Abu Laila Almualhil Adi ibne Rebia ibne Alharite ibne Murra Ataglibi (; m. ca. 525), também conhecido como Adi ibne Rebia e Azir (al-Zīr), foi um poeta árabe e guerreiro taglibita da Jailia, considerado um dos mais antigos poetas árabes cujas notícias e composições chegaram à atualidade. Algumas fontes registram seu nome como Inru Alcaice ibne Rebia (Imruʾ al-Qays ibn Rabīʿa). A maioria das fontes e os próprios poemas que lhe são atribuídos, contudo, dão seu nome como Adi. Pertencia aos juxamitas, ramo dos taglibitas do Négede, era irmão do chefe Culaibe ibne Rebia e tio materno do célebre poeta Inru Alcaice ibne Hujer. Sua cúnia Abu Laila derivava de sua filha mais velha, Laila, e entre seus descendentes estava, por intermédio dela, o poeta Anre ibne Cultume.

Almualhil tornou-se sobretudo célebre como uma das principais figuras da Guerra de Albaçus, prolongado ciclo de conflitos entre os becritas e os taglibitas. O assassinato de Culaibe por seu cunhado Jassas ibne Murra, tradicionalmente situado por volta de 495, levou Almualhil a assumir papel de destaque na luta pela vingança do irmão, participando de diversos combates e convertendo sua morte no principal tema de sua poesia. Seus poemas mais característicos são elegias, especialmente dedicadas a Culaibe, nas quais o lamento, a exaltação das virtudes do morto e as ameaças contra seus inimigos se combinam à obrigação tribal de vingança. A memória dessa atuação sobreviveu muito além das antigas tradições dos Dias Árabes: no folclore e na literatura popular, Almualhil tornou-se conhecido como Azir Salime (al-Zīr Sālim) e figura central das reelaborações épicas e romanescas da Guerra de Albaçus.

Na história da poesia árabe, é tradicionalmente creditado com papel pioneiro no desenvolvimento da cássida. Fontes medievais atribuem-lhe o refinamento da poesia dos antigos árabes, a composição das primeiras cássidas com mais de dez versos e, segundo algumas tradições, a própria criação da forma clássica do gênero. Embora apenas uma parcela de sua produção tenha sido preservada, são-lhe atribuídas cerca de cinquenta composições de extensões variadas, predominantemente lamentos pela morte de Culaibe, além de poemas amorosos, bélicos, báquicos e de ameaça. Seus versos foram posteriormente empregados por lexicógrafos e geógrafos como testemunhos da língua e da toponímia árabes antigas e continuaram a circular na tradição literária, alguns deles musicados e executados nas cortes califais.

Vida

Origens, nome e família

Almualhil pertencia aos taglibitas, mais especificamente aos juxamitas, e nasceu numa família proeminente do Négede. É considerado um dos mais antigos poetas árabes cujas notícias e composições chegaram à atualidade. As fontes o descrevem na juventude como um homem belo e eloquente, dedicado a uma vida de bebida, divertimentos e relações amorosas. Era irmão de Culaibe ibne Rebia, chefe dos taglibitas, e tio materno do poeta Inru Alcaice ibne Hujer, que, segundo a tradição, teria aprendido com ele a arte da poesia. Embora Açuiuti registre seu nome completo como Inru Alcaice ibne Rebia ibne Murra ibne Alharite, a maioria das fontes e os próprios poemas que lhe são atribuídos empregam o nome Adi. Inru Alcaice é um nome de origem pagã e significa "servo de Caice". Almualhil (al-Muhalhil) era originalmente um epíteto, cuja origem recebeu diferentes explicações. Segundo uma tradição, teria sido assim chamado por haver refinado a poesia árabe, afastando-a do estilo considerado áspero dos antigos poetas do deserto, ornamentando-a com sentimentos mais delicados e sendo o primeiro a compor cássidas com mais de dez versos. A tradição de que teria desempenhado papel pioneiro no desenvolvimento da cássida clássica também é registrada por fontes medievais citadas pela Encyclopaedia of Islam, que chegam a atribuir-lhe a criação dessa forma poética. Outras explicações relacionam o epíteto ao emprego da expressão halhaltu em sua poesia, ao hábito de usar roupas finas ou, em sentido depreciativo, à suposta fraqueza e falta de vigor de seus versos.

