Manuel Figueira (Mindelo, 1938 – Mindelo, 8 de outubro de 2023) foi um artista plástico cabo-verdiano. A sua produção artística, desenvolvida sobretudo através da pintura, do desenho e de técnicas ligadas às artes têxteis, esteve profundamente relacionada com a cultura popular, a tradição oral e o quotidiano de Cabo Verde. Foi também uma figura importante na revitalização do artesanato cabo-verdiano após a independência do país, tendo participado na fundação da Cooperativa Resistência e dirigido o Centro Nacional de Artesanato durante mais de uma década.
Biografia Manuel Figueira nasceu em 1938, na cidade do Mindelo, na ilha de São Vicente, Cabo Verde. Entre 1960 e 1974 viveu em Portugal, onde estudou pintura na Escola Superior de Belas-Artes de Lisboa. Segundo Clara Castilho, durante o período em Lisboa conviveu com artistas como Gil Teixeira Lopes e Eduardo Nery, bem como com Luísa Queirós, com quem viria a casar-se.
A sua carreira artística iniciou-se ainda durante o período de formação em Portugal. A primeira fase da sua produção esteve ligada à experiência lisboeta e incluiu representações do quotidiano urbano, figuras populares e cenas observadas na cidade. Entre as obras apresentadas posteriormente na retrospetiva Visões d'Infinito encontram-se trabalhos realizados em Lisboa desde a década de 1960, incluindo pinturas, desenhos e gravuras.
Em 1975, após a independência de Cabo Verde, regressou ao arquipélago para colaborar na revitalização da cultura popular cabo-verdiana. No ano seguinte, juntamente com Luísa Queirós e Bela Duarte, esteve na fundação da Cooperativa de Produção Artesanal Resistência, criada com o objetivo de recuperar e desenvolver a tradição da tecelagem cabo-verdiana.
A Cooperativa Resistência constituiu uma das bases para a criação do Centro Nacional de Artesanato, no Mindelo. O organismo foi dirigido por Manuel Figueira entre janeiro de 1978 e março de 1989. Durante esse período, o Centro promoveu a produção, o ensino e a divulgação do artesanato cabo-verdiano, com particular incidência nas técnicas têxteis. A atividade desenvolvida por Figueira esteve relacionada com a recuperação da panaria tradicional e com a introdução e desenvolvimento de técnicas como a tapeçaria e o batique.
Obra A obra de Manuel Figueira caracteriza-se pela atenção ao quotidiano e à cultura popular cabo-verdiana. Segundo a RTP, o artista definia-se como um "cronista das coisas simples", procurando na rua e nas experiências do dia a dia elementos para posteriormente recriar nas suas obras. Fazia frequentemente desenhos e apontamentos de situações observadas no quotidiano do Mindelo, incluindo pessoas, acontecimentos e episódios da vida popular.
A sua produção desenvolveu-se através de diferentes técnicas, incluindo guache, tinta-da-China, desenho, colagem, acrílico, gravura e trabalhos relacionados com a tecelagem e a tapeçaria. A sua linguagem artística foi influenciada pelas experiências vividas em Portugal e pelo contacto com diferentes correntes artísticas. Clara Castilho identifica na sua produção referências ao neorrealismo, surrealismo, abstracionismo e pop art, ao mesmo tempo que assinala uma mudança de orientação após o regresso a Cabo Verde, quando a sua obra passou a concentrar-se mais diretamente no povo e na cultura do arquipélago.
A tradição oral cabo-verdiana tornou-se uma das fontes importantes da sua produção. O antropólogo Manuel Brito-Semedo identificou na obra de Figueira a utilização de elementos provenientes da memória coletiva e da tradição oral das ilhas de Santo Antão e São Vicente. Entre os temas representados encontram-se personagens e histórias da tradição popular cabo-verdiana, incluindo narrativas relacionadas com Ti Lobe, Ti Ganga, Blimundo e figuras associadas às crenças e ao imaginário popular.
