Cristiano de La Paix Gelbert (Alemanha?, 5 de março de 1899 — Porto Alegre, 15 de outubro de 1984) foi um arquiteto e engenheiro teuto-brasileiro ativo em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul. Por muitos anos a liderança na Divisão de Obras da Prefeitura, foi um dos principais agentes da modernização da arquitetura local após o esgotamento do ciclo eclético, sem contudo imergir completamente nos princípios modernistas, deixando uma série de obras que constituem ainda hoje importantes marcos da paisagem urbana.
Biografia Filho de Fritz e Emilie Gelbert, Cristiano de La Paix Gelbert nasceu em local incerto, provavelmente na Alemanha, em 5 de março de 1899. Ainda muito pequeno partiu do porto de Hamburgo, na Alemanha, com seus pais e suas irmãs Elise, Anna e Friederike, chegando a Blumenau, no Brasil, em 1903. O pai era natural de Munique e ao chegar declarou ser agricultor, mas logo começou a se dedicar à fotografia, ao desenho e à pintura, arranjando um emprego no atelier fotográfico Baumgarten. Em 1918 já estavam em Porto Alegre, e Fritz trabalhava como engenheiro-arquiteto, assinando o projeto de uma residência e outras benfeitorias em uma granja de Frederico Augusto Ritter. Fez outros projetos em Porto Alegre e Cachoeira do Sul.Festugato, Taísa. Christiano de La Paix Gelbert e a Arquitetura da divisão de obras de Porto Alegre (1925 a 1953). Editora Coralina, 2023, pp. 27-28
Provavelmente Gelbert foi iniciado na arquitetura por seu pai, mas nada se sabe com segurança sobre sua formação. Em 10 de janeiro de 1925 foi contratado como desenhista da 2ª Seção da Diretoria de Obras da Prefeitura de Porto Alegre, e poucos meses depois foi nomeado desenhista-chefe da Diretoria, evidenciando ter um preparo sólido e um talento incomum. Em 10 de março de 1932 começa a ser documentado como arquiteto, e nesta capacidade em dezembro foi nomeado chefe de Seção de Arquitetura, Cadastro e Patrimônio da Diretoria de Obras. A partir de 1946 atuou como Diretor de Arquitetura, posição na qual se aposentou em 19 de fevereiro de 1953.Festugato, op. cit., pp. 29-30
Apesar da sua longa atuação no serviço público, há contradições na documentação a respeito de sua capacitação profissional e mesmo sobre os cargos específicos que ocupou. Parece que não teve seu exercício profissional reconhecido plenamente, como mandava o Decreto Federal n.º 23.569 de 11 de dezembro de 1933, que regulamentou o exercício das profissões de arquiteto, engenheiro e agrimensor. Ele próprio declarou no fim da vida que havia se formado em arquitetura em Munique em 1925. Na documentação oficial várias vezes é dito também engenheiro. No pedido de regularização profissional que enviou ao Conselho Regional de Arquitetura e Engenharia ele não menciona sua formação, e só constam sua declaração de que era arquiteto da Prefeitura, um atestado do engenheiro Carlos Sylla, de 1928, dizendo que colaborou no projeto e execução do Grande Hotel, e um atestado da firma Azevedo Moura & Gertun, afirmando que trabalhou como arquiteto de 1925 a 1928, mas uma pesquisa no arquivo desta empresa não o encontrou entre os funcionários. Foi autorizado a continuar trabalhando, mas a licença que obteve limitou o seu exercício ao âmbito das obras da Prefeitura. Seja como for, foi através da Prefeitura que deixou seu legado. Faleceu em Porto Alegre em 15 de outubro de 1984 sem ter casado e sem deixar filhos.Festugato, op. cit., pp. 29-31
Obra
Começando como um continuador do Ecletismo, seu estilo se consolida empregando as referências da Art Déco, fazendo também experimentos de racionalização e depuração que o aproximam da arquitetura Modernista, que porém não chegou a abraçar completamente, e em seu período final parece reverter a alguns princípios ecléticos. Na apreciação de Taísa Festugato, thumb|A Praça Otávio Rocha na década de 1930