Outro epíteto pelo qual ficou conhecido foi Azir (al-Zīr). Segundo uma tradição, seu irmão Culaibe teria passado a chamá-lo de zīr al-nisāʾ, em referência à frequência com que Almualhil procurava a companhia de mulheres. Outra versão afirma que o apelido lhe teria sido dado de forma satírica pelos membros de sua tribo depois da morte de Culaibe, porque durante algum tempo teria se limitado a ameaçar os responsáveis pelo assassinato sem efetivar a vingança. Na literatura popular e no folclore desenvolvidos em torno de seus feitos, tornou-se conhecido como Azir Salime (al-Zīr Sālim), e Salime passou a ser apresentado como seu nome pessoal. Almualhil não teria deixado descendentes masculinos e recebeu a cúnia Abu Laila em referência à filha mais velha, Laila. Esta se casou com o primo Cultume ibne Maleque, união da qual nasceu Anre ibne Cultume, um dos mais célebres poetas das Mu'allaqat. Outras tradições genealógicas atribuem-lhe duas filhas, Ubaida e Xuba. Ubaida teria se casado com o rei Moáuia Alcair ibne Anre Almadiji e dado origem aos ubaidaítas (Banu Ubaida), enquanto dos descendentes de Xuba teriam surgido os Banu Xuba do Hejaz.

Guerra de Albaçus

A trajetória de Almualhil ficou estreitamente associada à Guerra de Albaçus, prolongado ciclo de conflitos entre os becritas e os taglibitas do qual se tornou um dos principais chefes e poetas. Segundo a tradição, a guerra teve origem nas tensões provocadas pelo comportamento de seu irmão Culaibe, que exercia autoridade sobre extensas áreas de pastagem e proibia outros grupos de utilizá-las sem sua permissão. Culaibe demarcava simbolicamente essas áreas levando consigo um pequeno cão e declarando proibido o território até onde seus latidos pudessem ser ouvidos, costume ao qual as fontes relacionam seu próprio epíteto, Culaibe, em substituição ao nome Uail. O episódio que teria precipitado o conflito envolveu uma camela chamada Sarabi. As tradições divergem quanto à propriedade do animal, atribuindo-o a Albaçus binte Munquide, a um de seus protegidos ou a Sade ibne Xumais Aljurmi, hóspede jarmita que se encontrava sob a proteção de seu sobrinho Jassas ibne Murra. Na versão preservada por Ibne Alatir, Sarabi pertencia a Sade e pastava juntamente com as camelas de Jassas. Ao encontrá-la entre os animais, Culaibe ordenou que não voltasse às pastagens que havia reservado. Jassas recusou-se a afastá-la, levando Culaibe a ameaçar atravessar-lhe o úbere com uma flecha caso tornasse a encontrá-la; Jassas respondeu que, se isso acontecesse, atravessaria com sua lança o peito do próprio Culaibe. Posteriormente, Culaibe encontrou novamente Sarabi e cumpriu a ameaça, ferindo-lhe o úbere. Sade e Albaçus lamentaram publicamente a afronta, e Jassas declarou que mataria em compensação um camelo maior que Sarabi, chamado Galal (Ghallāl), célebre garanhão de Culaibe, numa alusão velada ao próprio chefe taglibita.

