Abedalá ibne Almubaraque (), cujo nome completo era Abu Abederramão Abedalá ibne Almubaraque ibne Uadi Alhanzali Almaruazi (; –), foi um tradicionalista, jurista, asceta, comerciante e poeta muçulmano de Merve, no Coração. Viajou extensamente pelo mundo islâmico em busca de conhecimento e estudou com algumas das principais autoridades religiosas de sua época, entre elas Abu Hanifa, Sufiane Atauri, Maleque ibne Anas e Sufiane ibne Uiaina. Tornou-se especialmente conhecido como autoridade no hádice e no fiqh, conciliando essas atividades com o comércio, a peregrinação e a participação no jiade contra o Império Bizantino.
Considerado um dos principais tradicionalistas de sua geração, Abedalá teria recebido hádices de milhares de transmissores, enquanto seus livros reuniam mais de 20 mil tradições. Destacou-se pelo conhecimento dos transmissores e pela importância que atribuía ao isnad, ao mesmo tempo que desenvolveu uma orientação jurídica influenciada sobretudo por Abu Hanifa e Maleque ibne Anas. Sua reputação esteve igualmente associada ao ascetismo, à piedade e à generosidade, embora não entendesse o zuhd como abandono das atividades mundanas. Também deixou produção poética e diversas obras sobre hádice, jurisprudência, exegese, ascetismo e jiade, entre as quais o Kitāb al-Zuhd wa-l-raqāʾiq e o Kitāb al-Jihād, este considerado uma das primeiras obras dedicadas especificamente ao tema. Morreu em Hite, às margens do Eufrates, após retornar de uma expedição militar.
Vida e formação
Abedalá ibne Almubaraque nasceu em 118 A.H. (736), em Merve, então um dos principais centros culturais do Coração. Seu pai era de origem turca, e há uma tradição segundo a qual sua mãe também era turca, procedente da Corásmia. Passou a infância e a juventude em Merve, embora pouco se saiba sobre esse período. Seu primeiro mestre foi , estudioso de Merve. Por volta dos 23 anos, iniciou viagens em busca de conhecimento, prática que manteve nos anos seguintes, percorrendo Baçorá, Hejaz, Iêmem, Egito, Síria e diferentes regiões do Iraque. Durante essas viagens, Abedalá estudou hádice e fiqh com numerosos estudiosos. Entre seus mestres estiveram , Alauzai, , Sufiane Atauri, Maleque ibne Anas e Sufiane ibne Uiaina, além de Abu Hanifa, de quem foi discípulo e amigo. Também conquistou a estima de Hamade ibne Zaíde, uma das principais autoridades do hádice em Baçorá. Alguns de seus próprios mestres, como Mamar ibne Raxide e Sufiane Atauri, transmitiram tradições por sua autoridade; entre outros transmissores estiveram Abederramão ibne Mádi, , e . Robson registra ainda que estudou jurisprudência com Sufiane Atauri e Maleque ibne Anas e transmitiu o Muwatta deste último. Abedalá conciliou durante toda a vida a atividade intelectual com o comércio, do qual retirava seus meios de subsistência. Realizou repetidamente a peregrinação a Meca e participou de campanhas militares contra o Império Bizantino. Durante o califado de Harune Arraxide , combateu sobretudo nas regiões de Missis e Tarso, na fronteira bizantino-abássida. Uma tradição preservada pela Encyclopaedia of Islam afirma que alternava anualmente entre a peregrinação e o jiade. Em Ramadã de 181 A.H. (797), depois de retornar de uma expedição, morreu aos 63 anos em Hite, às margens do Eufrates, onde foi sepultado.
Hádice
Abedalá destacou-se particularmente como tradicionalista. Foi um dos primeiros estudiosos a realizar a compilação sistemática de hádices em Merve, circunstância que contribuiu para sua reputação no Coração. Amade ibne Hambal afirmou não conhecer, em sua época, ninguém mais dedicado à busca do conhecimento ou superior a Abedalá no campo do hádice. Segundo Iáia ibne Maine, seus livros continham mais de 20 mil tradições, número igualmente registrado pela Encyclopaedia of Islam. As fontes afirmam que ouviu hádices de cerca de quatro mil pessoas, embora tenha escolhido transmitir por autoridade de apenas aproximadamente mil delas. Evitava receber tradições de transmissores que considerava desqualificados e igualmente se recusava a ensinar hádices a pessoas que julgava despreparadas. Sua reputação como conhecedor das tradições era suficientemente elevada para que, durante uma permanência em Cufa, os estudiosos recorressem a ele quando surgiam divergências acerca de um hádice, chamando-o de "médico" dessa ciência. Mesmo durante suas campanhas militares, continuava a ensinar aos discípulos que considerava aptos.
As fontes relatam que, numa noite fria, discutiu um único hádice desde a oração noturna até o chamado para a oração da manhã. Era particularmente reconhecido pelo conhecimento dos transmissores e pelo domínio do fiqh al-ḥadīth, isto é, a compreensão jurídica das tradições. Seus hádices foram considerados adequados como prova pelos estudiosos e incorporados pelos autores das seis principais coleções canônicas, enquanto Muslim ibne Alhajaje incluiu tradições suas no Sahih. Abedalá atribuía importância fundamental ao isnad. Comparava aquele que pretendia aprender religião sem uma cadeia de transmissão a alguém que desejasse subir ao telhado de uma casa sem utilizar uma escada e afirmava que, sem o isnad, qualquer pessoa poderia dizer o que desejasse em matéria religiosa. Condenava severamente o tadlis e defendia a correção dos erros linguísticos e textuais introduzidos nas tradições pelos transmissores. Por essa razão, recomendava aos estudantes que submetessem os hádices aprendidos à revisão de alguém com domínio da gramática árabe.