"As soluções espaciais e estruturais de suas obras, assim como o arranjo compositivo, são geralmente tradicionais. Gelbert parece muito mais focado numa modernidade de imagem, de visualização urbana, do que preocupado com as inquietações revolucionárias de Le Corbusier, Mies e outros, onde a imagem moderna está conjugada à reconsideração da espacialidade, da construção e da disposição das partes do programa no edifício. [...] É provável que, diante do esgotamento estilístico do moderno que apreciava, Gelbert tenha buscado nova vida num tipo de 'neoecletismo'. Cabe a ressalva de que a ponte da Avenida Beira-Rio, também do final da época de Loureiro da Silva, é de formas modernas. Esses fatos não diminuem a grande contribuição de Gelbert à configuração de uma nova imagem de cidade em Porto Alegre entre 1930 e 1943 [...]. Suas praças, escadarias, pontes e edifícios criaram espaços que permanecem como marcos na paisagem urbana da cidade".Festugato, op. cit., pp. 220-221
Na gestão de Otávio Rocha (1924-1928) foi um dos responsáveis pelos estudos preparatórios para projeto do Viaduto Otávio Rocha (1927). Embora o projeto executado não seja dele, se aproxima muito da sua concepção. Na gestão de Alberto Bins (1928-1937) projetou as escadarias da Rua João Manoel e da Rua Dom Sebastião e algumas estruturas na Hidráulica Moinhos de Vento (torre, portão de entrada e escadarias) (1928-1929); a Praça Otávio Rocha em 1929; uma ampliação nos fundos do Paço Municipal e uma ponte na Avenida Azenha em 1934, e em 1935 o abrigo de bondes da Praça Parobé.Festugato, op. cit., pp. 31-32
Neste ano realizou o seu primeiro projeto de grande envergadura, sendo encarregado de traçar o plano geral e a maioria dos principais pavilhões da Exposição do Centenário Farroupilha, na Várzea da Redenção, mas o pórtico de entrada não é dele. Ele trabalhou fazendo uma grande remodelação no Plano de Embelezamento da Várzea de Alfred Agache, de 1929, que nunca havia sido implementado.Festugato, op. cit., pp. 101-102 Segundo Davit Eskinazi, este projeto marcou o início do surgimento no cenário urbano de Porto Alegre dos primeiros exemplares de uma arquitetura claramente moderna:
"Conciliando a arquitetura efêmera de seus pavilhões com alguns elementos permanentes do futuro Parque Farroupilha construídos na mesma oportunidade, a Exposição do Centenário apresentou-se como o principal símbolo da modernidade possível e desejável para o Estado, em um período de profundas transformações para a sociedade brasileira. Amplamente apoiada em recursos tecnológicos, como a deslumbrante iluminação noturna dos espaços e pavilhões do evento, e conduzida por uma bem informada retórica Déco, a Exposição articulou um notável conjunto arquitetônico e urbanístico que sintetizou uma visão de modernidade comprometida com a tradição neoclássica, provocando um impacto visual sem precedentes sobre seus contemporâneos. [...] Embora efêmera, a arquitetura produzida para a comemoração do Centenário Farroupilha constitui um testemunho consistente das origens de um possível 'caminho riograndense para a arquitetura moderna', percorrido através de um conhecimento inspirado e bem informado, tanto das manifestações proto-racionalistas do novecentos, como, por exemplo, o movimento da Secessão austríaca, quanto das correntes não ortodoxas da arquitetura moderna, como os movimentos expressionista e futurista das primeiras décadas do século XX".Eskinazi, Davit. A arquitetura da exposição comemorativa do centenário da Revolução Farroupilha de 1935 e as bases do projeto moderno no Rio Grande do Sul. UFRGS, 2003