Entre 2003 e 2005 realizou, por exemplo, um conjunto de pinturas baseado em histórias da tradição oral, reunidas sob o título Era uma vez… 7ete! – histórias pintadas…. A série incluiu representações de narrativas como Feiticeiro de Santo Antão, Pacto para além da morte, Nhá Rosa do Monte Verde, Nhô Fula, Ô Lá Quêl Hôme de Tchapêu de Panamá, Ti Ganga-o-Ovo-e-Ti Lobe e Sanjõ Revoltióde na Rebêra de Juliõ.
A relação entre a pintura e a memória cultural também se manifesta na representação de personagens, festas, paisagens e atividades tradicionais. Entre as obras apresentadas na retrospetiva da Perve Galeria encontram-se trabalhos sobre a praia da Laginha, o Carnaval do Mindelo, a tecelagem tradicional e figuras populares como Nhô Griga.
Exposições Manuel Figueira iniciou a sua participação em exposições coletivas e individuais em 1963 e manteve atividade expositiva ao longo de várias décadas. A sua obra foi apresentada em Cabo Verde e em diversos países, incluindo Portugal, Áustria, Bélgica, Brasil, Espanha, França e Estados Unidos.
Em 2005, a Perve Galeria, em Lisboa, apresentou Visões d'Infinito – 40 anos de Pintura, considerada a primeira retrospetiva de Manuel Figueira realizada em Portugal. A exposição reuniu 126 obras realizadas entre 1963 e 2004, abrangendo diferentes períodos da sua produção artística.
A exposição apresentou obras correspondentes às várias fases da carreira do artista, desde os trabalhos realizados durante a permanência em Lisboa, na década de 1960, até à produção desenvolvida no Mindelo nas décadas seguintes.
Reconhecimento Em 1988, Manuel Figueira recebeu o Prémio Jaime Figueiredo, atribuído pelo Ministério da Cultura e Desportos de Cabo Verde pela obra Mercado de Peixe em espaço público.
Em 2000, por ocasião do 25.º aniversário da independência de Cabo Verde, foi condecorado com a Medalha do Vulcão, pelo seu contributo para as artes plásticas e para a cultura cabo-verdiana, bem como pelo seu trabalho ligado ao artesanato.
A sua obra encontra-se representada em coleções públicas e privadas em vários países. Entre as instituições e coleções referidas encontram-se o Museu de Ovar, o Banco Fomento, o Banco Totta & Açores, a Assembleia Nacional de Cabo Verde, a Embaixada de Cabo Verde junto das Nações Unidas, em Nova Iorque, a Fundação Pró-Justitae e o Palácio da Cultura de Cabo Verde.
Morte Manuel Figueira morreu em 8 de outubro de 2023, no Mindelo, aos 85 anos. Após a sua morte, o Governo de Cabo Verde destacou o seu papel como fundador do Centro Nacional de Artesanato e como uma figura de referência das artes visuais do país.
O seu irmão, o artista plástico Tchalé Figueira, afirmou que Manuel Figueira deixou um "património imenso" à cultura cabo-verdiana. O crítico de arte António Pinto Ribeiro considerou-o uma referência internacional e defendeu a necessidade de preservar, identificar e inventariar a sua obra.
Referências
Bibliografia
ROVISCO, Eduarda. "A tapeçaria em Cabo Verde". Etnográfica, vol. 26, n.º 1, 2022, pp. 233–256. BRITO-SEMEDO, Manuel. "Universo Criativo de Manuel Figueira". Esquina do Tempo, 13 de outubro de 2023. CASTILHO, Clara. "Manuel Figueira um pintor cabo-verdiano". A Viagem dos Argonautas, 17 de maio de 2014.
Ligações externas
Manuel Figueira no Centro Português de Serigrafia Manuel Figueira – Visões d'Infinito na Perve Galeria Manuel Figueira no Arte Informado
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