Pedro César Del-Negro (Lisboa, 29 de outubro de 1874 — Lisboa, 13 de novembro de 1962) foi um desportista, dirigente desportivo e árbitro português, um dos pioneiros da organização do futebol em Portugal e introdutor no país da luta greco-romana e da luta de tracção. Presidiu à comissão administrativa da Liga Portuguesa de Foot-Ball em 1910, integrou a comissão organizadora da Associação de Futebol de Lisboa, de que foi sócio fundador e presidente em 1929, e foi membro do primeiro Comité Olímpico Português. Realizou em 1894, com Henrique do Carmo, a primeira viagem de bicicleta entre Lisboa e o Porto, e praticou ainda ginástica, remo, equitação e tiro.

Origens e formação Nasceu em Lisboa a 29 de Outubro de 1874, filho de José Francisco Del Negro, natural de Bieno, no então Tirol austríaco, e de Maria da Assunção Del Negro, natural dos Olivais. Foi baptizado na Igreja de Nossa Senhora do Loreto, paróquia da nação italiana em Lisboa.Diploma de sócio n.º 11.113 do Monte-Pio Geral, Lisboa, 26 de Outubro de 1906, que regista a data de nascimento e a filiação. Colecção da família. Pertencia a uma família de origem italiana, oriunda de Bieno, no Trentino, e ligada à música: o pai, José Francisco (Giuseppe Francesco) Del-Negro, nascido em Bieno em 9 de Janeiro de 1843, era irmão do trompista e compositor Thomaz Del-Negro, e o avô, Michelangelo Del-Negro, professor de música, tinha sido músico amador da Sociedade Filarmónica de João Domingos Bontempo.Certidão de baptismo de Giuseppe Francesco Del-Negro, passada pelo cura de Bieno, Giuseppe Moser, em 22 de Maio de 1844, a partir do registo de nascimentos da cura de Bieno, p. 50 (colecção da família Del-Negro).

Estudou como interno no Colégio Arriaga, à Junqueira, onde concluiu o curso dos liceus e recebeu do professor Luís Monteiro, fundador do Ginásio Clube Português, as primeiras lições de ginástica. Foi no colégio, em 1888-1889, que se iniciou no futebol, como guarda-redes e capitão da equipa que formou para desafiar o Colégio Clift, composto por ingleses e capitaneado por Charles Etur, num dos primeiros desafios escolares em Lisboa.

Carreira bancária Em 1891, com 16 anos, entrou como praticante para a Casa Bancária Fonsecas, Santos & Viana, onde fez toda a carreira e chegou a procurador. Em 1941 o banco assinalou os seus cinquenta anos de serviço e ofereceu-lhe a reforma, que recusou. Reformou-se a 31 de Dezembro de 1960, com 86 anos, após setenta anos na mesma casa, tendo faltado ao trabalho quinze dias em toda a carreira. Foi durante cerca de vinte anos presidente do Sindicato dos Empregados Bancários e, em 1958, era o decano dos empregados bancários portugueses.

Futebol Depois do colégio jogou como defesa no grupo Estrela e no Cruz Negra, clube que antecedeu o Sport Lisboa e Benfica, e fundou o Club de Campo de Ourique, de que foi capitão e guarda-redes; o clube tinha sede na sua residência e treinava em terrenos públicos, entre os quais a parada de Infantaria 16 e o campo da Luz. Em 28 de Fevereiro de 1905 publicou na revista Tiro e Sport um primeiro esboço de história do futebol em Portugal.

Como delegado do Campo de Ourique, presidiu em 1910 à comissão administrativa da Liga Portuguesa de Foot-Ball, com Cosme Damião e José Neto, durante a crise que se seguiu à saída do Internacional e do Sporting e à morte do presidente Januário Barreto. Quando a assembleia geral votou a dissolução da Liga e a entrega dos seus bens a uma casa de beneficência, arrolou-os e depositou-os na casa-forte do banco onde trabalhava, até serem transferidos para a nova associação. Integrou, com Raul Nunes, Carlos Vilar, Cosme Damião e Félix Bermudes, a comissão organizadora da Associação de Football de Lisboa, fundada em 23 de Setembro de 1910, de que foi sócio fundador e membro do primeiro elenco directivo. Foi também um dos fundadores da União Portuguesa de Foot-Ball (1914) e pertenceu aos seus corpos directivos.

