Roberto Landell de Moura (Porto Alegre, – Porto Alegre, ) foi um padre católico, cientista e inventor escoto-brasileiro.

Teve sólida formação cultural e científica, e formou-se sacerdote em Roma. Voltando ao Brasil, passou a desenvolver sua carreira eclesiástica, sendo indicado para diversas paróquias nos estados do Rio Grande do Sul e São Paulo, mas pouco se sabe deste aspecto de sua vida, que parece ter sido pouco expressivo. Embora fosse devotado ao sacerdócio, antes de radicar-se definitivamente no Rio Grande do Sul suas passagens pelas paróquias foram tipicamente breves, e mais de uma vez pediu exoneração voluntária. Sabe-se que sua devoção à ciência e suas ideias avançadas para seu tempo causaram algumas vezes o espanto e a revolta dos católicos, e isso pode ter sido um fator importante na sua incapacidade de desenvolver um trabalho pastoral estável, e ao mesmo tempo seus experimentos ocupavam muito de sua energia e atenção. Somente na fase final de sua vida religiosa, já tendo deixado a ciência em segundo plano, sua carreira na Igreja se consolidou, sendo designado sucessivamente vigário-geral da Arquidiocese de Porto Alegre, cônego e penitenciário do Cabido Metropolitano, monsenhor e arcediago, responsável também pela paróquia do Menino Deus e finalmente pela paróquia do Rosário, em cuja igreja hoje estão depositados seus despojos.

Landell de Moura, no entanto, é mais conhecido pelo seu pioneirismo na ciência da telecomunicação, tendo desenvolvido uma série de pesquisas e experimentos que o colocam como um dos primeiros a conseguir a transmissão de som e sinais telegráficos sem fio por meio de ondas eletromagnéticas, o que daria origem ao telefone e ao rádio, senão o primeiro de todos, o que ainda é motivo de polêmicas. Vários testemunhos afirmam que ele vinha realizando testes bem sucedidos em ambas as modalidades de transmissão desde 1893 ou 1894, mas a documentação sobre esses primeiros experimentos é pobre e a data é disputada. O seu primeiro registro inconteste, documentado publicamente, é de 3 de junho de 1900, testando com sucesso aparelhos que transmitiram sem fio sons e sinais telegráficos. No Brasil ele usualmente é considerado o pioneiro em nível mundial. Nos outros países sua realização permanece largamente ignorada, embora um crescente número de fontes estrangeiras estejam aceitando sua primazia. Também deixou projetos que apontam seu pioneirismo na transmissão de imagens sem fio, sendo considerado nacionalmente um precursor da televisão e das fibras ópticas, mas também nestes campos a documentação sobrevivente não é muito clara, e internacionalmente sua contribuição nesta área específica caiu num esquecimento quase total. Demonstrou paralelamente algum interesse pela homeopatia, pela psicologia e pelo espiritismo, abordados pelo viés da ciência.

Teve muitas dificuldades técnicas e financeiras para desenvolver suas pesquisas, trabalhou a maior parte do tempo sozinho e encontrou muita resistência e incredulidade por parte de autoridades e da população, o que impediu que seu reconhecimento em vida fosse mais amplo, mas em certas esferas sua estatura científica foi devidamente apreciada e sabe-se que rejeitou oportunidades de divulgar seus inventos. Assim, a ideia popular que se formou em torno dele como um perseguido, injustiçado e sofrido cientista enfrentando um mundo insensível e obscurantista, se tem uma parte de verdade, tem também seu lado de mito romântico. A sua biografia ainda tem muitas lacunas e do seu legado científico apenas parte foi estudado, havendo muita documentação autógrafa ainda por explorar. Seja como for, no Brasil já recebeu uma série de homenagens e reconhecimentos oficiais. É cidadão honorário da cidade de São Paulo, patrono da Ciência, da Tecnologia e da Inovação do município de Porto Alegre, patrono dos radioamadores brasileiros, e em 2012, por decreto presidencial, seu nome foi inscrito no Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria.

