Os mustaliquitas () foram uma tribo árabe pertencente aos cuzaaítas, descendente de Mustalique, também chamado Jazima. Após a perda do domínio cuzaaíta sobre Meca para os coraixitas, estabeleceram-se ao norte da cidade, na rota entre Meca e Medina, sobretudo nas proximidades de Cudaide, Rabigue e Usfã. Durante a Jailia, mantiveram estreitas relações com os coraixitas e integraram os alabixitas, confederação de tribos aliadas de Coraixe. Embora outros ramos dos cuzaaítas tenham se aproximado de Maomé após o surgimento do Islã, os mustaliquitas permaneceram no campo coraixita e participaram das batalhas de Uude e da Trincheira.
O conflito com Maomé culminou na Expedição de Almuraici, em 5 ou 6 A.H., na qual os mustaliquitas foram derrotados e numerosos integrantes da tribo foram capturados. Entre eles estava Juairia, filha do chefe Alharite ibne Abi Dirar, cujo posterior casamento com Maomé foi seguido pela libertação dos cativos e pela conversão de quase toda a tribo ao Islã. Os mustaliquitas passaram então a integrar a comunidade islâmica, construíram mesquitas em seus territórios e pagaram regularmente o zacate. As fontes deixam de registrar separadamente sua história depois dos primeiros anos do período islâmico, que passa a acompanhar a trajetória mais ampla dos cuzaaítas.
História
Os mustaliquitas eram um ramo dos cuzaaítas, descendente de Almustalique, cujo nome próprio seria Jazima. Pertenciam à descendência de Sade, um dos filhos de Anre ibne Luai, e sua genealogia é registrada como Almustalique (Jazima) ibne Sade ibne Anre ibne Luai (Rebia) ibne Harita. Sade teria também gerado Alhaiá, cujo nome próprio seria Amir e que deu origem aos , outro ramo dos cuzaaítas. O epíteto Almustalique teria sido atribuído a Jazima em razão da beleza e do tom agudo de sua voz, sendo também considerado o primeiro homem a cantar entre os cuzaaítas. Entre seus descendentes encontrava-se Alharite ibne Abi Dirar, chefe dos mustaliquitas no tempo de Maomé, cuja linhagem remontava a Almustalique através de Maleque, Aide e Habibe. Após os cuzaaítas, liderados por Anre ibne Luai, conquistarem Meca aos jurumitas e assumirem o controle da cidade e da Caaba, acabaram derrotados pelo chefe coraixita Cuçai ibne Quilabe. Quando abandonaram Meca, os mustaliquitas migraram para o norte juntamente com outros ramos da tribo e estabeleceram-se na região de Cudaide, na rota entre Meca e Medina. Os mustaliquitas possuíam a região de Alfur, situada a cerca de 96 milhas de Medina, e habitavam também as proximidades de Rabigue e Usfã, além de . Seus principais pontos de água eram e Almuraici. Suas atividades comerciais concentravam-se sobretudo na feira de Ucaz, e, durante a Jailia, cultuavam Hubal, e .
Nesse período, mantinham estreitas relações com os coraixitas. Embora os cuzaaítas tivessem desenvolvido relações amistosas com Coraixe e integrassem com eles os hums, conjunto de tribos que desfrutavam de privilégios especiais durante a peregrinação a Meca, alguns de seus ramos possuíam vínculos ainda mais estreitos com os coraixitas. Os mustaliquitas e os alhaiaítas faziam parte dos alabixitas (), confederação de tribos estabelecidas ao norte e ao sul de Meca e aliadas de Coraixe. Os mustaliquitas também mantinham relações com outras tribos da região. Em um conflito ocorrido na Jailia, derrotaram os hudailitas e mataram seu chefe, enquanto eram aliados dos mudlijitas, ramo dos descendentes de Abede Manate dos quinanaítas. Estes últimos figuravam entre as tribos que desfrutavam de privilégios religiosos e econômicos em virtude de suas alianças com os coraixitas, os mustaliquitas, os cuzaaítas e os dameraítas. No âmbito de sua aliança com os coraixitas, os mustaliquitas participaram ainda, durante o governo de Abede Almotalibe em Meca, da defesa contra um ataque dos becritas em , desempenhando papel importante na vitória.