Na administração de Loureiro da Silva (1937-1943) projetou diversas pontes para a canalização do Arroio Dilúvio, incluindo as pontes da Avenida João Pessoa (1937), da Avenida Getúlio Vargas (1940) e da Rua Santana (1943). Todas as suas pontes apresentam alguma ornamentação, revelando uma definida preocupação estética com o ambiente urbano construído.Mog, William; Campos, Heleniza Ávila; Piccinini, Lívia Salomão. "Análise morfológica de espaços urbanos em bacias hidrográficas: um olhar sobre o entorno do Arroio Dilúvio em Porto Alegre". In: Cadernos Metrópole, 2014; 16 (31) A Praça Piratini e a Hidráulica Voluntários da Pátria foram projetadas em 1941, a escadaria da Rua Santo Inácio em 1943, destacando-se os prédios do Mercado Livre (1937), do Hospital de Pronto Socorro (1939) e do Centro de Saúde Modelo (1941).Festugato, op. cit., pp. 33-35
Projetou também neste período um vasto prédio para a sede nova da Prefeitura, que ocuparia todo um quarteirão, e que não foi executado. Um novo projeto foi solicitado em 1944 na gestão de Antônio Brochado da Rocha (1943-1945), que manteve o estilo do anterior mas com uma área muito menor e cinco pavimentos adicionais, e que foi realizado, hoje nomeado Edifício Intendente José Montaury. Ainda nesta gestão foi proposta a demolição do Mercado Público e sua substituição por um novo projetado por Gelbert, de vastas dimensões, mas a ideia foi abandonada. É provável que tenha sido o autor ou tenha participado no projeto do Hospital Santo Antônio de 1944, que tem claras afinidades com o seu estilo, mas não há documentação que informe o nome do autor e só se sabe que saiu da seção técnica da Prefeitura que ele chefiava.Festugato, op. cit., pp. 35-37
Colaborou na Contribuição ao Estudo de Urbanização de Porto Alegre de 1935, dos engenheiros municipais Edvaldo Paiva e Ubatuba de Faria, que estavam envolvidos na elaboração do novo Plano Diretor, mas não é muito claro em que extensão, e aparentemente nenhuma das suas contribuições foi implementada. Deixou várias obras obras menores, como fontes, sanitários públicos, um bar, uma bailante, um belvedere, o pedestal para o Monumento a Bento Gonçalves na Avenida João Pessoa, entre outras, e deixou mais alguns grandes projetos não realizados, incluindo o Parque Escolar Cruz Vermelha, dois estádios de futebol e uma estação rodoviária.Festugato, op. cit., pp. 47-56; 64
Nas palavras de Cláudio Calovi Pereira, "a obra do arquiteto Cristiano de La Paix Gelbert é um capítulo bastante relevante da arquitetura de Porto Alegre. Como arquiteto-chefe da Diretoria de Obras da cidade durante um longo período (1932-1953), ele teve a oportunidade de construir obras importantes como talvez nenhum outro arquiteto tenha tido na história da capital gaúcha".Pereira, Cláudio Calovi. "Prefácio". In: Festugato, op. cit., p. 12 Em 2018 a Prefeitura organizou no Arquivo Histórico de Porto Alegre Moysés Vellinho uma retrospectiva sobre o arquiteto, intitulada Porto Alegre & Arquitetura: Revisitando as obras do servidor municipal arquiteto Christiano de La Paix Gelbert, e em 2020, durante as atividades da Semana do Patrimônio, reapresentou a mostra em formato online."Prefeitura promove eventos virtuais em alusão à Semana do Patrimônio". Prefeitura de Porto Alegre, 14 de agosto de 2020Porto Alegre & Arquitetura: Revisitando as obras do servidor municipal arquiteto Christiano de La Paix Gelbert. Prefeitura de Porto Alegre, 2020 Em 2024, durante o Mês do Patrimônio, com o apoio do Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Rio Grande do Sul e da Câmara Rio-Grandense do Livro, foi lançado o livro Christiano de La Paix Gelbert e a Arquitetura da Divisão de Obras de Porto Alegre (1923–1953), de Taísa Festugato, acompanhado de uma palestra."CAU/RS promove caminhada e pré-lançamento de livro no Mês do Patrimônio". Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Rio Grande do Sul, 12 de agosto de 2024
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