Uádi Fátima (), historicamente conhecido como Marre Azarã (), é um vale e uma extensa bacia hidrográfica da região de Meca, no Hejaz, na Arábia Saudita. Situado a noroeste da cidade, estende-se das montanhas do Escudo Arábico em direção à planície costeira de Tiama e possui uma bacia de aproximadamente 5.684 quilômetros quadrados, a maior das três principais que atravessam a região de Meca. O vale apresenta numerosos vestígios de ocupação humana pré-histórica, com dezenas de sítios arqueológicos e milhares de instrumentos líticos atribuídos ao Acheulense, alguns dos quais associados a uma presença humana de cerca de 200 mil anos ou mais.
Na Jailia, Marre Azarã situava-se no limite setentrional dos territórios dos hudailitas e esteve também associado aos cuzaaítas, que ocuparam áreas do Hejaz ao norte de Meca. Sua proximidade da cidade e sua posição nas rotas que a ligavam a Medina fizeram do vale cenário de diversos episódios registrados nas tradições sobre a Arábia pré-islâmica e os primeiros tempos do Islã. Maomé atravessou ou acampou em Marre Azarã em diferentes ocasiões, entre elas o retorno do Tratado de Hudaibia, a Unra de Compensação, a Conquista de Meca, quando seu exército de cerca de 10 mil homens acampou no vale, e a Peregrinação de Despedida.
Caracterizado por clima árido e tropical, Uádi Fátima possui vegetação predominantemente adaptada às condições de aridez e uma flora diversificada em relação ao ambiente regional. Levantamentos recentes registraram 118 espécies de plantas vasculares, distribuídas em 81 gêneros e 35 famílias, organizadas em treze comunidades vegetais cuja composição varia conforme as condições geomorfológicas e edáficas. Parte significativa dessas plantas é utilizada para pastoreio, fins medicinais, alimentação e combustível, embora a vegetação nativa esteja sujeita à degradação causada, entre outros fatores, pela interferência humana, pelo pastoreio e pelo corte excessivo.
História
Uádi Fátima (), historicamente conhecido como Marre Azarã (), é um vale situado nas proximidades de Meca, no Hejaz, na Arábia Saudita. O geógrafo do Iacute Alhamaui registrou Azarã como um vale próximo de Meca, junto ao qual se encontrava a povoação de Marre, explicando assim a formação do nome composto Marre Azarã. Citando Arrame, distinguiu expressamente os dois elementos do topônimo: Marre era a povoação e Azarã, o vale. Iacute situou Marre Azarã a uma etapa de Meca, embora também tenha registrado a informação de Aluaquidi de que Marre distava cinco milhas da cidade, e descreveu o lugar como dotado de numerosas fontes, palmeiras e sicômoros e associado a aslamitas, hudailitas e . Na Jailia, o vale constituía o limite setentrional dos territórios ocupados pelos hudailitas, que se estendiam pelas regiões montanhosas a leste e oeste de Meca e em direção a Taife. A região também esteve associada aos cuzaaítas. Após perderem para os coraixitas o domínio sobre Meca, muitos membros dessa tribo dispersaram-se pelo Hejaz, ocupando sobretudo a região que se estendia de Marre Azarã até as proximidades de Medina.
