncio, com os instrumentos com surdina. A viola abre o movimento com um ostinato de tríades de mi menor, sobre o qual o primeiro violino expõe um tema que percorre as doze notas da escala cromática. A forma é híbrida, entre um rondó com refrão recorrente e um scherzo duplo, com seções que se repetem cada vez mais curtas; o trio, em fá sustenido maior, tem qualidade de valsa. O movimento termina num acorde inconclusivo (mi–sol–dó–mi bemol) marcado morendo, que, segundo Kuhn, "não alcança fechamento" e prepara o scherzo violento seguinte. Embora não haja attacca indicado na partitura, os intérpretes costumam passar ao terceiro movimento quase sem pausa.

O terceiro movimento, Allegro non troppo, é o segundo scherzo, em sol sustenido menor, com alternância de compassos 2/4 e 3/4 e final súbito. Kuhn o descreve como a representação de "um conflito físico em larga escala" com os pequenos efetivos de um quarteto de cordas; o movimento tem a mesma indicação metronômica do anterior (semínima = 138). O tema, agressivo, é exposto sobre acordes com paradas duplas, triplas e quádruplas, na dinâmica fff; o trio, em mi bemol maior, é descrito por Kuhn como uma "dança umpa ambivalente, à maneira klezmer, grotesca no meio da violência do movimento". Vasili Shirinsky, segundo violinista do Quarteto Beethoven, ouviu no trio uma "caricatura musical mordaz da soldadesca prussiana". O movimento termina sobre sua tônica, sol sustenido menor.

O quarto movimento, Adagio, tem forma de passacaglia em dó sustenido menor, com um ritmo pontuado que evoca a passacaglia da Oitava Sinfonia. O tema, grave e pesado, é apresentado em uníssono pelos três instrumentos graves e reaparece ao longo do movimento em sete exposições; a cada repetição respondem-lhe recitativos do primeiro violino — para Kuhn, uma "polarização de uníssono e monólogo" que retrata a interação entre o luto social e o luto pessoal. O ritmo de marcha fúnebre ganha cada vez mais espaço: na sexta exposição o tema é levado pelo violoncelo e, na última, pela viola, em solo, acompanhada apenas pelas notas graves do violoncelo. O dó sustenido final da viola é seguido, no violoncelo, pela descida de um semitom, que conduz sem pausa ao finale, de volta a fá maior. Eric Bromberger observa que o movimento lembra a muitos ouvintes os quartetos tardios de Beethoven.

O quinto movimento, Moderato, é um híbrido de sonata e rondó em fá maior. Começa com um tema sinuoso e sombrio no violoncelo, com pizzicatos da viola no acompanhamento, e o tema percorre as doze notas da escala cromática. Ao longo do movimento, Shostakovich retoma temas dos movimentos anteriores — entre eles, o da passacaglia do Adagio, que reaparece no clímax do finale — e o quarteto desvanece-se de forma enigmática, com o morendo marcado na partitura. Segundo Kuhn, a recapitulação fracassa: o tema principal nunca é reexposto de forma convincente, e o terceiro tema reaparece num lá menor "ferido", com todos os instrumentos com surdina. Na coda, sobre um pedal de tônica de vinte e seis compassos, o primeiro violino recria fragmentos do tema principal, ascendendo até os harmônicos, e a obra termina com três pizzicatos de um acorde de fá maior, marcados morendo — para Kuhn, um encerramento que "sinaliza um fim, e não um recomeço".

Títulos programáticos É comum que títulos programáticos para cada movimento sejam atribuídos ao quarteto, mas a existência de tais títulos é tratada com ceticismo pela musicologia. Judith Kuhn os considera um dos "mitos contumazes" na literatura ocidental sobre a obra: os títulos não constam no manuscrito autógrafo nem nas edições publicadas. Wendy Lesser igualmente observa que nunca houve bons motivos para acreditar que Shostakovich tenha inventado tais títulos, que também não constam em diários de ensaio, entrevistas ou memórias dos intérpretes originais. É o catálogo de Derek Hulme, entretanto, que registra os títulos, afirmando que foram confirmados pelo violoncelista do Quarteto Borodin, Valentin Berlinsky, que tocou o quarteto para o próprio compositor, em 1947, a partir das partituras manuscritas. Os títulos geralmente citados são: A calma ignorância do cataclismo vindouro Rumores de inquietação e expectativa As forças da guerra despertadas Homenagem aos mortos A eterna questão: por quê? e para quê?

Berlinsky, em entrevista a Kuhn, negou ter conhecimento de títulos oficiais, mas relatou que Shostakovich lhe descrevera, em conversa informal, o programa da obra: o primeiro movimento retrataria a vida soviética pacífica; o segundo, o início da Segunda Guerra Mundial, ainda fora da Rússia, na Polônia e na Tchecoslováquia; o terceiro, a invasão do território russo pela armada de tanques; o quarto, um réquiem pelos mortos; e o quinto, uma reflexão filosófica sobre o destino do homem.

Segundo relatos não confirmados, Shostakovich teria retirado os títulos logo após a estreia de 1946, sem explicação. Kuhn, por outro lado, levanta a hipótese de que, ainda que Shostakovich tivesse ideias programáticas para a obra, o compositor considerasse títulos e programas limitadores demais, preferindo não vincular a música a um contexto histórico imediato, mas permitir que fosse ouvida também como uma análise de questões e experiências humanas mais amplas. A autora cita a explicação que o compositor deu anos depois, sobre a Sétima Sinfonia: "a música, a verdadeira música, nunca está literalmente vinculada a um tema". Rang Hee Kim acrescenta a hipótese de Shostakovich temer a reação da crítica soviética aos títulos possivelmente polêmicos, já que o gênero do quarteto de cordas ocupava um lugar ambíguo na sociedade musical da URSS, e a União dos Compositores Soviéticos desincentivava a composição para esta formação.

Recepção Shostakovich afirmou considerar "o terceiro quarteto um dos mais bem-sucedidos de meus trabalhos", em correspondência com Edison Denisov. Apesar do que foi relatado como "enorme sucesso" junto ao público, a estreia foi inicialmente recebida com silêncio pela crítica. O Quarteto Beethoven gravou a obra em fevereiro e março de 1947, e a partitura foi publicada ainda naquele ano pelo Fundo Musical da URSS. Em março de 1947, o quarteto executou a obra para o Comitê do Prêmio Stalin, sem que esta obtivesse o prêmio; a obra tampouco entrou no repertório regular do Quarteto Beethoven. Ainda em 1947, entretanto, veio um dos primeiros pareceres positivos a respeito do quarteto, pelo musicólogo e crítico musical Daniel Zhitomirsky, para quem, "por seu conteúdo rico e multifacetado, o terceiro quarteto supera todas as obras de câmara anteriores do compositor".