Dedicou-se à arbitragem: na época de 1910-1911 arbitrou 25 desafios e, nos anos seguintes, os campeonatos escolares da A.F.L. Nos anos de 1920-1921 foi, com Raul Nunes, um dos principais colaboradores da direcção da A.F.L. presidida por Fernando Martins Pereira, que negociou com a Espanha o primeiro encontro entre as duas selecções. Integrou o comité de seis elementos que convocou a equipa portuguesa para o primeiro jogo internacional de Portugal, contra a Espanha, em Madrid, a 18 de Dezembro de 1921, e nos primeiros anos da Federação trabalhou como técnico, acompanhando selecções ao estrangeiro e preparando o relvado do Estádio do Lumiar para os jogos internacionais.

Foi presidente da Associação de Futebol de Lisboa entre 22 de Agosto e 3 de Dezembro de 1929, num período de sucessão rápida de presidentes marcado por um conflito entre a Associação e a Federação.

Luta greco-romana e outras modalidades thumb|Placa oferecida pelo Ginásio Clube Português em 8 de Fevereiro de 1941. Iniciou-se na luta greco-romana por volta de 1897, no Real Club Velocipedista de Portugal, e foi professor da modalidade no Club Naval Madeirense e no Ginásio Clube Português. Entre os seus discípulos contaram-se Joaquim Vidal, campeão de Portugal e representante do país em luta nos Jogos Olímpicos de Estocolmo, Ribeiro da Fonseca e o seu sobrinho Álvaro Ferreira. Em 1906 figurava, com Ribeiro da Fonseca e César de Melo, na galeria de lutadores amadores portugueses da Illustração Portugueza. Foi nomeado árbitro oficial da Liga Sportiva de Trabalhos Athleticos, tendo arbitrado sozinho um campeonato inteiro, e foi campeão de pesos e halteres. As fontes da época e posteriores atribuem-lhe a introdução da luta greco-romana em Portugal; em 1941 o Ginásio Clube Português organizou em sua homenagem o torneio de luta «Pedro Del Negro», com o patrocínio do jornal Os Sports, e a 8 de Fevereiro desse ano ofereceu-lhe uma placa de prata com a inscrição «primeiro cultor em Portugal da luta greco-romana».Placa de prata gravada, com o emblema esmaltado do Ginásio Clube Português: «Ao Ex.mo Sr. Pedro Del-Negro, primeiro cultor em Portugal da luta greco-romana. 8-2-941. Off. Gymnásio Club Português». Colecção da família.

No remo, foi discípulo de Francisco Xafredo e remou pelo Club Naval de Lisboa e pelo Club Naval Madeirense, onde integrou uma tripulação apelidada de «Invencível», com o irmão Ricardo Del-Negro, e foi professor de remo. No ciclismo, com bicicletas de 28 quilos, realizou com Henrique do Carmo, em 1894, por ocasião do centenário do Infante D. Henrique, a primeira viagem de bicicleta de Lisboa ao Porto, em três dias; segundo o próprio declarou em 1961, foi o primeiro ciclista a fazer o percurso entre as duas cidades. Ganhou provas em Paço de Arcos e Vila Franca de Xira. Formou, por volta de 1906, com Cândido da Silva, a primeira equipa de luta de tracção em Portugal, e capitaneou a equipa do Sporting Clube de Portugal, que se manteve imbatível durante cerca de treze anos a partir dos Jogos Olímpicos Nacionais de 1911. Praticou ainda equitação, no picadeiro de Joaquim Miranda, e tiro.

Na ginástica, foi o discípulo dilecto de Luís Monteiro, que o levou para o Real Ginásio Clube Português, de cujos corpos directivos fez parte. Especializou-se no trapézio e actuou como «base» em exibições de voos, com o trapezista Walter Awata, nos saraus do Coliseu dos Recreios e do Ginásio Clube; dirigiu a primeira apresentação em Portugal, por amadores, de «poses plásticas», quadros vivos de estatuária executados por ginastas.