Albaçus teria ainda composto versos lamentando a afronta e incitando Jassas a reagir. Este, que além de sobrinho de Albaçus era irmão de Jalila, esposa de Culaibe, acabou matando o cunhado, tradicionalmente por volta de 495. O assassinato desencadeou a hostilidade aberta entre becritas e taglibitas e deu início ao ciclo de combates posteriormente conhecido como Guerra de Albaçus. A morte do irmão transformou Almualhil numa das figuras centrais da guerra. Movido pela obrigação de vingá-lo, participou ativamente dos sucessivos confrontos entre as duas tribos e fez da morte de Culaibe um dos temas dominantes de sua poesia. As tradições distinguem cinco grandes combates no decorrer do conflito: os dias de Unaiza, Uaridate, Anaí, Adanaibe e Alcuçaibate. No Dia de Uaridate, Almualhil matou Hamame ibne Murra, irmão de Jassas e seu antigo companheiro de bebida, e Bujair, filho de Alharite ibne Ubade. A morte de Bujair levou Alharite, que até então permanecera afastado da guerra, a abandonar sua neutralidade e participar ativamente dos combates contra os taglibitas. A tradição situa a morte de Jassas no Dia de Quida, por volta de 534, mas o prolongamento do conflito teria acabado por desgastar o próprio Almualhil. Cansado da guerra, deixou a região dos combates no Négede e passou a circular entre diferentes tribos. No Iêmem, hospedou-se entre os jumbitas, ramo dos madijitas. Quando membros do grupo pediram a mão de sua filha Maia, Almualhil teria inicialmente recusado, mas acabou obrigado a entregá-la em casamento por um dote considerado modesto, episódio que lhe valeu censuras entre os membros de sua própria tribo. Posteriormente abandonou o Iêmem e se estabeleceu na região de Iamama.

Morte

As tradições sobre os últimos anos e a morte de Almualhil são contraditórias. Algumas afirmam que, depois de abandonar a Guerra de Albaçus, perdeu a razão e passou a viver isolado no deserto; outras situam sua morte depois de ter sido capturado pela segunda vez por Alharite ibne Ubade, pai de Bujair. As cronologias propostas igualmente divergem, situando sua morte aproximadamente noventa ou cem anos antes da Hégira, em 525, 530 ou 531. Uma tradição de caráter anedótico atribui sua morte a dois escravos que o acompanhavam. Depois de matá-lo, eles teriam procurado Sulaima, filha de Culaibe, ou Hujer, filho deste, e afirmado que Almualhil lhes confiara antes de morrer um verso anunciando que jazia assassinado no deserto. Sulaima teria percebido que o verso estava incompleto e que seu tio, poeta experiente, não poderia ter composto daquela maneira. Ao reconstruir um segundo verso que advertia para que os dois escravos não fossem deixados vivos, compreendeu que Almualhil havia ocultado na composição a identidade de seus assassinos e ordenou que fossem mortos.

Poesia

Almualhil é considerado um dos mais antigos poetas árabes cujas composições chegaram à atualidade e ocupa posição destacada na tradição sobre o desenvolvimento inicial da poesia árabe. Fontes antigas atribuem-lhe papel pioneiro na transformação de suas formas poéticas: segundo uma tradição, teria sido o primeiro a afastar a poesia do estilo áspero associado aos poetas do deserto, introduzindo uma expressão mais refinada e sentimentos mais delicados, além de compor cássidas com mais de dez versos. A Encyclopaedia of Islam registra igualmente que algumas fontes lhe atribuem a criação da forma da cássida clássica. Essa reputação aparece também na tradição segundo a qual seu sobrinho Inru Alcaice teria aprendido com ele a arte poética. A maior parte dos poemas que lhe são atribuídos está diretamente relacionada à morte de seu irmão Culaibe e à Guerra de Albaçus. Suas composições mais características são elegias () nas quais lamenta a perda do irmão, mantém viva sua memória e expressa repetidamente o desejo de vingança contra seus assassinos. Nelas, Culaibe é apresentado como chefe generoso, corajoso e respeitado, cujas opiniões eram acatadas e diante de quem os demais permaneciam em silêncio, além de homem dotado de clemência e autocontrole. Em versos tradicionalmente situados no sétimo ano após sua morte, Almualhil lamenta que o mundo tivesse perdido seu valor sem Culaibe e descreve as noites de tristeza durante as quais continuava a chamá-lo na esperança de que retornasse. A associação entre poesia e vingança fez dessas elegias parte integrante da própria memória literária da Guerra de Albaçus, pois a recordação reiterada do morto contribuía simultaneamente para celebrar sua posição e perpetuar a obrigação de vingá-lo.