Abu Daúde Assijistani (), nome completo Abu Daúde Solimão ibne Alaxate ibne Isaque Assijistani Alazedi (; Sistão, 817 ou 818 – Baçorá, ), foi um estudioso muçulmano especializado em hádice e jurisprudência islâmica. De origem azedita, iniciou seus estudos no Sistão e percorreu importantes centros de ensino do mundo islâmico, entre eles Baguedade, Baçorá, Meca, Cufa, Damasco e o Egito, estudando com numerosos tradicionistas. Entre seus mestres estiveram Amade ibne Hambal, e Ali ibne Almadini, e entre seus discípulos figuraram Maomé ibne Issa Atirmidi e Anaçai.
Abu Daúde tornou-se uma das principais autoridades de sua época na crítica e transmissão de hádices, destacando-se pela avaliação dos transmissores e pela identificação de tradições fracas e de defeitos nas cadeias de transmissão. Sua principal obra, o Sunan, reúne cerca de tradições selecionadas de um conjunto muito maior reunido durante sua atividade como tradicionista e tornou-se uma das seis coleções que posteriormente constituíram os Seis Livros. Escreveu também obras sobre tradições mursais, jurisprudência, crítica dos transmissores e ascetismo, entre elas o al-Marāsīl, o Masāʾil al-Imām Aḥmad ibn Ḥanbal e a Risālat Abī Dāwūd ilā ahl Makka fī waṣf Sunanihi.
Vida
Abu Daúde Assijistani nasceu no Sistão em 202 A.H. (817–818), embora também se tenha proposto o ano de 203 A.H. (818–819). Seu nome completo era Abu Daúde Solimão ibne Alaxate ibne Isaque Assijistani Alazedi. Sua família era originária da tribo iemenita dos azeditas, razão pela qual também recebeu a nisba Alazedi, além de Assijezi, igualmente alusiva à sua origem sistanesa. Segundo uma tradição, seu avô chamava-se Bixer ou Xadade, enquanto seu bisavô Inrane teria combatido ao lado de Ali ibne Abi Talibe na Batalha de Sifim, na qual teria morrido. Pertencia a uma família abastada, cujas fundações pias permaneceram em funcionamento durante muito tempo. Abu Daúde iniciou seus estudos no Sistão e, aos dezoito anos, empreendeu viagens com o objetivo de aprofundar seus conhecimentos de hádice. Dirigiu-se inicialmente a Baguedade e depois a Baçorá, onde permaneceu por longo período. Entre seus primeiros mestres encontrava-se , tradicionista de Baçorá de quem teria obtido particular proveito. Posteriormente percorreu os principais centros de estudos islâmicos de seu tempo e estudou com numerosos estudiosos que também foram mestres de Albucari e Muslim ibne Alhajaje. Em Meca, estudou com e Solimão ibne Harbe; em 221 A.H. (836), em Cufa, com e ; em Alepo, com ; em Harrã, com ; em 222 A.H. (837), em Hómece, com e ; em Damasco, com ; no Coração, com ; em Bactro, com ; e no Egito, com . Entre outros mestres destacados figuraram Ali ibne Almadini, e . Ibne Hajar de Ascalão estimou em cerca de trezentos o número de seus mestres.
Em algumas de suas viagens, Abu Daúde levou consigo seu filho Abedalá, nascido em 230 A.H. (844–845) e posteriormente conhecido como , proporcionando-lhe desde cedo formação no hádice. Seu irmão Maomé ibne Alaxate também os acompanhou em parte dessas viagens. Durante suas estadias em Baguedade, Abu Daúde frequentou durante longo período os círculos de ensino de Amade ibne Hambal, com quem estudou questões de jurisprudência e dos princípios da jurisprudência, posteriormente reunidas em seu Masāʾil al-Imām Aḥmad ibn Ḥanbal. Segundo uma tradição, Amade também transmitiu um hádice recebido de Abu Daúde e teria examinado e aprovado seu Sunan; caso esse relato seja correto, Abu Daúde teria composto a obra antes dos quarenta anos. Entre seus mestres, considerava Iáia ibne Maine o maior conhecedor e memorizador de hádices, Amade ibne Hambal o que melhor compreendia sua dimensão jurídica e Ali ibne Almadini o maior especialista em seus defeitos ocultos.
Ao longo de sua formação, Abu Daúde residiu por períodos prolongados em diversas cidades, permanecendo, segundo a TDV, vinte anos em Tarso. Depois de retornar ao Sistão, também esteve em Herate e Baguedade. Nesta última cidade, foi procurado pelo emir Almuafaque, irmão do califa Almutâmide. O emir pediu-lhe que se estabelecesse em Baçorá, que havia sido devastada pela Revolta Zanje, argumentando que a presença do estudioso atrairia alunos de diversas regiões e contribuiria para revitalizar a cidade. Abu Daúde aceitou o pedido e estabeleceu-se em Baçorá provavelmente cinco ou seis anos antes de sua morte. Numerosos estudiosos receberam hádices de Abu Daúde. Entre seus discípulos estavam seu filho , Maomé ibne Issa Atirmidi, , possivelmente Anaçai, , , , e . Entre os alunos de Baçorá, e tornaram-se particularmente conhecidos por transmitir seu Sunan. Abu Daúde morreu em Baçorá em 16 de Xaual de 275 A.H. (21 de fevereiro de 889) e foi sepultado junto ao túmulo de Sufiane Atauri.