Foi membro do primeiro Comité Olímpico Português, eleito por aclamação em 1912 na reunião constitutiva realizada no Centro Nacional de Esgrima, e integrou, com José Pontes, Cândido da Silva e César de Melo, a comissão executiva dos primeiros Jogos Portugueses de Preparação Olímpica, realizados entre 25 de Maio e 29 de Julho de 1910.

Últimos anos e morte Nas Bodas de Ouro da Associação de Futebol de Lisboa, em Setembro de 1960, foi recebido, com o comandante Carlos Vilar, como um dos dois sócios fundadores ainda vivos; participou na reunião simbólica da direcção de 12 de Setembro, deu uma entrevista conjunta ao Mundo Desportivo e, na sessão solene de 24 de Setembro, ladeou o estandarte da Associação durante a imposição das insígnias do Mérito Desportivo.

Foi agraciado com o grau de comendador da Ordem do Mérito Industrial, cuja insígnia ostenta numa fotografia de 1954.Fotografia de família, 1954, com a insígnia de comendador ao pescoço: :Ficheiro:Pedro Del-Negro comendador 1954.jpg. Sobre a insígnia da classe do Mérito Industrial, ver Morreu em Lisboa a 13 de Novembro de 1962, com 88 anos. O funeral realizou-se no dia seguinte, da igreja do Santo Condestável para o Cemitério dos Prazeres, com a presença de representantes do Banco Fonsecas, Santos & Viana, do Mundo Desportivo e da Associação de Futebol de Lisboa. Após a sua morte, a A.F.L. instituiu a Taça Pedro del Negro, disputada por equipas de reservas. Uma rua da Amadora, junto ao estádio do Estrela da Amadora, tem o seu nome, atribuído pela Câmara Municipal de Oeiras, a cujo concelho a Amadora pertenceu até 1979. O Grupo Cultural e Desportivo Del Negro, clube da Amadora que tem o seu nome, venceu seis vezes a Taça Nacional de Futsal Feminino, entre 1997 e 2016.

Família Era sobrinho do trompista e compositor Joaquim Tomás del Negro, irmão do seu pai. O seu irmão Ricardo Del-Negro foi seu companheiro no futebol, no remo e na luta. Era casado com Nancy Urban Allegro Del-Negro e teve dois filhos, Maria Matilde Allegro Del-Negro Feist e Fernando Allegro Del-Negro. O filho, Fernando Allegro Del-Negro, seguiu-lhe os passos no desporto: ginasta do Ginásio Clube Português, fez a capa da revista Stadium de 12 de Junho de 1935 com um salto mortal sobre o cavalo de saltos nas Festas da Cidade, no Stadium do Lumiar,Fotografia de capa, Stadium, Lisboa, 12 de junho de 1935. figurou em 1936 no «Álbum dos melhores ginastas do G.C.P.» publicado pela mesma revista«Álbum dos melhores ginastas do G.C.P.», Stadium, Lisboa, 1 de abril de 1936. e foi seleccionado pelo clube para a barra fixa na equipa convidada para a Semana Gimnástica Espanhola, em Madrid. Venceu a categoria de meio-leves da poule de luta das comemorações do 60.º aniversário do clube, em 1935,«Gimnásio Club Português: as festas do seu 60.º aniversário», recorte de imprensa de 1935 (jornal não identificado), colecção da família Del-Negro. e competiu também em provas de tiro entre bancários. Foi ainda um dos elementos da Orquestra Aldrabófona (1936–1948), conjunto humorístico popularizado pelas emissões do Rádio Clube Português e considerado pioneiro do teatro radiofónico em Portugal, em cuja lista de membros figura como «empregado bancário e ginasta». Cantou também como amador, interpretando árias de ópera e canções em recitais como o dos alunos da professora de canto Maria Helena Shirley, no Salão do Sindicato dos Músicos, em Lisboa, em 1945.Programa, recital sob a direcção de Maria Helena Shirley, Salão do Sindicato dos Músicos, Lisboa, 11 de março de 1945.

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