Radwa Ashour (em árabe: رضوى عاشور; Cairo, 26 de maio de 1946 – 30 de novembro de 2014) foi uma escritora, crítica literária, tradutora e professora universitária egípcia.
Sua obra compreende romances, contos, memórias e estudos de crítica literária, caracterizados pela recorrência de temas como memória, identidade, deslocamento, colonialismo, resistência e experiência histórica.
Ashour é particularmente conhecida pela Trilogia de Granada, publicada originalmente em árabe entre 1994 e 1995, e pelo romance The Woman from Tantoura (al-Tantouriyya), publicado em 2010. Sua produção literária foi reconhecida com, entre outros, o Prêmio Cavafy de Literatura e o Prêmio Owais de Ficção.
Biografia Ashour nasceu no Cairo, em 1946, em uma família ligada à literatura e à vida intelectual. Seu pai, Mustafa Ashour, era advogado e possuía interesses literários, enquanto sua mãe, Mai Azzam, era poeta e artista. Seu avô materno, Abdelwahab Azzam, foi diplomata, professor de literatura e estudos orientais da Universidade do Cairo e tradutor de obras da literatura persa para o árabe. Ashour estudou literatura inglesa e literatura comparada na Universidade do Cairo. Concluiu a graduação em 1967 e o mestrado em literatura comparada em 1972. Em seguida, transferiu-se para os Estados Unidos, onde fez doutorado na Universidade de Massachusetts Amherst. Em 1975, tornou-se a primeira pessoa a obter um doutorado na área de literatura afro-americana na universidade.
Seu interesse pela literatura afro-americana estava relacionado às questões de opressão, identidade e resistência presentes nas obras de escritores da diáspora africana. Durante sua permanência nos Estados Unidos, Ashour aproximou-se intelectualmente de Shirley Graham Du Bois, que a incentivou a estudar na Universidade de Massachusetts.
Carreira Após concluir o doutorado, Ashour retornou ao Egito e passou a lecionar na Universidade Ain Shams, no Cairo. Tornou-se professora de língua inglesa e literatura comparada e, entre 1990 e 1993, dirigiu o Departamento de Língua e Literatura Inglesa da instituição. Sua produção acadêmica incluiu estudos sobre literatura africana e afro-americana, além de trabalhos sobre autores árabes e ocidentais. Ashour também participou da elaboração de uma importante obra de referência sobre escritoras árabes, publicada originalmente em quatro volumes e posteriormente em uma edição em inglês intitulada Arab Women Writers: A Critical Reference Guide, 1873–1999. A obra reúne informações biográficas e bibliográficas sobre escritoras árabes e inclui textos originalmente escritos em árabe, francês e inglês, bem como referências a traduções para o inglês.
Literatura Ashour publicou seu primeiro livro, The Journey: Memoirs of an Egyptian Student in America, em 1983. Seu primeiro romance, Warm Stone, foi publicado em 1985. Posteriormente publicou romances como Khadija and Sawsan (1989), Siraj (1992), Granada (1994–1995), Specters (1998) e The Woman from Tantoura (2010), além de coletâneas de contos, memórias e ensaios críticos.
Sua literatura frequentemente combina elementos de ficção, autobiografia, testemunho e reconstrução histórica. Em Specters, por exemplo, a narrativa alterna entre duas personagens femininas e incorpora elementos autobiográficos, história oral, documentação e ficção, diluindo deliberadamente as fronteiras entre experiência pessoal e acontecimentos históricos.
Trilogia de Granada A obra de maior projeção de Ashour é a Trilogia de Granada (Thulāthiyyat Gharnāṭa), composta pelos romances Granada, Maryama e The Departure (al-Rahīl). Os três volumes foram publicados originalmente em árabe entre 1994 e 1995.
A trilogia acompanha várias gerações de uma família muçulmana na Andaluzia após a conquista de Granada pelos Reis Católicos e a progressiva transformação da sociedade granadina. A narrativa aborda as consequências da conquista e das políticas de conversão, confisco, perseguição e expulsão que atingiram a população muçulmana e judaica da região.
Em vez de concentrar sua narrativa nos grandes personagens políticos do período, Ashour apresenta a história por meio da experiência de indivíduos e famílias, acompanhando as transformações da vida cotidiana e os esforços de uma comunidade para preservar sua língua, suas práticas culturais, sua memória e suas formas de pertencimento. A obra foi posteriormente traduzida para diversas línguas; a primeira tradução integral para o inglês dos três romances, reunidos em um único volume, foi publicada em 2024.
A trilogia recebeu reconhecimento literário no mundo árabe. A primeira parte, Granada, recebeu o prêmio de Livro do Ano da Feira Internacional do Livro do Cairo em 1994, enquanto a trilogia recebeu o primeiro prêmio da Feira do Livro da Mulher Árabe, realizada no Cairo, em 1995. A obra também foi incluída pela União dos Escritores Árabes em uma seleção dos romances árabes de destaque do século XX.
