Abedalá ibne Laia (; 715/6–), cujo nome era Abedalá ibne Laia, foi um tradicionalista, jurista e cádi egípcio, considerado um dos principais estudiosos do Egito de sua época. Estudou com numerosos representantes da geração dos tabis e transmitiu tradições a estudiosos como Sufiane Atauri, e Abedalá ibne Almubaraque. Em 155 A.H. (772), foi nomeado cádi do Egito pelo califa abássida Almançor, função que exerceu durante cerca de dez anos.
A confiabilidade de Ibne Laia como tradicionalista foi objeto de avaliações divergentes, sobretudo em razão das críticas a seus métodos de transmissão e da perda de seus livros num incêndio ocorrido nos últimos anos de sua vida. Apesar dessas reservas, suas tradições constituíram uma fonte importante para a história do Egito e foram utilizadas por autores posteriores. Um papiro contendo cerca de duzentos hádices transmitidos principalmente por seu intermédio, posteriormente denominado Ṣaḥīfat ʿAbd Allāh ibn Lahīʿa, é considerado um dos mais antigos documentos escritos sobreviventes da tradição islâmica.
Vida
Ibne Laia nasceu no Cairo em 96 A.H. (715) ou 97 A.H. (716). Iniciou ainda jovem seus estudos e prosseguiu sua formação por meio de viagens a diferentes cidades. Segundo as fontes, encontrou-se com mais de setenta estudiosos pertencentes à geração dos tabis. Entre os mestres dos quais transmitiu tradições estavam Abederramão ibne Hurmuz, Atá ibne Abi Rabá, , , , , Hixame ibne Urua e Anre ibne Dinar. Entre os estudiosos que transmitiram hádices recebidos dele figuraram Sufiane Atauri, Xuba ibne Alhajaje, , Abedalá ibne Almubaraque, , , e Alauzai. Em 138 A.H. (755), Ibne Laia participou de algumas campanhas militares na região da Síria. Em 155 A.H. (772), foi nomeado cádi do Egito pelo califa abássida Almançor, recebendo um salário mensal de trinta dinares. Foi incumbido também de cuidar do tesouro público e permaneceu no cargo de cádi durante cerca de dez anos. Morreu no Cairo em 174 A.H. (790) e foi sepultado no . Algumas fontes situam sua morte em 173 A.H., e existem ainda divergências quanto ao mês, mencionando-se Rabi Alual e Jumada Atani.
Atividade como tradicionalista
Ibne Laia foi considerado um dos principais tradicionalistas do Egito de sua época, embora a avaliação da confiabilidade de suas transmissões tenha sido objeto de considerável divergência. Maleque ibne Anas, Amade ibne Hambal, Sufiane Atauri, Laite ibne Sade e Abedalá ibne Uabe consideraram-no um transmissor confiável, enquanto Anaçai, Abu Zura Arrazi, , e classificaram-no como fraco. Parte dos estudiosos relacionou as deficiências de suas transmissões ao incêndio de sua casa, ocorrido em 170 A.H. (786), no qual teriam sido destruídos os livros em que registrava suas tradições, ou ao enfraquecimento de sua memória depois de sofrer uma paralisia nos últimos anos de vida. Esses estudiosos consideravam, por isso, aceitáveis as tradições transmitidas por Ibne Laia antes desses acontecimentos. Outros, porém, criticaram também sua prática de transmitir relatos provenientes de pessoas que conhecia insuficientemente, de recorrer ao tadlis para ocultar a fraqueza de seus mestres e de conceder autorização para a transmissão de textos que lhe eram apresentados sem examiná-los previamente. Por essas razões, alguns estudiosos manifestaram reservas em relação ao conjunto de suas transmissões e admitiram seu emprego sobretudo como material corroborativo. Os autores das seis principais coleções canônicas de hádice procuraram utilizar suas tradições quando transmitidas por discípulos conhecidos e confiáveis ou quando o mesmo relato era preservado por outra via.
Adaabi situou Ibne Laia e Laite ibne Sade entre os maiores estudiosos do Egito de seu tempo, comparando sua posição à de Maleque em Medina, Alauzai na Síria, Mamar ibne Raxide no Iêmem e Xuba ibne Alhajaje e Sufiane Atauri no Iraque. Embora reconhecesse a necessidade de cautela diante das tradições fracas transmitidas por Ibne Laia, Adaabi considerava excessivo rejeitar integralmente suas transmissões. Ibne Laia demonstrava particular empenho na coleta de hádices. Costumava carregar ao pescoço uma bolsa de couro (kharīṭa) e, ao encontrar estudiosos vindos de outras cidades, perguntava-lhes de quem haviam registrado tradições. Quando encontrava um hádice que ainda não possuía, copiava-o e guardava-o na bolsa, costume que lhe valeu o epíteto de "Abu Alcarita" (Abū al-Kharīṭa). Possuía uma grande biblioteca composta tanto por suas próprias transmissões como por livros e sahifas contendo tradições cuja transmissão lhe fora autorizada por seus mestres. Como muitos desses mestres haviam conhecido companheiros envolvidos nas primeiras conquistas islâmicas, suas transmissões preservavam quantidade significativa de informações sobre a história do Egito. Por essa razão, Ibne Laia figura entre as fontes mais frequentemente utilizadas por em seu Futūḥ Miṣr wa-akhbāruhā.
Obra atribuída
Embora as fontes medievais não mencionem nenhuma obra escrita por Ibne Laia, Carl Heinrich Becker identificou numa coleção de papiros conservada na biblioteca da Universidade de Heidelberga um manuscrito que preserva tradições atribuídas a ele. O documento foi posteriormente publicado por Raif Georges Khoury juntamente com um estudo sobre a vida e a atividade de Ibne Laia. Embora o manuscrito não contenha data nem título, cerca de três quartos de suas tradições provêm de Ibne Laia por intermédio de seu discípulo , razão pela qual os pesquisadores lhe atribuíram o título Ṣaḥīfat ʿAbd Allāh ibn Lahīʿa. O papiro possui 422 linhas e reúne cerca de duzentos hádices, tratando de algumas questões jurídicas, mas sobretudo de tradições relativas às fitan e malāḥim, isto é, às discórdias e acontecimentos escatológicos. É considerado particularmente importante por constituir um dos mais antigos documentos escritos sobreviventes do período islâmico e por ser apresentado como a mais antiga compilação conhecida de tradições dedicadas às fitan e malāḥim.
Bibliografia
Categoria:Árabes do século VIII Categoria:Pessoas do Califado Omíada Categoria:Pessoas do Califado Abássida Categoria:Cádi (juiz)