Biografia Primeiros anos e início da carreira eclesiástica Roberto Landell de Moura nasceu na cidade de Porto Alegre, capital do estado do Rio Grande do Sul, em 21 de janeiro de 1861, filho do capitão do Exército e grande comerciante de carvão Inácio José Ferreira de Moura e de Sara Mariana Landell, ambos de tradicionais famílias gaúchas, descendente o pai de portugueses e a mãe de escoceses. Foi o quarto de quatorze irmãos, tendo sido batizado na Igreja do Rosário, junto com sua irmã Rosa, em 19 de fevereiro de 1863.Marcelo S. Alencar, Waslon T. A. Lopes & Alencar, Thiago T. O Fantástico Padre Landell de Moura e a Transmissão sem Fio . Memorial Landell de Moura.Rodrigues, Ivan Dorneles. Tributo ao Padre Cientista Roberto Landell de Moura . Memorial Landell de Moura.

Seu pai lhe transmitiu as primeiras letras. Realizou os seus primeiros estudos formais em Porto Alegre, na escola do professor Hilário Ribeiro, e em 1872 matriculou-se com seu irmão Ignácio no Colégio Jesuíta de Nossa Senhora da Conceição, em São Leopoldo, na época o mais distinguido colégio do estado, onde cursou Humanidades, concluindo esta etapa em 10 de outubro de 1873. Voltou a Porto Alegre e ingressou em 1874 no colégio do professor Fernando Ferreira Gomes, também um educandário de grande prestígio e o maior da capital, onde estudou francês, alemão e gramática portuguesa. Em manuscritos seus, há uma notícia de que aos dezesseis anos teria inventado uma espécie de telefone, apenas um ano depois de Graham Bell, mas não deixou nenhuma descrição precisa do aparelho. thumb|Landell de Moura quando jovem thumb|Basílica de Nossa Senhora do Carmo, Campinas

Com o fechamento parcial do Colégio Gomes em 1876, devido à aposentadoria do seu diretor, Landell de Moura seguiu para o Rio de Janeiro, com o objetivo de estudar na Escola Politécnica, ao que parece sustentando-se com emprego em um armazém de secos e molhados. No entanto, permaneceria ali poucos meses. Seu irmão Guilherme o encontrou na cidade do Rio antes de seguir para Roma, onde estudaria para tornar-se padre, e o convenceu a abraçar também a vida religiosa.

Matriculou-se em 22 de março de 1878 no Colégio Pio Americano, onde estudou Direito Canônico, ingressando ao mesmo tempo na Universidade Gregoriana, onde fez outros estudos, de natureza incerta.Casonatto, Odalberto Domingos. O Padre Landell de Moura e a Ciência . Monografia. Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande Sul, 2010 Completou sua formação eclesiástica e foi ordenado sacerdote secular em 28 de outubro de 1886, no mesmo dia celebrando sua primeira missa. Em Roma conceberia sua teoria sobre a unidade entre as forças físicas do Universo e sua harmonia essencial.Santos, César Augusto Azevedo dos. "Landell de Moura ou Marconi, quem é o Pioneiro?" In: XXVI Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação. Belo Horizonte, 02-06/09/2003

Chegando de retorno ao Brasil em 7 de fevereiro de 1887, passou a residir no Seminário São José, localizado no Morro do Castelo, no Rio de Janeiro. Nesta época substituiu algumas vezes o coadjutor do capelão do Paço Imperial, rezando sua primeira missa no Rio para o imperador D. Pedro II e sua corte. Com o imperador, outro amante das ciências, entreteria várias conversas.

Contudo sua permanência no Rio seria novamente breve. Em 20 de fevereiro de 1887 estava de volta ao Rio Grande do Sul, nomeado capelão da Capela Nosso Senhor Jesus do Bom Fim e professor de História Universal do Seminário Episcopal de Porto Alegre. Em 27 de junho de 1891 foi provisionado vigário encomendado da Paróquia de Santana na cidade de Uruguaiana, ali ficando até 31 de outubro do mesmo ano.