Marre Azarã aparece nas tradições relativas aos conflitos entre os coraixitas e os becritas no período anterior ao Islã. Pouco antes da Batalha de Badre, Micraz ibne Háfece, dos maicitas coraixitas, encontrou no local , chefe dos becritas. Um irmão de Micraz havia sido morto por um becrita em represália por uma morte anterior e, ao encontrar Amir, Micraz apeou-se, desembainhou a espada e matou-o em vingança. Em seguida, dirigiu-se durante a noite a Meca e pendurou a espada do morto sob a cobertura da Caaba. Na manhã seguinte, os coraixitas reconheceram a arma e souberam que Micraz havia realizado a vingança. O episódio provocou forte ressentimento entre os becritas, que passaram a desejar a morte de dois ou três chefes coraixitas em retaliação. O vale também é mencionado nas tradições relativas às consequências da Batalha de Uude, travada em 625. Ubai ibne Calafe, um dos adversários de Maomé entre os coraixitas, foi ferido durante a batalha e morreu quando o exército coraixita se aproximava de Meca. As fontes divergem quanto ao lugar de sua morte, situando-a em Sarife ou em Marre Azarã. A localidade aparece repetidamente nos deslocamentos de Maomé entre Medina e Meca. No retorno após a conclusão do Tratado de Hudaibia, em 628, Maomé passou por Marre Azarã e depois por Usfã, onde seus seguidores enfrentaram escassez de provisões.
No ano seguinte, durante a Unra de Compensação, a chegada a Marre Azarã da força de cavalaria que transportava as armas dos muçulmanos alarmou os coraixitas. Estes enviaram Micraz ibne Háfece para indagar se Maomé pretendia descumprir o tratado entrando armado em Meca. Maomé respondeu que respeitaria as condições acordadas e explicou que as armas haviam sido levadas por precaução e que não entraria com elas no harame. Depois de acampar em Marre Azarã, ordenou que todas as armas, exceto as espadas permitidas pelo tratado, fossem transferidas para , situado a cerca de três milhas de Meca, nas proximidades dos marcos que delimitavam o harame. Duzentos homens comandados por foram encarregados de guardá-las. Os animais destinados ao sacrifício foram mantidos em enquanto Maomé se preparava para seguir de Marre Azarã para Meca.
Marre Azarã teve particular importância durante a Conquista de Meca, em 8 A.H. (630). Depois de partir de Medina em 13 de Ramadã (4 de janeiro) e aproximar-se de Meca com um exército de cerca de 10 mil homens, Maomé acampou no vale. Durante a noite, ordenou que seus soldados acendessem numerosas fogueiras para fazer o exército parecer ainda maior. Abu Sufiane ibne Harbe, líder dos coraixitas, avistou as fogueiras e, depois de ser capturado, foi conduzido à tenda de Maomé, onde abraçou o Islã. No dia seguinte, Maomé fez com que Abu Sufiane observasse a passagem do exército, numa demonstração destinada a desencorajar a resistência dos coraixitas. Durante a Peregrinação de Despedida, em 10 A.H. (632), Marre Azarã voltou a constituir uma das últimas etapas da viagem de Maomé de Medina para Meca. A comitiva percorreu sucessivamente Aljufa, Cudaide e Usfã antes de prosseguir por e alcançar Marre Azarã. Aluaquidi fornece uma cronologia mais precisa da parte final do percurso: Maomé esteve em Cudaide no sábado, chegou a Usfã no domingo e, depois de passar por Algamim, alcançou Marre Azarã na segunda-feira.
Geografia
Ao norte e ao sul do vale encontram-se cadeias montanhosas constituídas, de modo geral, por formações basálticas, com colinas de andesito verde e riolito e algumas intrusões de andesito. A composição rochosa, contudo, difere entre os dois lados: ao sul predominam granito, diorito e xisto, cujas características impediram o aproveitamento de suas matérias-primas para a fabricação de instrumentos líticos, enquanto ao norte ocorrem andesito, diabásio, riolito e gnaisse granítico, além de rochas utilizadas na fabricação desses instrumentos. A enciclopédia relaciona essa disponibilidade de matéria-prima à grande concentração de sítios do Paleolítico Inferior no lado setentrional do vale. A flora de Uádi Fátima foi objeto de um levantamento realizado em 102 parcelas distribuídas por 17 locais de amostragem ao longo da bacia. Foram identificadas 118 espécies de plantas vasculares, pertencentes a 81 gêneros e 35 famílias, número correspondente a cerca de 64,1% das espécies registradas em toda a região de Meca. As poáceas constituem a família mais diversificada, com 19 espécies, seguidas pelas fabáceas, com 15, amarantáceas, com dez, e boragináceas, com seis.