A crítica acadêmica posteriormente examinou a trilogia a partir de diferentes perspectivas. Estudos destacam, entre outros aspectos, a relação entre literatura e discurso histórico, a representação da experiência da população árabe-muçulmana de Granada e a utilização do passado andaluz para estabelecer relações com experiências posteriores de deslocamento, dominação e perda territorial. Um estudo publicado no Cambridge Journal of Postcolonial Literary Inquiry, por exemplo, interpreta a trilogia como uma obra que aproxima a experiência dos habitantes árabes da Granada sob a Inquisição de experiências posteriores, incluindo a dos palestinos no século XX.
Outro estudo acadêmico, publicado em Middle Eastern Literatures, analisa a trilogia como uma narrativa que estabelece relações entre a população árabe de Granada, a escravização de andaluzes e a violência colonial praticada contra povos indígenas nas Américas.
História, memória e testemunho A relação entre literatura e memória histórica constitui um dos elementos recorrentes da obra de Ashour. Sua ficção histórica não se limita à reconstrução de acontecimentos passados, mas utiliza o passado como meio de abordar questões sociais e políticas do presente. A crítica literária Marina Warner observou que Ashour empregava a ficção histórica para examinar formas contemporâneas de opressão, inclusive em contextos nos quais a censura dificultava uma abordagem direta desses assuntos.
Em Specters, essa estratégia assume uma dimensão autobiográfica. O romance relaciona a experiência pessoal de Ashour às transformações políticas do Egito durante os governos de Gamal Abdel Nasser e Anwar Sadat. A obra também estabelece uma relação entre a experiência individual, a memória familiar e acontecimentos históricos relacionados à Palestina.
Essa combinação entre testemunho e ficção também está presente em obras posteriores. The Woman from Tantoura, publicada originalmente em 2010, acompanha Ruqayya, uma mulher palestina que, aos treze anos, presencia a violência ocorrida durante a Nakba de 1948 e posteriormente passa a viver como refugiada. A narrativa acompanha sua vida ao longo de décadas, incluindo seu deslocamento por diferentes países e a transmissão da memória da perda para as gerações seguintes.
Temas e importância literária A obra de Ashour é frequentemente estudada em relação aos temas da memória coletiva, do deslocamento, da identidade cultural, do colonialismo e da resistência. Sua importância para a literatura árabe contemporânea também está relacionada à combinação entre narrativa histórica e experiências individuais, especialmente de pessoas e comunidades afetadas por processos de conquista, expulsão e exílio.
A literatura de Ashour também possui uma dimensão significativa relacionada à escrita de mulheres árabes. Seu trabalho acadêmico na organização de Arab Women Writers: A Critical Reference Guide, 1873–1999 contribuiu para a documentação e divulgação da produção literária de escritoras árabes. A obra contém biografias e bibliografias de autoras e é utilizada como referência nos estudos de literatura árabe e literatura de autoria feminina.
Sua posição como pesquisadora de literatura afro-americana também influenciou sua perspectiva literária. O Departamento de Estudos Afro-Americanos da Universidade de Massachusetts destaca que Ashour identificava, na literatura afro-americana, uma relação particularmente próxima com as experiências de opressão e de resistência que também eram relevantes para leitores do mundo árabe.
Dessa forma, a obra de Ashour ocupa uma posição de interseção entre a literatura árabe, a ficção histórica, a literatura de testemunho e os estudos pós-coloniais. A Trilogia de Granada, em particular, tornou-se objeto de estudos que analisam a maneira como a ficção pode reinterpretar acontecimentos históricos e relacioná-los a experiências posteriores de deslocamento, colonialismo e perda cultural.
Vida pessoal Ashour casou-se em 1970 com o poeta e escritor palestino Mourid Barghouti. O casal teve um filho em 1977, Tamim al-Barghouti, que também se tornou poeta. A experiência da separação provocada pelo exílio de Barghouti esteve presente na trajetória pessoal e literária de Ashour. No mesmo ano, Mourid foi deportado do Egito para a Hungria, enquanto Ashour e o filho permaneciam no Cairo e lhe faziam visitas frequentes.
Ashour também atuou como tradutora. Entre seus trabalhos nessa área está a tradução para o inglês de Midnight and Other Poems, coletânea de poemas de Mourid Barghouti publicada em 2008.
Morte Ashour morreu no Cairo, em 30 de novembro de 2014, aos 68 anos de idade, após enfrentar vários problemas de saúde.
Obras selecionadas Romances Warm Stone (1985) Khadija and Sawsan (1989) Siraj (1992) Granada (1994) Maryama (1995) The Departure (1995) Specters (1998) The Woman from Tantoura (2010)
Memórias e autobiografia The Journey: Memoirs of an Egyptian Student in America (1983) Heavier Than Radwa (2013)
Crítica literária e estudos Arab Women Writers: A Critical Reference Guide, 1873–1999 — coeditora.
Prêmios Prêmio de Livro do Ano da Feira Internacional do Livro do Cairo — 1994, pela primeira parte da Trilogia de Granada; Primeiro prêmio da Feira do Livro da Mulher Árabe — 1995, pela Trilogia de Granada; Prêmio Cavafy de Literatura — 2007; Prêmio Owais de Ficção — concedido a Ashour por sua produção literária.
Categoria:Naturais do Cairo Categoria:Escritores do Egito Categoria:Mulheres na literatura Categoria:Alunos da Universidade do Cairo