Em 1892 foi transferido para o estado de São Paulo, designado para a paróquia de Santos, e de 28 de outubro de 1894 a 19 de dezembro de 1896 foi pró-pároco da Igreja Matriz de Santa Cruz (hoje a Basílica Nossa Senhora do Carmo), em Campinas, mandando dourar o púlpito, as tribunas e os altares, mas desenvolveu uma atuação pastoral discreta, uma vez que era um simples substituto do titular, o cônego Cipião Goulart Junqueira, que já era idoso. Em 2 de março de 1898 foi nomeado pároco da Capela de Santa Cruz de Santana, na cidade de São Paulo, assumindo também a responsabilidade pela tesouraria da paróquia e pela capelania do Colégio Sagrado Coração de Maria. No ano seguinte ele é encontrado envolvido em um grandioso projeto de construção de uma instituição de ensino, a que chamou de “A Polymathica”, composta de um internato, um externato, um colégio proletário e um grêmio para abrigo de senhoras que queriam se retirar do mundo, mas seus planos acabaram frustrados, pois não conseguiu verbas para finalizar as obras. Permaneceria nesta paróquia até outubro de 1900, quando exonerou-se.

Primeiros experimentos científicos

Neste ínterim começava a ser conhecido pelo seu envolvimento com a ciência e iniciava suas primeiras experiências, que desde logo despertaram controvérsias e lhe deram má fama popular. Previa que seria possível a comunicação entre mundos diferentes, e divulgando essas ideias, provocou a ira de seus paroquianos, pois a doutrina da Igreja na época não admitia a possibilidade de vida fora da Terra. Por conta destas ideias revolucionárias, teve seu laboratório vandalizado.

Em 1892 teria construído o primeiro transmissor sem fio de mensagens, antes de Guglielmo Marconi fazer seus primeiros testes na Itália. Entre 1893 e 1894, segundo Fornari, seu primeiro biógrafo e seu contemporâneo, teria realizado a primeira transmissão pública de som por meio de ondas hertzianas, ocorrida entre o alto da Avenida Paulista e o Alto de Santana, cobrindo uma distância de oito quilômetros.Copstein, Jayme. O Telefone que o Brasil não Ligou . Memorial Landell de Moura. Na ocasião ele testou um transmissor de ondas, um telégrafo sem fio e um telefone sem fio. Contudo, segundo Luiz Netto, não existe documentação sólida a respeito da data dos primeiros experimentos, o que prejudicou seu reconhecimento internacional.Netto, Luiz. Conheça o homem que apertou o botão da comunicação — padre Roberto Landell de Moura . Memorial Landell de Moura. Testemunhos de Jayme Leal Velloso, Arthur Dias, Maria Ribeiro de Almeida e do Correio do Povo, recolhidos por Hamilton Almeida, colocam seus primeiros experimentos entre 1890 e 1896. Os experimentos se sucederiam, e em 1899 o Jornal do Commercio assinalou seu sucesso e seu pioneirismo mundial no campo da transmissão do som sem fio: thumb|Primeira página do memorial descritivo da patente brasileira nº 3279, de 9 de março de 1901

"Nas diversas experiências executadas recentemente notou o inteligente inventor, que a zona que à mercê das vibrações do éter percorre o som articulado, se vai alargando à medida que se aproxima do receptor, de modo que, colocando-se vários desses receptores dentro do mesmo campo de recepção, alguns metros separados uns dos outros, todos eles recebem ao mesmo tempo com a mesma clareza a palavra transmitida. Deste resultado, que se saiba, não o obteve sábio algum, nem no velho nem no novo mundo, cabe ao padre Landell toda a glória da invenção. Para tal alcançar não se pense que o infatigável homem de ciência foi de um salto, há muitos anos que faz experiências e estuda metodicamente, entregando-se inteiramente à construção do triunfo que acaba de conseguir, sujeito por certo às leis da mais esquisita precisão, das quais fez nascer o seu pequeno aparelho transmissor e o seu pequeníssimo receptor"."O Telephoro". Jornal do Commercio, 14 de junho de 1899