O Mocambo do Camuanga foi um mocambo dos Palmares, ativo no final do século XVII e início do século XVIII e associado à liderança de Camuanga. Formado no contexto de dispersão e reorganização dos assentamentos palmarinos depois da destruição da Cerca do Barriga, em 1694, e da morte de Zumbi, em 1695, o mocambo foi um dos principais núcleos de resistência documentados no período posterior.

O historiador Marc A. Hertzman situa sua atividade aproximadamente entre 1699 e 1704. Silvia Hunold Lara, com base na documentação administrativa colonial, situa sua destruição por volta de 1704.

Contexto

A destruição da Cerca do Barriga e a morte de Zumbi não encerraram a existência dos mocambos vinculados a Palmares. A documentação das décadas seguintes mostra assentamentos menores e mais dispersos, com novas formas de organização política e militar. Lara identifica entre os principais núcleos desse período os comandados por Camuanga, João Martins e Mouza, destruídos aproximadamente em 1704, 1705 e 1714, respectivamente.

Hertzman caracteriza essa fase como marcada pela manutenção e reconstrução das redes de fugitivos depois de 1695. Segundo o historiador, os mocambos de Camuanga, João Martins e Mouza ocuparam territórios menores que os controlados pelos palmarinos nas décadas de 1680 e início de 1690, mas demonstram a continuidade da resistência depois da morte de Zumbi.

Localização

O mocambo situava-se nas cabeceiras de Porto Calvo, próximo ao arraial de São Caetano, nas margens do rio Jacuípe. Lara estima a distância entre o assentamento e o outeiro do Barriga em cerca de quarenta léguas.

Essa localização deve ser entendida de forma aproximada. A própria reconstrução cartográfica dos mocambos posteriores a 1695 baseia-se nas distâncias, trajetos e referências geográficas fornecidas pela documentação colonial, e não na identificação arqueológica de coordenadas precisas.

Campanhas coloniais

As fontes registram diversas operações contra Camuanga e as pessoas reunidas em torno de seu mocambo. Em 1699, uma expedição colonial fez prisioneiros entre os integrantes do grupo, incluindo a mulher de Camuanga e um de seus filhos.

Outra documentação registra a atuação do sargento-mor Cristóvão de Mendonça Arrais na região. Uma carta patente de 15 de dezembro de 1704, preservada na Torre do Tombo e catalogada pelo projeto Documenta Palmares, informa que Mendonça comandou o arraial de São Caetano, nas cabeceiras de Porto Calvo, e enfrentou Camuanga num engenho, episódio no qual foram feitos dezoito prisioneiros.

Em 1704, as forças coloniais capturaram outro filho de Camuanga. O prisioneiro foi levado ao Recife e mantido numa fortificação enquanto se preparava sua transferência para Lisboa, mas conseguiu fugir antes do embarque.

As operações militares coexistiram com tentativas de negociação. Hertzman registra que o governador de Pernambuco relatou uma tentativa de um bispo de encontrar-se com Camuanga em data e local previamente combinados. As sucessivas incursões das tropas paulistas, porém, impediam a liderança de permanecer num mesmo lugar por tempo suficiente para que a reunião ocorresse.

Destruição

Lara situa a destruição do mocambo aproximadamente em 1704. Hertzman adota igualmente 1704 como limite final do período de atividade documentada do assentamento, que situa entre 1699 e 1704.

O desaparecimento desse núcleo não significou o fim dos mocambos relacionados a Palmares. Outros grupos permaneceram ativos no início do século XVIII, entre eles os comandados por João Martins e Mouza.

Nome

O projeto Documenta Palmares, da Universidade Estadual de Campinas, adota Mocambo do Camuanga como forma normalizada do nome do assentamento. O nome corresponde à liderança Camuanga, cuja grafia documental também aparece como Camoanga. O Documenta Palmares normaliza a forma pessoal como Camuanga.

Bibliografia

Categoria:Quilombo dos Palmares