Estudos de hádice
Abu Daúde destacou-se particularmente pela capacidade de distinguir os hádices fracos dos autênticos, identificar defeitos sutis nas transmissões e avaliar criticamente os transmissores. Evitava emitir juízos sobre transmissores acerca dos quais não possuísse informações seguras e não considerava suficientes acusações genéricas contra sua confiabilidade, exigindo que fossem explicitadas as razões pelas quais haviam sido criticados. Ao mesmo tempo, era rigoroso com aqueles que considerava incapazes ou inadequados para a transmissão de hádices, não se abstendo de criticar nem mesmo pessoas próximas. Seu método de seleção admitia uma tradição quando não houvesse interrupção em sua cadeia de transmissão e não existisse consenso sobre a fraqueza de seus transmissores. Segundo a tradição preservada acerca da composição do Sunan, Abu Daúde teria selecionado para a obra cerca de tradições entre aproximadamente 500 mil que havia registrado ao longo da vida. Sua competência recebeu avaliações particularmente elevadas de estudiosos contemporâneos e posteriores. Muça ibne Harune afirmou não ter conhecido ninguém superior a ele; seu discípulo Abu Becre Alhalal considerava-o um dos principais imames de seu tempo e uma autoridade na determinação da solidez das tradições; e qualificou-o como o imame do hádice de sua época. Ibne Hibane incluiu-o entre os maiores estudiosos por seu conhecimento de jurisprudência e hádice, memória e piedade, enquanto Ibne Manda o enumerou, juntamente com Albucari, Muslim e Anaçai, entre os quatro tradicionistas capazes de distinguir as tradições autênticas das defeituosas.
A reputação de Abu Daúde aumentou especialmente depois da composição do Sunan. Além de sua autoridade no hádice, destacou-se pelo conhecimento de jurisprudência. Embora não tenha seguido por imitação uma escola jurídica específica, diferentes autores posteriores procuraram incluí-lo entre os juristas de suas respectivas escolas: Abu Ialá ibne Alfarrá e contaram-no entre os hambalitas ligados a Amade ibne Hambal, enquanto o incluiu entre os juristas xafeítas. Em sua abordagem religiosa, Abu Daúde atribuía à suna, depois do Alcorão, posição central e tomou Amade ibne Hambal como modelo de conduta, sendo descrito como praticante de uma vida ascética. Sua valorização da independência do saber também aparece numa tradição envolvendo Almuafaque. O emir teria solicitado que Abu Daúde ministrasse aulas particulares do Sunan a seus filhos, mas o estudioso recusou-se a conceder-lhes tratamento exclusivo. Os filhos do emir passaram então a frequentar suas aulas juntamente com os demais estudantes, embora acomodados numa seção separada. Abu Daúde também atribuía particular importância ao conteúdo prático das tradições e considerava quatro hádices de seu Sunan suficientes como fundamentos para quem pretendesse viver como bom muçulmano: os relativos à intenção das ações, ao abandono do que não diz respeito ao indivíduo, ao desejo para o irmão daquilo que se deseja para si mesmo e à distinção entre o lícito, o ilícito e as questões duvidosas.
Obras
A principal obra de Abu Daúde é o Sunan, uma das coleções que posteriormente integraram os Seis Livros. A obra reúne cerca de hádices relacionados sobretudo a questões de direito islâmico, abrangendo tradições de diferentes graus de autenticidade; Abu Daúde procurou indicar aquelas que considerava extremamente fracas. O livro alcançou ampla circulação no mundo islâmico e recebeu numerosos comentários. Outra obra importante é o al-Marāsīl, que reúne 544 hádices mursais e é apresentado pela TDV como uma obra pioneira nesse campo. O Masāʾil al-Imām Aḥmad ibn Ḥanbal, também conhecido por título alternativo, reúne respostas de Amade ibne Hambal a questões registradas por Abu Daúde e encontra-se organizado segundo capítulos de jurisprudência. Já o Ijābātuhu ʿalā suʾālāt Abī ʿUbayd Muḥammad ibn ʿAlī ibn ʿUthmān al-Ājurrī, compilado por seu discípulo , contém suas respostas a perguntas relativas à avaliação crítica dos transmissores de hádice e era composto por cinco partes. Abu Daúde escreveu ainda a Risālat Abī Dāwūd ilā ahl Makka fī waṣf Sunanihi, na qual descreveu seu próprio Sunan e o comparou com obras semelhantes, procedimento pouco comum em sua época. Entre seus demais escritos mencionados pelas fontes encontram-se o Kitāb al-Zuhd, sobre ascetismo; o Tasmiyat al-ikhwa alladhīna ruwiya ʿanhum al-ḥadīth, dedicado a irmãos dos quais foram transmitidos hádices; o Kitāb al-Baʿth wa-l-nushūr; e o Kitāb al-Qadar, também conhecido como al-Radd ʿalā ahl al-Qadar e al-Radd ʿalā al-Qadariyya. A sobrevivência desta última obra é desconhecida.
Bibliografia
Categoria:Azeditas Categoria:Árabes do século IX Categoria:Pessoas do Califado Abássida