Entre as formas de vida, predominam os terófitos, que representam 38,1% das espécies, seguidos pelos caméfitos, com 33,1%, hemicriptófitos, com 14,4%, geófitos e helófitos, com 7,6%, e fanerófitos, com 6,8%. Do ponto de vista fitogeográfico, predominam espécies pertencentes a dois elementos florísticos, sobretudo dos componentes sudano-zambezienses e saaro-arábicos, cuja presença é característica das condições de elevada aridez da região. A análise da vegetação distinguiu treze comunidades vegetais, cuja composição varia de acordo com as condições geomorfológicas e edáficas do vale. Sete delas são dominadas por espécies halófitas da família das zigofiláceas, enquanto outras têm como espécies dominantes Capparis decidua, Vachellia seyal, Senna italica, Aristida pennei e Citrullus colocynthis. A maior parte das comunidades apresenta características xerofíticas. A riqueza vegetal varia consideravelmente entre os diferentes ambientes, de 1,3 espécie por parcela na comunidade dominada por Capparis decidua e Cenchrus divisus a 13,1 espécies na dominada por Senna italica e Stipagrostis hirtigluma.
As propriedades dos solos exercem influência significativa sobre a distribuição dessas comunidades. Os solos associados aos treze grupos vegetais apresentam diferenças de textura e composição química, e fatores como pH, condutividade elétrica, concentrações de sulfatos e cloretos e proporções de areia fina, silte e cascalho estão entre as variáveis que influenciam sua composição. Algumas comunidades apresentam associação com solos mais ricos em silte, enquanto outras se relacionam a diferentes proporções de areia, argila ou cascalho. Além das propriedades edáficas, fatores como altitude, precipitação, declividade e topografia contribuem para as diferenças de diversidade e composição florística observadas ao longo da bacia.
A vegetação possui também importância econômica para a população da região. Entre as espécies registradas, 79,7% são utilizadas para pastoreio e alimentação de animais, 66,1% possuem usos medicinais, 32,2% são empregadas como combustível e 23,7% são comestíveis; outras são aproveitadas na produção de tapetes, assentos, mobiliário e objetos ornamentais. Essa utilização ocorre num contexto de degradação da vegetação nativa, atribuída pelos pesquisadores tanto a fatores naturais quanto à ação humana. Durante o trabalho de campo, foram observados sinais de deterioração da cobertura vegetal, enquanto alterações recentes foram relacionadas sobretudo à interferência humana extensa e não regulamentada, ao pastoreio e ao corte excessivo de plantas. A baixa diversidade constatada em algumas comunidades foi considerada indicativa de degradação anterior da vegetação, levando os autores a recomendar a restauração dos habitats afetados e a prevenção de novas alterações nos ambientes do vale.
Arqueologia
Levantamentos arqueológicos identificaram 32 sítios com instrumentos de pedra em Uádi Fátima. Trinta deles concentram-se numa área de aproximadamente três quilômetros junto à margem norte do vale, enquanto um foi identificado no lado meridional. O conjunto estudado compreende 2.227 artefatos de diferentes dimensões e funções. Entre os tipos encontrados estão machados de mão, enxós, instrumentos poliédricos, esferoides, discos, bifaces, cutelos, raspadores, facas, perfuradores, cinzéis, núcleos, lâminas e martelos, além de diferentes tipos de lascas. Os artefatos apresentam grande semelhança, quanto à tipologia, técnica de fabricação e espessura da pátina, com os descobertos nos sítios de , nas proximidades de . Como Safaca foi classificada no Acheulense Médio e datada de aproximadamente 200 mil anos, amostras calcárias recolhidas em dois sítios de Uádi Fátima, juntamente com as semelhanças tecnológicas e tipológicas dos instrumentos, foram utilizadas para associar os sítios do vale ao mesmo período.