Enquanto diversos membros e ramos dos cuzaaítas se aproximaram de Maomé desde os primeiros anos de sua pregação, em parte devido ao antigo pacto de amizade existente entre os cuzaaítas e os haxemitas, os mustaliquitas mantiveram sua aliança com os coraixitas. Outros cuzaaítas já haviam aderido ao Islã e colaboravam com Maomé durante seus conflitos com Meca, mas os mustaliquitas permaneceram no campo adversário. Participaram ao lado dos coraixitas da Batalha de Uude e, posteriormente, da Batalha da Trincheira. Pouco depois, o chefe mustaliquita Alharite ibne Abi Dirar começou a reunir homens para combater Maomé. Informado desses preparativos, Maomé enviou para verificar a notícia e, depois de receber sua confirmação, marchou contra os mustaliquitas. O confronto ocorreu em Almuraici, e terminou com a derrota da tribo na Expedição de Almuraici. As fontes apresentam diferentes datas para a campanha, situada em Xabã de 5 A.H. (dezembro de 626–janeiro de 627) ou, segundo outras cronologias, em 6 A.H. Dez mustaliquitas foram mortos, enquanto 600 ou 700 pessoas foram capturadas; os muçulmanos também tomaram como butim cerca de dois mil camelos e cinco mil ovelhas e cabras. Entre os cativos encontrava-se Juairia binte Alharite, filha do chefe dos mustaliquitas. Seu posterior casamento com Maomé favoreceu a reconciliação com a tribo. Em consequência da nova relação de parentesco, os muçulmanos libertaram os mustaliquitas que haviam sido feitos prisioneiros. Segundo a tradição, o casamento e a libertação dos cativos contribuíram para que quase toda a tribo, incluindo Alharite ibne Abi Dirar, abraçasse o Islã. Alguns membros de outras tribos também teriam se convertido durante a campanha contra os mustaliquitas, entre eles integrantes dos abuceus, embora as tradições relativas aos primeiros contatos desse grupo com Maomé apresentem divergências.
Após sua aproximação com Maomé, os mustaliquitas passaram a integrar a comunidade islâmica. Construíram várias mesquitas em seus territórios e pagavam regularmente o zacate. Em 9 A.H. (630), Maomé enviou Alualide ibne Uqueba para recolher o zacate devido pela tribo. Segundo uma das versões do episódio, quando Alualide se aproximou dos mustaliquitas, um grupo armado saiu ao seu encontro. Temendo que pretendessem atacá-lo, retornou a Medina e informou Maomé de que a tribo se recusara a pagar o zacate e tentara matá-lo. Maomé enviou então Calide ibne Alualide para investigar a situação. Os homens enviados antecipadamente por Calide constataram que os mustaliquitas faziam o chamado à oração e realizavam as orações, demonstrando que a informação recebida por Maomé não correspondia à realidade. Segundo outra tradição, ao saberem que uma força seria enviada contra eles, os mustaliquitas dirigiram uma delegação a Medina, chefiada por Alharite ibne Abi Dirar, e explicaram a Maomé que haviam saído ao encontro de seu emissário para recebê-lo e entregar-lhe o zacate, mas Alualide retornara antes de chegar até eles. Essa versão associa o episódio à revelação do sexto versículo da sura Al-Hujurat, que adverte os fiéis a verificarem uma informação trazida por uma pessoa considerada fāsiq antes de agirem contra outros por ignorância. As fontes não fornecem informações específicas sobre a história posterior dos mustaliquitas, que passou a acompanhar a trajetória mais ampla dos cuzaaítas.
Bibliografia
Categoria:Mustaliquitas