Abu Jafar Amade ibne Maomé ibne Ismail Almuradi Almisri Anaás (; c. – ), mais conhecido como Anaás (al-Naḥḥās), foi um gramático, filólogo e exegeta árabe do Egito. De origem muradita, recebeu sua formação inicial no Egito e posteriormente viajou ao Iraque, sobretudo a Baguedade, para estudar com alguns dos principais representantes da tradição filológica de sua época. Entre seus mestres estiveram Almubarrade, , Alaquefaxe, o Moço, e .
A atividade intelectual de Anaás abrangeu especialmente a gramática árabe, a filologia, as leituras e a exegese do Alcorão e o estudo da poesia árabe antiga. Em seus trabalhos linguísticos, reuniu e discutiu as opiniões de estudiosos anteriores, recorrendo às tradições gramaticais de Baçorá e Cufa. Dedicou-se também à interpretação dos testemunhos poéticos empregados pelos gramáticos e produziu comentários sobre importantes conjuntos da poesia árabe, incluindo as Muallaqat, a Hamasa e as Mufaddaliyyat.
Entre suas principais obras preservadas encontram-se o Iʿrāb al-Qurʾān e o Maʿānī al-Qurʾān, dedicados a aspectos linguísticos e exegéticos do texto corânico, o al-Nāsikh wa-l-mansūkh fī Kitāb Allāh, sobre os versículos considerados ab-rogantes e ab-rogados, e o al-Qaṭʿ wa-l-iʾtināf, sobre as pausas e retomadas na recitação corânica. No campo filológico, destacou-se ainda pelo Sharḥ abyāt Sībawayhi, comentário aos testemunhos poéticos do Kitab de Sibauai, e pelo Sharḥ al-qaṣāʾid al-tisʿ al-mashhūrāt, dedicado a nove célebres cássidas antigas. Anaás morreu afogado no Nilo em 338 A.H. (950).
Vida
Anaás nasceu provavelmente no Egito durante a década de 270 A.H. (c. 883), onde também recebeu sua formação inicial. Era originário dos muraditas, tribo iemenita, circunstância da qual derivava sua nisba Almuradi, e algumas fontes o mencionam também como Ibne Almuradi. Tornou-se conhecido pela alcunha Anaás (al-Naḥḥās, "o cobreiro"), relacionada ao ofício de trabalhar com cobre exercido por seu pai. Posteriormente deixou o Egito em busca de formação e percorreu diferentes centros de estudos do Iraque, sobretudo Baguedade, onde frequentou as aulas de estudiosos renomados. Durante o retorno ao Egito, passou por Ramla, na Palestina, e estudou com eruditos locais. Sua formação abrangeu especialmente as leituras do Alcorão, exegese corânica, hádice, jurisprudência, língua e literatura árabes. Entre os mestres de Anaás figuraram Almubarrade, , , Alaquefaxe, o Moço, , , , , Abu Becre ibne Alambari e . Entre seus discípulos são mencionados , , , , e . Anaás morreu em 5 de Dulrija de 338 A.H. (26 de maio de 950), em circunstâncias incomuns preservadas pelas fontes biográficas. Enquanto se encontrava às margens do Nilo analisando a métrica de alguns poemas, um homem teria interpretado sua atividade como um ato de magia destinado a provocar a diminuição das águas do rio e, consequentemente, o aumento dos preços. O homem empurrou Anaás para o Nilo, onde o estudioso morreu afogado.
Obras
A produção de Anaás concentrou-se especialmente nos estudos do Alcorão, na gramática e na filologia. Entre suas obras mais importantes encontra-se o Iʿrāb al-Qurʾān, dedicado à análise gramatical do texto corânico. Na elaboração da obra, Anaás reuniu e discutiu opiniões de gramáticos anteriores, recorrendo particularmente a autores das escolas de Baçorá e Cufa, e examinou diferentes possibilidades de análise das construções presentes no Alcorão. A obra chegou à atualidade e foi publicada em diferentes edições. Também se conserva seu Maʿānī al-Qurʾān, no qual são examinados problemas linguísticos, gramaticais e exegéticos do texto corânico. Outro trabalho nessa área é al-Nāsikh wa-l-mansūkh fī Kitāb Allāh, dedicado aos versículos considerados ab-rogantes e ab-rogados, no qual o autor reuniu opiniões transmitidas por estudiosos anteriores e discutiu as divergências existentes a respeito do tema.
Relaciona-se igualmente aos estudos corânicos o al-Qaṭʿ wa-l-iʾtināf, obra sobre os lugares em que a recitação pode ou deve ser interrompida e retomada e sobre as consequências dessas pausas para o significado do texto. O trabalho, que também circulou sob outros títulos, combina conhecimentos de leituras corânicas, gramática e interpretação e tornou-se uma das obras conhecidas de Anaás nessa área. Sua produção gramatical incluía ainda trabalhos dedicados às opiniões dos primeiros gramáticos e à interpretação de textos fundamentais da disciplina. Entre eles figurava o Sharḥ abyāt Sībawayhi, comentário aos versos empregados por Sibauai como testemunhos linguísticos no Kitab. Anaás escreveu também obras sobre questões gramaticais específicas, parte das quais não chegou à atualidade de forma independente.
A poesia árabe antiga constituiu outro campo importante de sua atividade. Anaás produziu comentários sobre célebres coletâneas e composições poéticas, entre os quais o Sharḥ al-qaṣāʾid al-tisʿ al-mashhūrāt, comentário a nove famosas cássidas antigas, que inclui poemas das Muallaqat e constitui uma fonte para a transmissão e interpretação dessa poesia. São-lhe atribuídos ainda comentários à Hamasa de Abu Tamame e às Mufaddaliyyat de Almufadal Adabi, além de outros trabalhos de caráter linguístico e literário. As fontes bibliográficas registram numerosas outras obras de Anaás, algumas conhecidas somente pelo título ou por citações preservadas em autores posteriores, abrangendo temas como gramática, lexicografia, poesia, leituras e exegese corânicas.
Bibliografia
Categoria:Muraditas Categoria:Mortes por afogamento Categoria:Árabes do século IX Categoria:Árabes do século X Categoria:Reino Tulúnida Categoria:Pessoas do Califado Abássida