O Musiclube da Paraíba foi um coletivo de músicos e compositores, e posteriormente também um selo fonográfico, criado em João Pessoa no início da década de 1980 por Pedro Osmar, Paulo Ró, Totonho e Milton Dornellas, como desdobramento das atividades do grupo Jaguaribe Carne. Descrito como uma "cooperativa de compositores", reuniu boa parte da geração que se tornaria referência da música paraibana nas décadas seguintes, entre eles Adeildo Vieira, Chico César e Escurinho.

História Origens O Musiclube surgiu no contexto dos movimentos de "guerrilha cultural" animados pelos irmãos Pedro Osmar e Paulo Ró a partir do bairro do Jaguaribe, no centro de João Pessoa, ainda durante a ditadura militar. Integra uma sequência de iniciativas do grupo Jaguaribe Carne: a Coletiva de Música da Paraíba (1976), o Musiclube (1981–1982), o projeto Fala Bairros (1982) e o Movimento dos Escritores Independentes (1984). Segundo Pedro Osmar, a inspiração veio de uma casa de choro do Rio de Janeiro, a Ernesto Nazareth, e o espaço foi concebido para "debater estética e política, fazer música, criar projetos e delegar intervenções culturais nos bairros de João Pessoa".

Pedro Osmar estima que mais de trinta músicos passaram pelo coletivo, entre eles Chico César, Paulo Ró, Milton Dornellas, Escurinho, Totonho, João Linhares, Dida Fialho, Cacá Ribeiro e Adeildo Vieira. Chico César, que se mudou para João Pessoa em 1980 e integrou o Jaguaribe Carne, fez sua primeira gravação na coletânea Música da Paraíba Hoje (1982), álbum duplo produzido por essa geração com direção musical de Livardo Alves e Pedro Osmar.

Atuação O Musiclube funcionou como organização de classe dos músicos, com pauta profissional e política: defendia a democratização dos meios de comunicação, promovia intercâmbio com artistas de outros estados do Nordeste, produzia projetos artísticos e práticas de criação coletiva, debatia políticas públicas de cultura e buscava condições de trabalho sustentáveis para os artistas locais. Um estudo apresentado no Encontro de Extensão da UFPB descreve o coletivo como entidade de "arte de resistência à ideologia dominante", que pregava o combate ao "analfabetismo cultural" por meio de uma "guerrilha cultural", levava atividades aos bairros periféricos de João Pessoa para valorizar a identidade cultural das comunidades, lutava pela democratização da programação das rádios da Paraíba e propunha a criação de casas populares de cultura nos bairros como instrumento de educação popular. Entre os documentos produzidos pelo movimento está o "Manifesto desafinando", assinado por Paulo Ró, Chico César e Pedro Osmar. O grupo A Troça Harmônica cita o Musiclube entre os coletivos que "marcaram a história da música regional" ao unir a produção própria numa ação "não só de salvaguarda, mas de enfrentamento" à mídia que suplantava a produção local.

As reuniões regulares do coletivo, no formato estabelecido nos anos 1980, foram perdendo continuidade a partir da década de 1990, embora o selo homônimo tenha lançado discos até 1997 e o estudo de Faustino, que cita documentos de 2002 sobre a criação de uma cooperativa de artistas da Paraíba, ainda descreva a entidade como ativa. Integrantes do coletivo levaram a experiência do Musiclube para a gestão pública de cultura: Paulo Ró e Pedro Osmar atuaram na área cultural do município de João Pessoa a partir de 2005; Chico César presidiu a Fundação Cultural de João Pessoa (Funjope) a partir de 2009 e foi secretário de Cultura do estado da Paraíba a partir de 2011, no governo Ricardo Coutinho; e Milton Dornellas dirigiu a Fundação Cultural de João Pessoa (Funjope), onde descentralizou as ações culturais e levou oficinas aos bairros, presidiu o Fórum Nacional de Secretários e Dirigentes de Cultura das Capitais e Regiões Metropolitanas, com assento no Conselho Nacional de Política Cultural, e, em abril de 2026, tornou-se secretário executivo da Secretaria de Estado da Cultura da Paraíba. À semelhança de movimentos como o Clube da Esquina e o Pessoal do Ceará, o Musiclube permanece como referência de identidade para seus integrantes, que seguem em atividade e continuam a gravar e a se apresentar juntos: Milton Dornellas registrou em Sete Mares (2000) parcerias com Pedro Osmar, Chico César e Totonho; Naldinho Freire gravou o álbum Sem Chumbo nos Pés (2019) com Pedro Osmar e Adeildo Vieira, a quem se refere como "o pessoal do Musiclube da Paraíba"; e o álbum Isabel, 7 Cirandas Negras e Um Apito (2025), do Jaguaribe Carne, tem participação de Totonho e contou com Escurinho no show de lançamento.

Selo Musiclube Sob o nome Musiclube o coletivo lançou discos de seus integrantes entre a segunda metade da década de 1980 e o fim da década de 1990: 1986 – Milton Dornellas – No Ventre da Besta (compacto) 1992 – Grupo Etnia – Canto Cereal (LP); o grupo era formado por Paulo Ró, Milton Dornellas, Alice Lumi e Fernando Pintassilgo 1993 – Milton Dornellas – Mandrágora (LP) 1993 – Jaguaribe Carne – Jaguaribe Carne Instrumental (LP em edição limitada de mil cópias, cada uma com capa artesanal feita por um artista diferente) 1994 – Naldinho – Lapidar (LP) 1997 – Vários artistas – Coletânea Musiclube (CD)

A Coletânea Musiclube, lançada em 1997, foi o primeiro disco a levar o nome do coletivo, dezesseis anos após sua criação, e é descrita como um retrato da cena musical paraibana da época. Com texto de apresentação de Adeildo Vieira, reúne catorze faixas de Totonho & Os Cabra, Déo Nunes, Escurinho, Pádua Belmont, Naldinho, Cacá Ribeiro, Sandro Pitta, Grupo Voz Ativa, Paulo Ró, Dida Vieira, Clementino Lins, Nando Azymuth, Jairo Aguiar e Jessé Jel e Wilson Carneiro, e contém a primeira gravação de Totonho e o primeiro registro de "Savanas", de Escurinho.

Na década de 2000, Pedro Osmar produziu ainda dois volumes de uma série de coletâneas Musiclube e as coletâneas Cantata Popular I e II (2000), documentando a cena alternativa da Paraíba e de São Paulo.

Legado Em 2021 Pedro Osmar anunciou a organização do livro A Geração Musiclube e Outras Canções Populares, com depoimentos dos principais integrantes, fotografias, cartazes, capas de discos e discografias do período. O Musiclube foi objeto de monografias na Universidade Federal da Paraíba, como Pesquisa-ação no Musiclube da Paraíba: o relações públicas a serviço do movimento cultural (1997) e Musiclube da Paraíba: uma prática não-formal pela democratização da arte e da cultura (1997). Em 2026, o guia japonês Música LADO-B: An Alternative Guide to Brazilian Music, organizado por Kenichi Ozaki e publicado pela DU BOOKS, destacou discos ligados ao Musiclube, entre eles o Jaguaribe Carne Instrumental.

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