Jurisprudência
Abedalá ocupou também posição importante no desenvolvimento do fiqh. Foi discípulo e amigo de Abu Hanifa e inicialmente adotou seu método jurídico. Referia-se a Abu Hanifa em termos particularmente elogiosos, considerando-o o mais versado dos homens em jurisprudência e compondo inclusive poemas em seu louvor. Após a morte de Abu Hanifa, passou a frequentar o círculo de Maleque ibne Anas. A combinação dessas duas formações levou-o a desenvolver uma orientação jurídica que reunia elementos das metodologias hanafita e maliquita. Embora geralmente incluído entre os hanafitas, aparece também em algumas obras biográficas maliquitas. Para Abedalá, a capacidade de emitir uma fátua exigia simultaneamente amplo conhecimento do hádice e domínio efetivo da jurisprudência. Considerava impossível sustentar uma opinião contrária ao Alcorão e à suna e, por isso, preferia que as posições jurídicas de Abu Hanifa fossem apresentadas não simplesmente como opiniões pessoais do jurista, mas como resultado de sua compreensão e interpretação das tradições. Seu método também se refletia no al-Sunan fī al-fiqh, no qual organizou o material tradicional segundo capítulos jurídicos.
Ascetismo e atividade social
Apesar de sua fama como asceta, Abedalá não entendia o zuhd como abandono das atividades mundanas. Para ele, o ascetismo consistia em não se tornar dependente do mundo e dos bens materiais, e não em renunciar inteiramente a eles. Sua própria vida era apresentada como aplicação desse princípio: continuou a comerciar, participou de campanhas militares, realizou repetidamente a peregrinação e ensinou ao longo da vida. A Encyclopaedia of Islam igualmente o caracteriza como homem profundamente piedoso e dedicado às práticas ascéticas. Abedalá reservava parte do dia à recordação de Deus e à reflexão, período durante o qual evitava conversar com outras pessoas, e considerava inadequado que os estudiosos permanecessem continuamente envolvidos na vida social. Isso, contudo, não significava defesa do isolamento permanente, que rejeitava. Sua riqueza comercial era empregada também no auxílio a estudiosos, estudantes de hádice e pobres. Segundo as fontes, distribuía anualmente cerca de 100 mil dirrãs e custeava as peregrinações de amigos de Merve, pagando suas despesas e até os presentes que adquiriam durante a viagem. Sua reputação de piedade tornou-se um dos elementos centrais de sua imagem nas fontes biográficas. Defendia que a pessoa deveria conservar continuamente a consciência de estar sob a vigilância de Deus e afirmava que alguém que evitasse cem coisas proibidas, mas não se abstivesse de uma única delas, não poderia ser considerado verdadeiramente piedoso. Segundo , emocionava-se de tal maneira ao ler seu próprio Kitāb al-Zuhd que chorava e deixava de perceber as pessoas ao seu redor. Era também conhecido pela generosidade e pela proteção dispensada aos estudantes e necessitados.
Poesia
Abedalá foi ainda considerado um dos poetas destacados de sua época. Seus poemas tratavam sobretudo de ascetismo, jiade e elogios a figuras religiosas, embora uma parte considerável de sua produção poética tenha se perdido. Os poemas conservados foram posteriormente reunidos e publicados por Mujāhid Muṣṭafā Bahjat na Majallat Maʿhad al-Makhṭūṭāt al-ʿArabiyya.
Obras
A produção atribuída a Abedalá reflete a diversidade de seus interesses religiosos e intelectuais. Sua obra mais conhecida sobre ascetismo é o Kitāb al-Zuhd wa-l-raqāʾiq, coletânea de tradições atribuídas a Maomé, seus companheiros e tabis acerca de temas morais e religiosos como devoção, sinceridade, confiança em Deus, veracidade, humildade e contentamento. A obra sobreviveu e foi publicada por Ḥabīb al-Raḥmān al-Aʿẓamī. O Kitāb al-Jihād, dedicado às virtudes, recompensas e importância religiosa do jiade, é considerado a primeira obra escrita especificamente sobre o assunto. Conserva 262 hádices e sobreviveu em um único manuscrito de quarenta fólios preservado na Biblioteca Municipal de Lípsia, posteriormente editado por Nazīh Ḥammād. Também sobreviveram o al-Musnad, cujo manuscrito conhecido se encontra na Biblioteca Zahiriyya, e o Kitāb al-Birr wa-l-ṣila, igualmente preservado em manuscrito. Outras obras atribuídas a Abedalá não chegaram à atualidade. O al-Sunan fī al-fiqh provavelmente organizava os hádices segundo capítulos de jurisprudência; o Kitāb al-Tafsīr seria uma obra exegética baseada em tradições, enquanto o Kitāb al-Tārīkh parece ter consistido numa obra biográfica dedicada aos transmissores de hádice. As fontes atribuem-lhe ainda o al-Arbaʿūn, considerado um dos primeiros exemplos do gênero das coletâneas de quarenta hádices, além do Kitāb al-Istiʾdhān e do Kitāb al-Manāsik, igualmente perdidos.
Bibliografia
Categoria:Turcos do século VIII Categoria:Pessoas do Califado Omíada Categoria:Pessoas do Califado Abássida Categoria:Naturais de Marve