Micraz ibne Háfece ibne Alacaife () foi um chefe árabe dos coraixitas de Meca, pertencente aos maicitas, um ramo dos amiritas. É mencionado nas fontes desde o período anterior à Batalha de Badre, quando esteve envolvido nas disputas de sangue entre os coraixitas e os becritas dos quinanaítas. Após a batalha, negociou o resgate de Suail ibne Anre, oferecendo-se como garantia de sua libertação até que o pagamento fosse enviado de Meca.
Micraz teve papel particularmente destacado nas relações entre os coraixitas e Maomé durante os acontecimentos que conduziram ao Tratado de Hudaibia, em 628. Inicialmente comandou um grupo enviado para surpreender o acampamento muçulmano, mas posteriormente atuou como representante coraixita nas negociações, presenciou o Juramento de Riduão e figurou entre as testemunhas do tratado. No ano seguinte, durante a Unra da Compensação, foi novamente enviado pelos coraixitas ao encontro de Maomé para assegurar o cumprimento das condições acordadas em Hudaibia, retornando a Meca com a confirmação de que os muçulmanos entrariam na cidade nos termos estabelecidos.
Vida
Micraz ibne Háfece ibne Alacaife pertencia aos maicitas, um ramo dos amiritas dos coraixitas de Meca. Aluaquidi o menciona já nos acontecimentos que antecederam a Batalha de Badre, no contexto das disputas de sangue entre os coraixitas e os becritas dos quinanaítas. Um irmão de Micraz havia sido morto por um homem dos becritas em represália por uma morte anterior. Enquanto estava em Marre Azarã, Micraz encontrou , chefe dos becritas, que viajava montado num camelo. Micraz apeou-se, desembainhou a espada e matou Amir. Em seguida, dirigiu-se durante a noite a Meca e pendurou a espada do morto sob a cobertura da Caaba. Na manhã seguinte, os coraixitas reconheceram a arma e souberam que Micraz havia realizado a vingança. O episódio provocou forte ressentimento entre os becritas, que passaram a desejar a morte de dois ou três chefes coraixitas em retaliação. Após a Batalha de Badre, Micraz participou das negociações para o resgate dos coraixitas capturados pelos muçulmanos. Suail ibne Anre, que havia sido feito prisioneiro por , teve seu resgate negociado por Micraz, que concordou com o pagamento de quatro mil. Como o dinheiro não estava imediatamente disponível, Suail foi libertado enquanto Micraz permaneceu em seu lugar como garantia. Posteriormente, Suail enviou de Meca o dinheiro necessário para a libertação de Micraz.
Micraz desempenhou um papel destacado nos acontecimentos que conduziram ao Tratado de Hudaibia, em 628. Durante a permanência de Maomé e seus seguidores na região, os coraixitas enviaram durante a noite um grupo de cinquenta homens sob o comando de Micraz, com a missão de rondar o acampamento muçulmano na esperança de capturar alguém ou surpreender seus ocupantes. A operação fracassou quando Maomé ibne Maslama e seus companheiros capturaram o grupo e o conduziram à presença de Maomé. Após novos confrontos e capturas, Micraz passou a atuar como um dos representantes dos coraixitas nas negociações. Ele, e Suail ibne Anre foram enviados ao encontro de Maomé. Quando Suail solicitou a devolução dos homens coraixitas capturados, Maomé condicionou sua libertação à devolução dos seus próprios seguidores retidos em Meca. Os três representantes consideraram justa a exigência e enviaram uma mensagem aos coraixitas solicitando que libertassem os muçulmanos que mantinham presos, o que permitiu a troca dos cativos.
Micraz e os demais representantes presenciaram então o Juramento de Riduão, durante o qual os seguidores de Maomé lhe prestaram juramento e demonstraram disposição para combater. Micraz, Huaitibe e Suail retornaram aos coraixitas e relataram a rapidez com que os muçulmanos haviam aderido ao juramento e sua disposição para defender Maomé. Diante dessas informações, os dirigentes coraixitas concluíram que seria preferível estabelecer a paz, permitindo que Maomé retornasse no ano seguinte para permanecer três dias em Meca e realizar seus ritos religiosos. Durante as negociações, Abu Jandal, filho de Suail, conseguiu escapar de Meca e chegou ao acampamento muçulmano ainda acorrentado. Suail exigiu sua devolução como condição para concluir o acordo e, apesar dos apelos de Maomé, recusou-se a abrir uma exceção para o próprio filho. Micraz e Huaitibe intervieram e prometeram a Maomé que protegeriam Abu Jandal; levaram-no para um recinto fortificado e impediram que Suail continuasse a maltratá-lo.
Micraz permaneceu entre os representantes coraixitas durante a redação definitiva do tratado. Aluaquidi o inclui nominalmente entre as testemunhas do documento, juntamente com Abu Becre, Omar ibne Alcatabe, Abederramão ibne Aufe, Sade ibne Abi Uacas, Otomão ibne Afane, Abu Ubaida ibne Aljarrá, Maomé ibne Maslama e Huaitibe ibne Abede Aluzá. O acordo estabeleceu, entre outras disposições, uma trégua de dez anos, reconheceu a possibilidade de outras tribos se aliarem a qualquer uma das partes e determinou que Maomé e seus seguidores retornassem a Medina naquele ano, podendo entrar em Meca no ano seguinte e permanecer ali durante três dias. No ano seguinte, quando Maomé se aproximou de Meca para realizar a Unra da Compensação, os coraixitas voltaram a recorrer a Micraz. Ao saberem que os muçulmanos traziam cavalos e numerosas armas, temeram que Maomé pretendesse violar as condições estabelecidas em Hudaibia. Micraz foi enviado com um grupo de coraixitas para encontrá-lo em e recordou-lhe que o tratado permitia aos muçulmanos entrar no santuário apenas com as armas próprias de viajantes, isto é, espadas embainhadas. Maomé respondeu que entraria em Meca exatamente nas condições estipuladas pelo acordo. Micraz retornou rapidamente a Meca e informou aos coraixitas que Maomé respeitaria o tratado e não entraria na cidade com as demais armas. Diante da notícia, os coraixitas deixaram Meca e se retiraram para as elevações circundantes, declarando que não desejavam assistir à entrada de Maomé e seus seguidores. Os muçulmanos puderam então entrar na cidade e realizar a unra prevista pelo acordo de Hudaibia.
Bibliografia
Categoria:Árabes do século VI Categoria:Árabes do século VII Categoria:Amiritas (coraixitas)